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Peru instalou bases militares na Amazônia perto do Brasil para expulsar garimpeiros ilegais, mas sete anos depois elas continuam na região e tropas ainda enfrentam dragas e organizações criminosas armadas

Marcos
Por Marcos 28/10/2026 às 16:20
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Peru instalou bases militares na Amazônia perto do Brasil para expulsar garimpeiros ilegais, mas sete anos depois elas continuam na região e tropas ainda enfrentam dragas e organizações criminosas armadas
Vista aérea de uma área de garimpo ilegal em Madre de Dios, na Amazônia peruana, onde a extração de ouro provocou desmatamento e degradação ambiental. Foto: Ministério da Defesa do Peru / Wikimedia Commons (CC BY 2.0). Copiar

O Peru decidiu instalar bases militares na Amazônia, em uma região próxima ao Brasil, para enfrentar organizações envolvidas na extração ilegal de ouro. A medida começou em março de 2019, quando o governo peruano estabeleceu estruturas militares e policiais em La Pampa, no departamento de Madre de Dios, que faz fronteira com o estado brasileiro do Acre.

A operação transformou antigos espaços ocupados por garimpeiros em posições de segurança, com soldados, policiais e representantes do Ministério Público. Sete anos depois, a região continua exigindo operações das Forças Armadas. Em 8 de outubro de 2026, uma nova intervenção destruiu dragas, acampamentos e equipamentos avaliados pelas autoridades em aproximadamente 8,9 milhões de soles.

Peru criou bases para impedir que garimpeiros retomassem territórios ocupados

A instalação das estruturas ocorreu durante a Operação Mercúrio, iniciada em 19 de fevereiro de 2019 pelo governo do então presidente Martín Vizcarra. A ofensiva tinha como objetivo recuperar áreas devastadas pela mineração ilegal de ouro na zona de amortecimento da Reserva Nacional de Tambopata.

Em 5 de março daquele ano, o Ministério da Defesa do Peru confirmou a instalação de três bases temporárias mistas de alta mobilidade, destinadas a manter a presença do Estado após as primeiras intervenções.

Cada instalação foi planejada para abrigar aproximadamente 100 militares e 50 policiais, além de representantes do Ministério Público. A fase inicial de consolidação teria duração de 180 dias.

Uma das estruturas, denominada Alfa, foi instalada em uma área anteriormente utilizada por garimpeiros ilegais. O local havia abrigado estabelecimentos comerciais, bares e pontos de armazenamento de ouro.

A proposta era impedir que os grupos retornassem imediatamente após a retirada das equipes responsáveis pelas operações de combate à atividade ilegal.

Base Temporária Mista Alfa, instalada em La Pampa, na Amazônia peruana, para manter a presença militar e policial em áreas anteriormente ocupadas pelo garimpo ilegal e impedir o retorno das atividades clandestinas. Foto: Ministério da Defesa do Peru.

Operação mobilizou 1.500 agentes e encontrou redes de exploração humana

A Operação Mercúrio começou com um grande deslocamento de forças de segurança. Segundo os registros oficiais, participaram da primeira etapa 1.200 policiais, 300 militares e 70 representantes do Ministério Público.

Durante os primeiros 14 dias, as autoridades registraram 80 detenções, resgataram 51 vítimas de tráfico de pessoas e apreenderam ou inutilizaram bens avaliados em mais de 53 milhões de soles, aproximadamente R$ 82,6 milhões pela cotação de outubro de 2026.

Entre os equipamentos identificados estavam motores, dragas, embarcações, veículos e estruturas utilizadas para extrair e processar ouro.

As investigações também apontavam a presença de atividades criminosas associadas à mineração ilegal, incluindo exploração sexual, tráfico de pessoas e outras formas de violência.

O problema não se limitava à retirada irregular de recursos naturais. As autoridades enfrentavam uma estrutura econômica clandestina que dependia de combustível, transporte, equipamentos pesados e redes de proteção.

Bases foram instaladas em região peruana que faz fronteira com o Acre

A localização das operações acrescenta uma dimensão importante para o Brasil. Madre de Dios é um departamento da Amazônia peruana que compartilha fronteira com o Acre, incluindo a ligação rodoviária entre Iñapari, no Peru, e Assis Brasil, em território brasileiro.

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Entretanto, as bases estabelecidas em La Pampa não ficavam diretamente sobre a linha divisória entre os dois países. Elas foram instaladas no interior peruano, nas proximidades da Reserva Nacional de Tambopata.

A região é atravessada pela Rodovia Interoceânica, que estabelece uma conexão terrestre entre o Brasil e o território peruano, alcançando a costa do Oceano Pacífico.

Essa posição geográfica torna o combate às economias ilegais relevante para a segurança regional. O avanço dessas atividades pode gerar desafios de fiscalização, circulação de mercadorias e controle territorial em áreas amazônicas conectadas por estradas e rios.

