Dos 25 helicópteros Mi-17 comprados entre 1996 e 2007, seis já foram perdidos e outros 12 estão parados. Sem empresas interessadas em um contrato de aproximadamente US$ 127 milhões, o Exército colombiano enfrenta o risco de perder toda a capacidade operacional dessa frota nos próximos três anos.
O Exército da Colômbia enfrenta uma crise na manutenção de sua frota de helicópteros russos Mi-17, uma das aeronaves utilizadas pela instituição para transportar tropas, equipamentos e suprimentos em diferentes regiões do país. Das 25 unidades adquiridas ao longo de mais de uma década, apenas sete permanecem em condições operacionais. Outras 12 estão paradas, enquanto seis já foram definitivamente retiradas do inventário após perdas totais.
A situação ganhou um novo capítulo em outubro de 2026, quando se confirmou que uma tentativa de contratar empresas privadas para executar a manutenção pesada das aeronaves não havia produzido propostas formais. O negócio, estimado em mais de 408 bilhões de pesos colombianos, aproximadamente US$ 127 milhões, deveria permitir a recuperação de helicópteros que aguardam intervenções técnicas profundas.
Receba nossas notícias independente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
Segundo investigação da Caracol Radio, publicada pelo jornal espanhol El País em 9 de outubro, as projeções militares indicam que o último Mi-17 poderá deixar de voar em 2029, caso não seja encontrada uma solução para o fornecimento de peças, certificações e manutenção dos principais componentes.
O problema ultrapassa a falta de recursos para reparos. A dependência tecnológica da indústria aeronáutica russa, associada às sanções internacionais impostas a Moscou após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022, colocou a aviação do Exército colombiano diante de uma situação em que possuir os helicópteros não significa conseguir mantê-los voando.
Contrato de US$ 127 milhões não atrai propostas e deixa 12 helicópteros Mi-17 parados

A tentativa mais recente de recuperar a frota começou em 18 de agosto de 2026, quando o Exército colombiano abriu uma consulta ao mercado para identificar empresas capazes de realizar a manutenção geral dos helicópteros Mi-17.
O procedimento, registrado na plataforma pública SECOP II, estabelecia duas condições particularmente difíceis para os possíveis fornecedores: não utilizar empresas incluídas nas listas de sanções da Oficina de Controle de Ativos Estrangeiros dos Estados Unidos (OFAC) e apresentar certificação do fabricante russo MIL.
As exigências tinham justificativas técnicas e jurídicas. A primeira buscava impedir vínculos com organizações sancionadas e reduzir riscos relacionados à aquisição de componentes sem procedência certificada. A segunda pretendia assegurar que intervenções em motores, transmissões e outros sistemas críticos respeitassem os padrões de manutenção e aeronavegabilidade exigidos para esses equipamentos.
Na prática, porém, as condições criaram um impasse.
Empresas capazes de trabalhar com equipamentos de origem russa precisariam demonstrar relações técnicas com fabricantes ou representantes que poderiam estar submetidos a restrições internacionais. Ao mesmo tempo, fornecedores que operam dentro do sistema de sanções ocidental enfrentariam dificuldades para atender às exigências de certificação.
A empresa colombiana Kriegsgott Group chegou a solicitar mais prazo para participar do procedimento, cujo recebimento de propostas estava previsto para terminar em 18 de setembro. Segundo a apuração publicada pelo El País, nenhuma proposta formal foi apresentada.
O resultado deixou sem solução imediata a situação dos 12 helicópteros encontrados nas instalações do Batalhão de Manutenção de Aviação nº 3, no Forte Militar de Tolemaida, onde funciona parte da estrutura de sustentação da aviação do Exército.
Essas aeronaves dependem de manutenção pesada, conhecida como overhaul, necessária quando determinados limites técnicos de horas de voo ou períodos de utilização são atingidos.
Não se trata simplesmente de substituir peças desgastadas. O procedimento pode exigir desmontagem, inspeções estruturais, revisão de motores, verificação de transmissões, substituição de componentes e certificações antes da liberação para novas missões.
O helicóptero da Operação Jaque pode parar ainda em 2026, enquanto toda a frota se aproxima do fim
Entre as aeronaves ameaçadas está um helicóptero associado à histórica Operação Jaque, realizada em julho de 2008, quando forças colombianas conseguiram libertar reféns mantidos pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).
