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Exército Brasileiro tentou transformar tanques Sherman da Segunda Guerra em blindados de 29 toneladas, preparou pré-série de 11 veículos, mas testes frustraram o projeto e barraram a homologação

Nos anos 1980, Exército e Moto Peças tentaram converter tanques Sherman em blindados de engenharia de 29 toneladas, com grua de 10 toneladas. Testes frustraram o projeto, e fontes divergem sobre quantos foram construídos.

Noel Budeguer
Por Noel Budeguer 30/10/2026 às 07:12
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Exército Brasileiro tentou transformar tanques Sherman da Segunda Guerra em blindados de 29 toneladas, preparou pré-série de 11 veículos, mas testes frustraram o projeto e barraram a homologação

O Exército Brasileiro tentou ressuscitar os tanques Sherman da Segunda Guerra Mundial e transformá-los em máquinas blindadas de engenharia de 29 toneladas. O projeto, desenvolvido com a Moto Peças no início dos anos 1980, previa aproveitar veículos antigos para rebocar equipamentos pesados, abrir caminhos e apoiar tropas. Uma pré-série de 11 unidades aparece nos registros históricos, mas os testes insatisfatórios impediram a homologação relatada pela principal fonte do projeto.

Era uma aposta ousada: tirar o canhão de um tanque veterano e colocar em seu lugar ferramentas capazes de trabalhar sob proteção blindada. O plano tinha números respeitáveis, como uma grua para erguer 10 toneladas e capacidade de arrastar viaturas de até 40 toneladas. Só que desempenho anunciado e aprovação militar são coisas bem diferentes.

A história, documentada pelo arquivo histórico Lexicar, expõe um contraste incômodo da indústria de defesa brasileira: o país dominava parte das adaptações mecânicas, mas nem todo equipamento que saía da oficina conseguia passar da fase de avaliação.

Tanques da Segunda Guerra perderam a torre para ganhar lâmina, grua e equipamento contra minas

O Sherman M4 foi um dos blindados mais conhecidos da Segunda Guerra Mundial. Décadas depois, os exemplares disponíveis no Brasil já tinham perdido espaço como carros de combate. O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e a fabricante Moto Peças enxergaram outra saída para aquelas estruturas: convertê-las em veículos de engenharia.

Carro de combate M4 Sherman, conhecido como “Vovô”, durante cerimônia do 1º Regimento de Carros de Combate (1º RCC), em 2022. O lendário tanque da Segunda Guerra Mundial serviu de base para projetos brasileiros de modernização e conversão, incluindo o blindado de engenharia de 29 toneladas desenvolvido pela Moto Peças na década de 1980. Foto: Exército Brasileiro / 1º RCC, via Tecnologia & Defesa.
Carro de combate M4 Sherman, conhecido como “Vovô”, durante cerimônia do 1º Regimento de Carros de Combate (1º RCC), em 2022. O lendário tanque da Segunda Guerra Mundial serviu de base para projetos brasileiros de modernização e conversão, incluindo o blindado de engenharia de 29 toneladas desenvolvido pela Moto Peças na década de 1980. Foto: Exército Brasileiro.

A conversão preservava componentes como chassi, suspensão e transmissão, mas alterava profundamente o uso do veículo. Saía a função de enfrentar outros tanques com um canhão. Entravam tarefas de apoio: remover obstáculos, deslocar máquinas avariadas e preparar passagens para tropas.

Na frente, a viatura podia receber uma lâmina de terraplanagem, substituível por um dispositivo de combate a minas. Sobre a carroceria, uma grua hidráulica com braço rebatível poderia levantar cargas de até 10 toneladas. O veículo admitia, segundo o Lexicar, até oito ocupantes. Para um blindado criado a partir de material da década de 1940, a transformação estava longe de ser simples.

Acordo com a Moto Peças avançou em 1982 e exigiu mexer profundamente no velho Sherman

O levantamento do Armas Nacionais situa em maio de 1982 a formalização da cooperação entre o CTEx e a Moto Peças. O veículo ficou conhecido como VBE-Eng M4-30t-Lag, denominação que faz referência à sua categoria de engenharia, à classe de peso e às lagartas.

Uma das intervenções mais importantes foi reorganizar a parte interna para permitir o acesso pela traseira. A nova configuração exigiu mudanças na posição do conjunto motriz e no desenho da carroceria. A ideia era que os militares pudessem embarcar com mais facilidade, sem depender da disposição original de um tanque de combate.

Havia uma razão bem concreta para tanto trabalho: aproveitar peças, conjuntos e estruturas que o Exército já tinha em estoque, em vez de iniciar cada etapa com uma plataforma inteiramente nova. Essa era a lógica do programa. O problema é que transformar um equipamento envelhecido também impõe limites mecânicos e operacionais difíceis de eliminar.