A presença militar peruana, contudo, não representa uma mobilização contra o Brasil, mas uma iniciativa de segurança interna destinada a combater atividades ilegais em território peruano.

Após queda de 92% no desmatamento, garimpo voltou a ocupar áreas degradadas

Os resultados iniciais da operação foram expressivos. Um levantamento do Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP) identificou uma redução de aproximadamente 92% na taxa mensal de desmatamento provocado pela mineração em La Pampa.

Vista aérea da devastação provocada pelo garimpo ilegal em Madre de Dios, na Amazônia peruana. A extração de ouro deixou extensas áreas desmatadas e grandes lagoas de água barrenta, evidenciando os impactos ambientais da atividade combatida pelas Forças Armadas do Peru. Foto: Ministério da Defesa do Peru

A média passou de 173 hectares mensais, no período anterior à operação, para aproximadamente 14 hectares mensais entre março de 2019 e maio de 2020.

Entretanto, a redução do desmatamento não significou o desaparecimento completo do garimpo ilegal.

Em setembro de 2023, um novo levantamento do MAAP identificou o retorno de equipamentos de mineração para áreas anteriormente devastadas e recuperadas pelas autoridades.

O número de dragas identificadas nessas áreas passou de 148, em 2021, para 598, em 2023, aproximadamente quatro vezes a quantidade registrada dois anos antes.

O resultado indicava que grupos ligados à extração ilegal continuavam explorando terrenos já desmatados, mesmo após os esforços militares e policiais de recuperação territorial.

Em 2026, tropas encontraram fuzis e destruíram novas estruturas de garimpo

A presença de grupos armados voltou a ganhar destaque em julho de 2026. Uma operação conjunta das Forças Armadas e da Polícia Nacional peruana resultou na captura de 20 suspeitos de integrar a organização conhecida como Los Guardianes de La Pampa, segundo o Ministério da Defesa.

A intervenção ocorreu após um confronto armado na região da Rodovia Interoceânica. As autoridades relataram a apreensão de 19 fuzis, além de granadas, explosivos e munições.

Estrutura de garimpo ilegal de ouro em Madre de Dios, na Amazônia peruana, com equipamentos de bombeamento, acúmulo de sedimentos e áreas degradadas pela mineração. A imagem de arquivo ilustra o tipo de instalação combatida pelas Forças Armadas do Peru, que realizaram novas operações na região em 2026. Foto: Ministério da Defesa do Peru
Estrutura de garimpo ilegal de ouro em Madre de Dios, na Amazônia peruana, com equipamentos de bombeamento, acúmulo de sedimentos e áreas degradadas pela mineração. A imagem de arquivo ilustra o tipo de instalação combatida pelas Forças Armadas do Peru, que realizaram novas operações na região em 2026. Foto: Ministério da Defesa do Peru

Três meses depois, em 8 de outubro, a Segunda Brigada de Selva de Proteção da Amazônia participou de outra intervenção nos setores de Aguajal, Balata e Malinowski, no distrito de Inambari.

Conforme noticiado pelo Diário Oficial El Peruano, a operação resultou na destruição de nove balsas-dragas, três acampamentos, sete motores e aproximadamente 9,3 mil litros de combustível, além de outros equipamentos.

O valor estimado dos bens e da infraestrutura atingidos chegou a 8.926.415 soles, aproximadamente R$ 13,9 milhões pela cotação de outubro de 2026. A ofensiva contou com a participação de militares, policiais, fiscais ambientais e representantes de órgãos responsáveis pela proteção das áreas naturais.

Presença militar continua, mas permanência das bases originais não está confirmada

O caso demonstra como uma intervenção inicialmente planejada para recuperar territórios ocupados pelo garimpo ilegal acabou se transformando em uma campanha prolongada de segurança na Amazônia peruana.

Desde 2019, diferentes operações envolveram tropas do Exército, unidades policiais, aeronaves e equipes especializadas em fiscalização ambiental.

Os registros de 2026 confirmam que as Forças Armadas continuam atuando em Madre de Dios. Entretanto, não há confirmação documental de que todas as bases temporárias instaladas em 2019 permaneçam funcionando nas mesmas posições.

Para o Brasil, a importância está na proximidade regional e na existência de redes criminosas que atuam na Amazônia, embora não haja evidência de que os grupos enfrentados nessas operações tenham realizado ataques ou operações transfronteiriças contra território brasileiro.

Sete anos depois da instalação das primeiras bases, os registros mostram uma realidade persistente: o Peru conseguiu reduzir inicialmente o avanço do garimpo em La Pampa, mas ainda precisa mobilizar tropas e forças policiais para impedir que a atividade ilegal continue operando na região.

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