O aparelho teria menos de 90 horas de voo disponíveis antes de atingir seu próximo limite operacional, conforme as informações levantadas pela Caracol Radio.
Sua possível retirada de serviço ainda em 2026 representa uma perda que ultrapassa o valor material da aeronave. O helicóptero participou de um episódio marcante da história militar colombiana, mas agora enfrenta as mesmas limitações logísticas e técnicas dos demais equipamentos de origem russa.
A projeção apresentada pelos militares indica a seguinte redução:
| Período | Helicópteros Mi-17 operacionais |
|---|---|
| Outubro de 2026 | 7 |
| Final de 2026 | 5 |
| Final de 2027 | 2 |
| Final de 2028 | 2 |
| 2029 | 0 |
Os números constituem uma estimativa, não um calendário definitivo de desativação. A previsão também considera condições relativamente favoráveis, sem incorporar eventuais falhas inesperadas capazes de antecipar a paralisação de outras aeronaves.
Isso significa que o desaparecimento operacional da frota pode ocorrer antes de 2029.
O Mi-17 possui características que o tornam especialmente útil para operações em regiões de acesso difícil, incluindo capacidade de transportar militares, equipamentos e cargas em missões de apoio logístico e assalto aéreo.
Para um país com áreas montanhosas, extensas regiões de floresta e grandes distâncias entre instalações militares, a disponibilidade desses helicópteros influencia diretamente o planejamento operacional.
A perda progressiva dos aparelhos não representa apenas a redução de um determinado modelo no inventário. Ela obriga o Exército a reorganizar missões, redistribuir recursos e empregar outras aeronaves para cumprir tarefas anteriormente atribuídas aos Mi-17.
Exército colombiano conseguiu ampliar a vida útil de aeronaves, mas manutenção local não resolve a crise
Apesar do cenário desfavorável, a instituição vem tentando preservar parte de sua capacidade técnica.
Em junho de 2026, o Comando Geral das Forças Militares da Colômbia anunciou que especialistas do Batalhão de Manutenção de Aviação nº 3 haviam conseguido ampliar em 500 horas a vida operacional de um Mi-17, por meio de um procedimento desenvolvido com recursos próprios.
O trabalho exigiu aproximadamente um ano de preparação, envolvendo análises técnicas, documentação, processos de certificação e mais de dois meses de intervenção direta na aeronave.
Especialistas em estruturas, motores, aviônicos e inspeção técnica participaram das atividades, que incluíram avaliações estruturais, testes não destrutivos e verificações dos sistemas de bordo.
O resultado foi apresentado pelas Forças Militares colombianas como um avanço na capacidade nacional de sustentação de sua aviação.
A conquista, entretanto, não elimina as restrições que atingem o restante da frota.
Existe uma diferença importante entre ampliar o limite operacional de componentes após avaliações técnicas e executar uma manutenção geral que dependa de peças, documentação e certificações vinculadas ao fabricante.
É justamente nessa segunda etapa que se concentra o problema dos Mi-17 colombianos.
Em Tolemaida, instalações equipadas com apoio russo permitem determinadas intervenções locais, mas não substituem integralmente uma estrutura certificada para revisar todos os componentes principais dos helicópteros.
O risco é que a experiência acumulada pelos técnicos colombianos se torne insuficiente diante do esgotamento dos estoques de peças e da impossibilidade de executar reparos mais complexos.
Acordo de US$ 82 milhões com a Rússia deixou pendências na estrutura de manutenção dos Mi-17
A dependência colombiana da indústria russa não surgiu apenas com a guerra na Ucrânia.
Segundo a investigação da Caracol Radio, as aquisições dos Mi-17 foram acompanhadas por um acordo de compensação industrial, conhecido como offset, que previa aproximadamente US$ 82 milhões em bens, serviços e transferência de capacidades técnicas.
Entre os compromissos estavam a capacitação de 35 técnicos colombianos, fornecimento de ferramentas especializadas, equipamentos industriais, documentação e intervenções destinadas à certificação de pessoal para manutenção das estruturas das aeronaves.
Parte desse processo, relacionada à realização de três grandes intervenções de manutenção, permaneceu sem conclusão.
O centro de manutenção de Tolemaida, mencionado pelas autoridades russas como uma possível alternativa, também não chegou a alcançar toda a capacidade originalmente prevista.