Pré-série de 11 unidades esconde uma divergência sobre quantos veículos foram concluídos

O Lexicar registra a preparação de uma pré-série de 11 blindados, seguida de testes com resultado insatisfatório e falta de homologação. A palavra “pré-série” importa: ela identifica uma etapa de desenvolvimento e não prova, por si só, que todos os exemplares tenham sido entregues para serviço regular.

Protótipo do blindado anfíbio Charrua II, desenvolvido pela Moto Peças na década de 1980, durante testes em terreno acidentado. Enquanto os registros históricos divergem sobre quantos tanques Sherman foram efetivamente convertidos em blindados de engenharia, o Charrua ficou restrito a dois protótipos e também não chegou à produção em série. Foto: Arquivo histórico.
Protótipo do blindado anfíbio Charrua II, desenvolvido pela Moto Peças na década de 1980, durante testes em terreno acidentado. Enquanto os registros históricos divergem sobre quantos tanques Sherman foram efetivamente convertidos em blindados de engenharia, o Charrua ficou restrito a dois protótipos e também não chegou à produção em série. Foto: Arquivo histórico.

Outro registro histórico apresenta uma contagem diferente. O Armas Nacionais descreve um planejamento inicial de 15 veículos, mas menciona a construção de um protótipo e cinco unidades de série, encaminhadas para avaliações e, depois, a organizações militares. Os relatos concordam que o programa ficou pequeno; divergem no total efetivamente concluído e no alcance de seu emprego.

Até hoje, os dois levantamentos circulam com números distintos: onze veículos preparados para a pré-série, segundo o Lexicar, e seis efetivamente construídos, de acordo com o Armas Nacionais. Os registros conhecidos deixam aberta a quantidade exata de viaturas que chegou às unidades. A produção ampla nunca saiu do papel.

Testes decepcionaram e o dispositivo contra minas revelou limitações em terrenos difíceis

O motivo mais diretamente documentado para a interrupção é simples e duro: o resultado dos testes não satisfez as exigências esperadas, conforme o Lexicar. O projeto não recebeu a homologação descrita naquele levantamento. A ambição técnica do blindado acabou esbarrando na avaliação de desempenho.

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O Armas Nacionais aponta uma dificuldade específica no equipamento experimental contra minas. As garras destinadas a revolver o solo teriam mostrado limitações em terrenos compactados, deixando o sistema aquém do resultado pretendido. O relato identifica um problema específico no componente de desminagem; o Lexicar registra resultados insatisfatórios nos testes do veículo como um todo.

O contraste é grande. No papel, o Sherman convertido poderia puxar uma viatura de até 40 toneladas, erguer equipamentos pesados e acompanhar trabalhos de engenharia. No campo de testes, porém, reunir várias capacidades em um único blindado antigo não garantiu sua aprovação para produção em escala.

Moto Peças teve resultados melhores com outros blindados, mas o Sherman ficou pelo caminho

A empresa envolvida no projeto não era uma aventureira desconhecida. Fundada na década de 1950 e estabelecida no setor de engrenagens e transmissões, a Moto Peças já colaborava com o Exército na recuperação de equipamentos militares. Segundo o Lexicar, modernizou cerca de 30 tratores de artilharia M4, um veículo diferente do tanque Sherman, apesar da designação semelhante.

Mais tarde, a fabricante participou da revitalização dos blindados de transporte M113. A troca do motor a gasolina por um diesel nacional elevou a autonomia em mais de 70%, e o primeiro lote modernizado foi entregue em novembro de 1985. A empresa também trabalhou na remotorização de 72 obuseiros M108.

Blindado de transporte de tropas M113-B do Exército Brasileiro, modernizado pela Moto Peças com nova motorização a diesel, como parte dos esforços de atualização da frota militar brasileira. Foto: Arquivo histórico / Divulgação.

O desenvolvimento do anfíbio Charrua mostrou outra face desse esforço industrial: protótipos avançaram nos testes, mas o projeto acabou sem fabricação em série durante a crise orçamentária que atingiu a defesa. O pesquisador Expedito Carlos Stephani Bastos documentou como o país acumulou experiência em blindados e depois perdeu continuidade em diversos programas.

O blindado terminou como capítulo pouco lembrado de uma indústria que tentou reaproveitar seus tanques

O destino dos Sherman convertidos também aparece de maneiras diferentes nos registros. O Armas Nacionais cita exemplares destinados a unidades militares e preservados posteriormente, enquanto levantamentos históricos mais antigos mencionam veículos guardados em instalações do Exército. São registros de períodos anteriores: a situação operacional das viaturas em 2026 permanece sem comprovação pública.

Ficou uma história desconfortável: o Brasil pegou uma plataforma da Segunda Guerra, projetou um veículo de engenharia pesado e reuniu recursos mecânicos para tarefas que iam muito além do combate tradicional. Mesmo assim, o programa terminou restrito, cercado de relatos divergentes sobre sua frota e sem a expansão que seus idealizadores buscavam.

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