Tanques argentinos equipados com sensores israelenses chegaram ao Brasil para o Exercício Arandu 2026 e dividiram o campo de manobras com os Leopard 1A5 BR do Exército Brasileiro. O encontro no Rio Grande do Sul colocou lado a lado duas estratégias de modernização: enquanto a Argentina incorpora tecnologias mais recentes aos seus blindados, o Brasil trabalha para prolongar a vida útil de parte de sua frota até 2040.
Os veículos participaram das operações encerradas em outubro, que também marcaram a estreia do Centauro II brasileiro em um grande exercício militar internacional. A presença dos três modelos permitiu observar diferenças nos sistemas de combate, especialmente nos equipamentos utilizados para localizar alvos, preparar disparos e proteger as tripulações.
Uma análise publicada pela InfoDefensa nesta quarta-feira, 21 de outubro, examinou justamente essas diferenças. A reportagem destaca que os TAM 2C-A2 argentinos receberam tecnologias da israelense Elbit Systems, enquanto os Leopard brasileiros continuam utilizando o sistema de controle de tiro EMES 18, desenvolvido em uma geração anterior.
A comparação ocorre em um momento importante para os dois países. A Argentina incorporou recentemente seu segundo esquadrão de TAM modernizados, enquanto o Exército Brasileiro iniciou a revitalização de 52 Leopard 1A5 BR e avançou na contratação dos novos Centauro II, equipados com canhões de 120 milímetros.
Argentina moderniza tanques com sensores israelenses e leva equipamentos ao Brasil
O TAM é um velho conhecido do Exército Argentino. Desenvolvido a partir de um projeto da década de 1970, o carro de combate permaneceu durante décadas como um dos principais equipamentos das forças blindadas do país.
Em vez de substituir imediatamente toda a frota, Buenos Aires decidiu atualizar parte desses veículos, incorporando recursos que não existiam quando os primeiros modelos entraram em serviço.
Na configuração TAM 2C-A2, os blindados receberam novos sistemas de controle de tiro, câmeras térmicas e equipamentos de observação capazes de melhorar a identificação de alvos durante o dia e à noite.
Entre as novidades estão dois sistemas eletro-ópticos COAPS-L. Um deles permite ao comandante observar o terreno com visão panorâmica de 360 graus, enquanto o outro trabalha alinhado ao canhão, oferecendo ao atirador informações para identificar e acompanhar os alvos.
Os argentinos também incorporaram o E-LAWS, sistema israelense que alerta a tripulação quando o tanque é iluminado por determinados equipamentos laser utilizados para medir distâncias ou orientar armamentos. Dependendo da situação, a tecnologia pode acionar automaticamente lançadores de granadas de fumaça para dificultar a identificação do veículo.
O programa tem participação da Elbit Systems e recebeu apoio de engenharia da Ares Aeroespacial e Defesa, empresa instalada no Brasil e integrante do grupo israelense. Parte dos trabalhos de integração é realizada na própria Argentina, envolvendo instalações militares e fornecedores locais.
A modernização ganhou ritmo nos últimos anos. O primeiro esquadrão, com dez TAM 2C-A2, foi entregue em dezembro de 2024. Em setembro de 2026, o Exército Argentino incorporou um segundo esquadrão ao Regimento de Cavalaria de Tanques 8, ampliando o número de veículos atualizados disponíveis para suas unidades.
Poucas semanas depois, parte desses equipamentos cruzou a fronteira brasileira para participar do Arandu, onde realizou manobras e atividades de tiro ao lado de blindados do Exército Brasileiro.
Exército Brasileiro inicia revitalização de 52 Leopard e pretende mantê-los até 2040
Enquanto a Argentina atualiza a eletrônica de seus TAM, o Brasil enfrenta outro desafio: manter seus Leopard 1A5 BR em condições de operação até que seja definida uma nova geração de carros de combate.
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Os blindados de origem alemã estão em serviço no Exército Brasileiro desde 2009 e continuam sendo empregados principalmente nas brigadas blindadas do Sul do país.
Embora possuam equipamentos de observação e controle de tiro, incluindo recursos para emprego noturno, seus sistemas pertencem a uma geração tecnológica anterior à dos sensores mais recentes incorporados aos TAM argentinos.
A substituição desses componentes por uma arquitetura inteiramente nova exigiria investimentos e adaptações que vão além dos trabalhos atualmente previstos para os Leopard brasileiros.
Em junho de 2026, um artigo publicado no Blog do Exército Brasileiro pelo general de brigada André Dias e pelo coronel Idunalvo Mariano de Almeida Júnior detalhou o planejamento adotado para prolongar a utilização das viaturas.
O projeto, lançado no segundo semestre de 2025, prevê a revitalização de 52 Leopard 1A5 BR ao longo de dez anos, permitindo que parte da frota permaneça em serviço até 2040.