No local existem um hangar e três oficinas que possibilitam serviços específicos, mas não a revisão integral dos principais conjuntos mecânicos.
Outro obstáculo envolve compromissos financeiros anteriores.
Fontes militares ouvidas pela Caracol Radio reconheceram a existência de valores pendentes com a Rússia por serviços de manutenção já realizados. Segundo essas fontes, as restrições aos mecanismos internacionais de pagamento dificultaram a regularização das contas.
Em 3 de setembro de 2026, a Embaixada da Rússia na Colômbia afirmou que Moscou havia demonstrado disposição para garantir a manutenção dos helicópteros.
A manifestação, porém, não se transformou em uma solução operacional capaz de recuperar imediatamente as aeronaves paradas.
O caso evidencia uma vulnerabilidade comum em equipamentos militares importados: a autonomia de uma Força Armada não depende apenas de possuir plataformas de combate ou transporte, mas também de conseguir sustentar sua operação ao longo de décadas.
Quando peças críticas, documentação e certificações continuam concentradas no país fabricante, mudanças nas relações diplomáticas podem afetar diretamente a disponibilidade dos meios militares.
Com 54 pilotos especializados afetados, Exército transfere missões para helicópteros Black Hawk
A paralisação progressiva dos Mi-17 também apresenta consequências para o pessoal militar.
De acordo com a Caracol Radio, a redução da frota está levando à redistribuição gradual de 54 pilotos especializados nesse modelo de helicóptero.
A formação de tripulações para aeronaves militares exige investimento em treinamento, experiência operacional e qualificação específica. Quando um equipamento deixa de operar, parte dessa experiência precisa ser aproveitada em outras funções ou adaptada a novas plataformas.
O Exército colombiano dispõe de 49 helicópteros UH-60 Black Hawk, que vêm absorvendo parte das missões antes realizadas pelos aparelhos russos.
Embora o Black Hawk ofereça capacidades importantes de transporte tático e apoio às operações terrestres, ele não é um substituto idêntico para todas as configurações de emprego dos Mi-17, especialmente quando são consideradas diferenças de capacidade de carga e transporte.
A redistribuição das missões exige adaptações no planejamento de voos, na disponibilidade de aeronaves e na organização logística das unidades apoiadas.
Isso não significa que toda operação anteriormente realizada por um Mi-17 deixe de ser possível, mas que a substituição precisa considerar as características de cada helicóptero.
O desafio colombiano é preservar sua mobilidade aérea sem comprometer a disponibilidade das aeronaves restantes, que passam a assumir uma parcela maior das atividades.
Colômbia pede apoio aos Estados Unidos, mas futuro dos helicópteros russos permanece indefinido
A busca por uma saída também chegou às relações militares entre Bogotá e Washington.
Durante visita à Colômbia realizada entre 26 e 29 de agosto de 2026, o general Francis Donovan, comandante do Comando Sul dos Estados Unidos, recebeu um pedido de apoio relacionado à manutenção dos Mi-17.
A solicitação ocorreu em Tolemaida, uma das principais instalações militares envolvidas na sustentação da frota.
Segundo a investigação publicada pelo El País, os Estados Unidos haviam considerado uma participação no processo em 2024, mas não apresentaram uma alternativa viável na tentativa mais recente.
Até a publicação da reportagem, não havia anúncio de um novo programa capaz de garantir a recuperação dos 12 helicópteros parados.
O futuro da frota permanece condicionado a uma combinação de fatores técnicos, contratuais e diplomáticos, incluindo a possibilidade de acesso regular a componentes russos ou o desenvolvimento de uma solução de manutenção compatível com as restrições internacionais.
O encerramento da guerra na Ucrânia, por si só, não garantiria a suspensão automática das sanções nem o restabelecimento dos contratos. Qualquer retomada dependeria de decisões políticas, condições jurídicas e acordos comerciais específicos.
Por enquanto, o Exército colombiano precisa administrar uma frota cujo horizonte operacional está encolhendo.
O ponto decisivo será saber se Bogotá conseguirá estabelecer uma cadeia de manutenção certificada e financeiramente viável antes que os últimos helicópteros atinjam seus limites técnicos.
Sem essa solução, a Colômbia poderá chegar a 2029 com todos os Mi-17 fora de operação, encerrando progressivamente o emprego de uma frota adquirida ao longo de mais de dez anos e que desempenhou funções importantes na aviação militar do país.