Renovação planejada para o quarto mandato de Lula poderá colocar, pela primeira vez, oficiais formados na redemocratização à frente das três Forças. General Tomás Paiva é cotado para o GSI, enquanto a saída de José Múcio também deverá abrir uma nova disputa no Ministério da Defesa.
28 de outubro de 2026 | Revista Sociedade Militar
As Forças Armadas brasileiras podem iniciar 2027 com uma mudança histórica em suas cúpulas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia substituir os comandantes do Exército, da Marinha e da Força Aérea Brasileira (FAB), abrindo caminho para que as três instituições sejam chefiadas, pela primeira vez, por oficiais que concluíram sua formação militar após o fim da ditadura, em 1985.
A informação foi publicada nesta quarta-feira (28) pelo jornal O Globo, que aponta a intenção dos atuais comandantes de deixar seus postos a partir de janeiro. O movimento envolve o general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, do Exército, o almirante Marcos Sampaio Olsen, da Marinha, e o tenente-brigadeiro do ar Marcelo Kanitz Damasceno, da Aeronáutica.
O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, também pretende encerrar sua passagem pela pasta. A possível reorganização inclui ainda a transferência de Tomás Paiva para o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República.
O que transforma essa movimentação em um acontecimento histórico é a trajetória dos possíveis sucessores. Enquanto os três comandantes atuais receberam suas primeiras patentes de oficial durante o governo do general João Figueiredo, último presidente do regime militar, os nomes considerados para substituí-los pertencem a uma geração formada durante a redemocratização.
De 1981 a 1987: a mudança de geração que pode alterar o comando militar brasileiro
A diferença entre os atuais chefes militares e os oficiais cotados para sucedê-los aparece nas datas de conclusão de seus cursos de formação.
Tomás Paiva foi declarado aspirante a oficial do Exército em 1981. Na Marinha, Marcos Sampaio Olsen concluiu sua formação em 1982, mesmo ano em que Marcelo Kanitz Damasceno ingressou no oficialato da Aeronáutica.
Naquele período, o Brasil ainda estava sob o governo de João Figueiredo, que ocupou a Presidência entre 1979 e 1985.
Os possíveis novos comandantes, por outro lado, receberam suas primeiras patentes de oficial entre 1985 e 1987, durante o governo de José Sarney.
A diferença é institucionalmente significativa. A formação militar das próximas lideranças ocorreu na transição para a democracia ou já sob um governo civil, embora todos tenham desenvolvido grande parte de suas carreiras dentro da estrutura constitucional estabelecida após 1988.
Isso não significa uma mudança automática na doutrina, na organização ou nas prioridades operacionais das Forças Armadas. A transformação está, sobretudo, na geração de oficiais que poderá alcançar os postos mais elevados da hierarquia militar.
Exército: general formado em 1986 aparece entre os nomes para substituir Tomás Paiva
No Exército Brasileiro, um dos nomes mais citados para assumir o comando é o do general Francisco Humberto Montenegro Júnior, atual chefe do Estado-Maior do Exército.
Montenegro concluiu sua formação na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) em 1986, já durante a Presidência de José Sarney. Ele mantém proximidade profissional com o atual comandante, Tomás Paiva.
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Sua eventual escolha, entretanto, envolveria uma particularidade importante na hierarquia militar: Montenegro não está entre os três generais mais antigos do Alto Comando do Exército.
Os oficiais que ocupam essas posições são Luciano Guilherme Cabral Pinheiro, Kleber de Vasconcelos e Hertz Pires do Nascimento, todos declarados aspirantes a oficial em 1985.
Tradicionalmente, os nomes dos oficiais mais antigos são levados ao presidente da República para a escolha do comandante. A decisão, porém, cabe ao chefe do Executivo, que não precisa seguir a ordem de antiguidade.
A eventual indicação de Montenegro representaria, assim, uma escolha que ultrapassa o critério estritamente hierárquico, com reflexos sobre a composição da cúpula do Exército.
Marinha e Aeronáutica têm oficiais formados após 1985 entre os cotados
Na Força Aérea Brasileira, dois oficiais aparecem entre os nomes considerados para substituir Marcelo Kanitz Damasceno.
O primeiro é o tenente-brigadeiro do ar Walcyr de Castilho Araújo, atual chefe do Estado-Maior da Aeronáutica. O segundo é Ary Soares Mesquita, responsável pela Secretaria de Economia, Finanças e Administração da Força.
Ambos concluíram a formação como aspirantes a oficial em 1987, dois anos depois do fim do regime militar.
Na Marinha, os nomes mencionados são os dos almirantes Arthur Fernando Bettega e Carlos Chagas Vianna Braga.
Bettega é submarinista, ocupa a chefia do Estado-Maior da Armada e tornou-se aspirante em 1986. Braga, atual comandante-geral do Corpo de Fuzileiros Navais, concluiu sua formação em 1985.
A combinação desses nomes evidencia o mesmo movimento nas três instituições: a passagem do comando para oficiais cuja entrada no oficialato ocorreu durante a reorganização democrática do país.
José Múcio deve deixar a Defesa, enquanto Tomás Paiva é cotado para o GSI
A mudança também poderá alcançar a estrutura civil responsável pela condução política da Defesa Nacional.
José Múcio Monteiro, que assumiu o Ministério da Defesa em janeiro de 2023, pretende deixar o cargo após quatro anos à frente da pasta.
Segundo O Globo, o ministro indicou como possível sucessora Cinara Wagner Fredo, atual secretária-geral do Ministério da Defesa. Servidora pública de carreira, Cinara possui experiência em diferentes órgãos federais e já representa o ministro em reuniões no Palácio do Planalto.
Outro nome considerado é Márcio Elias Rosa, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, que possui trajetória nas áreas jurídica e administrativa.
Caso Cinara seja escolhida, o Ministério da Defesa poderá ter sua primeira mulher no comando.
O futuro de Tomás Paiva também faz parte das articulações. O general é cotado para assumir o GSI, órgão responsável por atividades de segurança institucional e assessoramento à Presidência da República.
Essa possibilidade permitiria a permanência do atual comandante do Exército em uma função estratégica do governo federal, mesmo após sua saída do comando da Força.
Trocas previstas para janeiro de 2027 marcarão início do quarto mandato de Lula
A renovação dos comandos acontece após um período especialmente delicado na relação entre o governo federal e as Forças Armadas.
Os atuais comandantes assumiram suas funções em meio às consequências da crise política de 2022 e dos ataques às sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023.
Durante seus mandatos, também acompanharam o julgamento de militares envolvidos na tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
A próxima transição terá um contexto distinto: além da substituição dos atuais dirigentes, estará em jogo a recomposição dos postos mais elevados das três Forças e o início de um novo ciclo de chefias militares.
A expectativa apresentada na reportagem de O Globo é que os nomes sejam anunciados ainda em outubro, com as trocas realizadas em janeiro de 2027.
O quarto mandato de Lula terá início em 5 de janeiro de 2027, conforme o calendário constitucional confirmado pela Agência Brasil.
Se concretizada, a substituição simultânea deixará uma marca histórica: os três comandos militares poderão ser ocupados por integrantes de uma geração que recebeu suas primeiras patentes de oficial depois da ditadura, mais de quatro décadas após o início da redemocratização brasileira.
A definição dos nomes será o próximo passo para transformar essa mudança geracional em uma nova configuração da liderança militar do país.