Os Estados Unidos estão preparando uma mudança que pode transformar profundamente a maneira como seus soldados entram em combate. Máquinas que antes dependiam de tripulações humanas começam a ganhar capacidades que, até poucos anos atrás, pareciam reservadas à ficção científica.
O mais surpreendente é que essa transformação não depende apenas de armas completamente novas. Algumas das tecnologias apresentadas pelos americanos podem mudar até mesmo o papel de veículos militares que atravessaram décadas de guerras.
E o que chama atenção é a velocidade com que essas inovações começam a sair dos laboratórios e aparecer em projetos militares concretos.
Durante a feira militar AUSA 2026, realizada entre 12 e 14 de outubro, empresas como AM General e Textron Systems exibiram avanços que ajudam a entender essa transformação. Entre eles estão veículos sem motorista, robôs de combate e armamentos capazes de identificar alvos com auxílio de inteligência artificial.
Humvee entra em nova geração enquanto EUA desenvolvem veículo militar capaz de operar sem motorista

Durante décadas, o Humvee transportou soldados americanos por desertos, estradas e zonas de combate. Agora, sua fabricante pretende levar a plataforma a uma nova geração, na qual dirigir poderá deixar de ser uma tarefa exclusivamente humana.
A AM General apresentou uma modernização do veículo com motor de 250 cavalos de potência, transmissão automática de seis velocidades e suspensão redesenhada. A produção dessa primeira etapa está prevista para o final de 2027.
As fases seguintes deverão incorporar cabine digital, novos sistemas eletrônicos e capacidades de condução autônoma ou com tripulação opcional.
Mas a empresa já trabalha em outro projeto que vai muito além da modernização convencional.

O AMG UGV é um veículo terrestre desenvolvido para operar sem tripulação embarcada, utilizando tecnologias avançadas de navegação autônoma.
Equipado com o sistema XTEND NEST, também pode transportar drones e funcionar como uma base móvel de lançamento.
Imagine um veículo avançando por uma área perigosa sem soldados a bordo. Ao alcançar uma posição estratégica, ele permite lançar um drone para observar o terreno à frente, enquanto os militares permanecem afastados.
É justamente esse tipo de operação que a tecnologia pretende viabilizar.
Apesar da ligação industrial entre os projetos, o Humvee modernizado e o AMG UGV são plataformas distintas. A primeira fase de produção do novo Humvee ainda não inclui todas essas capacidades autônomas.
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Damocles: drone antitanque usa inteligência artificial para localizar blindados e atacar por cima

Enquanto os veículos terrestres avançam rumo à autonomia, outra tecnologia americana explora um dos pontos mais sensíveis dos blindados: sua proteção superior.
O Damocles, desenvolvido pela Textron Systems, é uma munição aérea capaz de decolar verticalmente, procurar objetivos e realizar ataques de precisão.
Segundo a fabricante, o sistema utiliza inteligência artificial e reconhecimento automático de alvos, podendo realizar buscas autônomas ou semiautônomas com supervisão humana.
A arma foi projetada para atingir veículos blindados por cima, onde a proteção costuma apresentar características diferentes da blindagem frontal.
Para isso, utiliza uma cabeça de guerra GEN2 EFP, tecnologia que emprega uma carga explosiva para formar um penetrador metálico de alta velocidade.
Outro diferencial anunciado é a capacidade de operar em ambientes onde o GPS está indisponível, situação comum em conflitos marcados por interferências eletrônicas.
O projeto já despertou interesse formal do Exército americano. Em fevereiro de 2026, Damocles foi selecionado para um acordo de prototipagem no programa LASSO, voltado ao desenvolvimento de armamentos de precisão.
A seleção prevê demonstrações e avaliações militares. Ainda não representa sua incorporação em larga escala às unidades de combate.
RIPSAW: robôs militares avançam sem soldados e podem transportar quase uma tonelada de equipamentos

A transformação também acontece no solo, onde máquinas começam a assumir tarefas que normalmente exigiriam soldados expostos ao fogo inimigo.
Um dos exemplos é o RIPSAW M1, apresentado pela Textron Systems e sua subsidiária Howe & Howe em abril de 2026.
Diferentemente dos blindados convencionais, o veículo foi concebido desde o início para operar sem tripulação embarcada.
Segundo a ficha técnica da Textron, o robô pode alcançar aproximadamente 85 km/h, transportar cerca de 900 kg de carga útil e percorrer até 48 quilômetros em modo elétrico silencioso.
Seu tamanho compacto favorece o emprego em ambientes urbanos, áreas costeiras e espaços onde veículos maiores enfrentam dificuldades.
A plataforma permite instalar diferentes equipamentos conforme a missão, incluindo sensores, sistemas de reconhecimento e dispositivos de combate a drones.
A proposta é enviar máquinas para observar áreas perigosas, transportar suprimentos e apoiar operações, reduzindo a exposição direta dos militares.
O RIPSAW M1 ainda é apresentado como demonstrador tecnológico, mas revela como robôs poderão operar ao lado de veículos tripulados nos campos de batalha.
CoreMotion: tecnologia americana pode transformar veículos militares convencionais em robôs

Talvez a transformação mais profunda não esteja em construir novos veículos, mas em modificar aqueles que os exércitos já possuem.
Em 12 de outubro, a Textron Systems apresentou o CoreMotion, um sistema desenvolvido para integrar controles robóticos a plataformas militares novas ou existentes.
Na prática, a tecnologia recebe comandos de um operador ou de programas de navegação autônoma e os transforma em ações físicas, como acelerar, frear e mudar de direção.
Existe, porém, uma diferença importante.
Um veículo controlado remotamente depende de instruções enviadas por uma pessoa. Já um sistema de navegação autônoma pode executar determinadas tarefas de deslocamento utilizando sensores e programas que interpretam o ambiente.
O CoreMotion foi desenvolvido para trabalhar com essas arquiteturas, mas sua instalação isolada não transforma qualquer veículo em uma máquina completamente autônoma.
Segundo a Textron Systems, a tecnologia acumula mais de 8 mil milhas de operação em veículos da família RIPSAW, aproximadamente 12,9 mil quilômetros.
A experiência abre caminho para oferecer o sistema a outras plataformas militares.
Em vez de substituir imediatamente milhares de veículos, os exércitos poderão avaliar a incorporação de capacidades robóticas a parte dos equipamentos que já utilizam.
Exército dos EUA acelera transformação militar e prepara operações com cada vez menos tripulações
Os avanços apresentados pela indústria americana não surgem isoladamente.
Em outubro, o Exército dos Estados Unidos anunciou o Futures and Autonomous Systems Command (FASCOM), uma estrutura destinada a acelerar o desenvolvimento e a incorporação de sistemas autônomos em áreas como blindados, aviação, logística e apoio ao combate.
A iniciativa acompanha uma transformação mais ampla, na qual veículos terrestres, drones e armamentos inteligentes passam a assumir funções que tradicionalmente dependem da presença humana.
A mudança também interessa ao Brasil. Um estudo de modernização do Exército Brasileiro prevê 2.000 drones de ataque com alcance superior a 1.000 quilômetros, embora a proposta ainda não represente um programa de aquisição aprovado pelo governo.
Nem todas as tecnologias americanas estão prontas para entrar em combate. Algumas permanecem em testes, enquanto outras dependem de contratos e avaliações antes de uma possível produção em escala.
Mas os projetos apresentados apontam para uma mudança que vai além da potência dos motores ou da capacidade destrutiva das armas.
A próxima geração de veículos de guerra poderá ser definida também por algo que, durante décadas, pareceu indispensável: a presença de um ser humano ao volante.