Os trabalhos estão concentrados no Parque Regional de Manutenção da 3ª Região Militar, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Cada blindado passa por uma avaliação de seus componentes mecânicos e eletrônicos, com reparos no chassi, na torre e nos sistemas necessários ao funcionamento do veículo.
O cronograma estabelecido para 2026 contempla cinco viaturas, das quais as duas primeiras foram entregues em março. A recuperação de cada unidade exige, em média, dois meses de trabalho especializado.
Também existe uma preocupação crescente com o fornecimento de peças. Como os Leopard 1 deixaram de ser produzidos há décadas, encontrar determinados componentes tornou-se mais difícil, levando engenheiros militares brasileiros a desenvolver soluções próprias para manter os equipamentos funcionando.
O objetivo imediato é recuperar as capacidades originais dos veículos, preservando sua disponibilidade operacional enquanto o Exército estuda alternativas para substituir os carros de combate atuais.
Há, portanto, uma diferença importante entre os programas. A Argentina está incorporando novos recursos eletrônicos para ampliar as capacidades dos TAM, enquanto o projeto brasileiro de revitalização procura principalmente restaurar e preservar o desempenho dos Leopard.
Centauro II de 120 mm representa avanço brasileiro, mas não substitui os Leopard
O Arandu 2026 também permitiu observar uma terceira plataforma que começa a ganhar espaço no Exército Brasileiro.
O Centauro II, blindado italiano sobre oito rodas e equipado com canhão de 120 milímetros, participou das manobras no Rio Grande do Sul depois de o Brasil avançar na contratação de suas primeiras unidades.
Durante as demonstrações, o veículo realizou disparos e apresentou seus recursos de mobilidade e controle de tiro. Segundo a análise da InfoDefensa, seus sensores e sistemas de aquisição de alvos apresentaram desempenho superior ao observado nos modelos mais antigos empregados no exercício.
A chegada dessa tecnologia representa um avanço importante para a cavalaria brasileira, mas o Centauro II desempenha uma função diferente da dos Leopard.
Enquanto os carros de combate alemães utilizam lagartas e integram as formações blindadas pesadas do Exército, o Centauro foi escolhido principalmente para substituir os antigos Cascavel 6×6 nas unidades de cavalaria mecanizada.
Em 31 de agosto de 2026, o Exército assinou o contrato para a aquisição definitiva de um lote inicial do Centauro II, dentro de um programa que prevê chegar a 98 unidades. O acordo também contempla transferência de tecnologia e participação industrial brasileira.
A montagem de parte dos veículos será realizada em Sete Lagoas, Minas Gerais, aproveitando a estrutura industrial já utilizada em programas como o Guarani.
Com essa aquisição, o Brasil passa a incorporar um sistema moderno de 120 milímetros sobre rodas. Entretanto, a renovação das unidades equipadas com Leopard depende de outra decisão, envolvendo veículos sobre lagartas destinados a substituir os atuais carros de combate.
Brasil ainda precisa definir sucessor dos Leopard enquanto Argentina amplia modernização dos TAM
Entre as alternativas apresentadas ao Exército Brasileiro está o Tulpar, desenvolvido pela empresa turca Otokar. O veículo já apareceu em apresentações no Brasil equipado com uma torre Hitfact e canhão de 120 milímetros, configuração semelhante à utilizada pelo Centauro II.
A fabricante oferece o modelo como uma possível solução para substituir carros de combate mais antigos, combinando uma plataforma sobre lagartas com sistemas modernos de observação, controle de tiro e proteção.
A adoção do Tulpar, porém, ainda não foi anunciada pelo Exército Brasileiro. Sua presença em demonstrações e propostas comerciais não representa uma decisão de compra.
Outros fatores também precisam entrar na avaliação, como a proteção dos veículos, os custos de manutenção, a transferência de tecnologia e a capacidade da indústria nacional de participar do fornecimento de componentes.
O próprio Exército reconhece que a revitalização dos Leopard é uma solução de continuidade, destinada a preservar a capacidade operacional das unidades blindadas enquanto a substituição é preparada.
A diferença em relação ao caminho argentino ficou particularmente visível no Arandu. Os dois países continuam utilizando carros de combate armados com canhões de 105 milímetros, mas os TAM 2C-A2 receberam um conjunto de sensores mais recente, enquanto o Brasil passou a recuperar seus Leopard e introduzir novas tecnologias em plataformas como o Centauro II.
Pelo planejamento divulgado pelo Exército, a revitalização dos 52 Leopard seguirá durante os próximos anos. O programa prevê mantê-los operacionais até 2040, período em que a Força ainda precisará definir, contratar e incorporar os veículos destinados a assumir seu lugar nas brigadas blindadas.