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Aviões da FAB voaram com as cores da Argentina durante a Guerra das Malvinas, patrulharam o Atlântico, ajudaram a rastrear navios britânicos para ataques aéreos e marcaram a estreia da Embraer em um conflito armado real

Fernando B.
Por Fernando B. 13/10/2026 às 19:19
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Aviões da FAB voaram com as cores da Argentina durante a Guerra das Malvinas, patrulharam o Atlântico, ajudaram a rastrear navios britânicos para ataques aéreos e marcaram a estreia da Embraer em um conflito armado real
EMB-111 "Bandeirulha" voando com as cores da Argentina sobre o Atlântico. Foto: Reprodução/Ministério da Defesa da Argentina

Apesar da posição de neutralidade diplomática que o Brasil adotou durante a Guerra das Malvinas, conflito entre Argentina e Inglaterra pelo controle do território das ilhas Falkland/Malvinas em 1982, a Força Aérea Brasileira (FAB) e a nascente indústria aeronáutica nacional tiveram uma contribuição pouco conhecida para as forças armadas do país vizinho durante um dos períodos mais tensos e violentos da história recente da América do Sul.

Décadas antes dos A-29 Super Tucano da Embraer participarem de ações contra as FARC voando pela Força Aérea da Colômbia, duas aeronaves de patrulha marítima EMB-111 “Bandeirulha” marcaram a estreia de aviões da fabricante brasileira em um conflito real, por meio de contrato de aluguel estabelecido entre a a FAB e as forças argentinas.

Os aviões de fabricação nacional foram empregados em missões de reconhecimento e vigilância no Atlântico Sul, ajudando os argentinos a localizar navios britânicos durante o conflito diante da tarefa árdua de combater uma armada poderosa que contava com mais de 100 embarcações e enfraquecer as tropas europeias.

A operação é um episódio pouco conhecido da história militar brasileira e revela como a indústria aeronáutica nacional e os meios da FAB tiveram participação indireta em um dos principais conflitos militares da América do Sul no século XX.

A divisão de Defesa & Segurança da Embraer tomou forma nos anos 1960 e consolidou-se em 1971, com o EMB 326 Xavante (fabricados pela Embraer sob licença da italiana Aermacchi), aeronave de treinamento avançado e ataque leve. Em 1973, veio o EMB-110 Bandeirante, concebido primariamente como um avião de transporte regional de passageiros, mas que na FAB recebeu designação militar de C-95 para missões de transporte de tropas e carga.

Foi do Bandeirante que nasceu o EMB-111, apelidado de “Bandeirante Patrulha”, e posteriormente, Bandeirulha (junção dos dois termos), apresentado em 1977 para protagonizar missões de reconhecimento marítimo, busca e salvamento.

Em 11 de abril de 1978 foi realizada a primeira entrega de três unidades (de um total de 12 aeronaves da primeira encomenda) para o 1º Esquadrão do 7º Grupo de Aviação, localizado em Salvador, Bahia. O número de unidades do Bandeirulha fabricadas para a FAB chegou a 29 ao longo dos anos seguintes, operando também em países como o Chile.

Caça aos navios da coroa britânica

Em abril de 1982, o Reino Unido prometeu uma resposta militar enérgica diante da decisão da junta militar argentina, liderada pelo general Leopoldo Galtieri, que sob pressões políticas e econômicas do regime, decidiu ocupar o território das Ilhas Falkland (para os argentinos, Ilhas Malvinas), que era reivindicado pelo país desde o século XIX.

A Inglaterra mobilizou então uma gigantesca força-tarefa da Marinha Real (Royal Navy), composta por um total de mais de 100 navios, capitaneados por dois porta-aviões, o HMS Hermes (R12) e o HMS Invincible (R05), vistos como essenciais para o objetivo de conquistar a superioridade aérea na região do conflito.

Cruzador dispara míssil durante a Guerra das Malvinas. Foto: Reprodução/Ministério da Defesa da Argentina

A armada a caminho do Atlântico Sul também contava com submarinos nucleares, destróieres, fragatas, navios de Assalto Anfíbio e Logística e uma frota auxiliar de navios auxiliares civis requisitados, uma força que estava muito além das capaciades de defesa do país latino-americano.

A Marinha Argentina dispunha de recursos limitados, mas mesmo assim, no primeiro momento da guerra, optou pelo conflito direto no mar, organizando a força naval em grupos de combate — centrados no porta-aviões ARA 25 de Mayo e no cruzador ARA General Belgrano — para ameaçar as linhas de aproximação britânicas e forçar o inimigo a dividir seus esforços.

A tragédia do cruzador General Belgrano

A estratégia de embate no mar ruiu rapidamente quando o cruzador General Belgrano foi afundado em 2 de maio de 1982 pelo submarino nuclear britânico HMS Conqueror, causando a morte de 323 marinheiros argentinos, metade das baixas do país vizinho durante todo o combate.

Impactado pela perda de um de seus principais navios de combate, o comando naval da Argentina ordenou que a maioria dos navios de superfície retornasse aos portos, abandonando o combate naval direto como estratégia.

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A partir do recolhimento dos ativos navais, a responsabilidade de combater a Marinha Real Britânica recaiu sobre a Aviação Naval e a Força Aérea Argentina. Os aviões de ataque Super Étendard armados com mísseis antinavio AM-39 Exocet tornaram-se a principal arma dissuasória.

Mas para isso, a Argentina precisava de recursos aéreos para a tarefa de reconhecimento em uma área marítima extensa do Atlântico, com o objetivo de localizar as embarcações britânicas para fornecer coordenadas por rádio para os aviões de combate, realizando ataques precisos para “negar o mar” às forças britânicas.

A chegada dos Embraer Bandeirulha

Um dos principais problemas da Argentina para a missão era a baixa disponibilidade dos aviões Lockheed P-2 Neptune e Grumman S-2 Tracker, as principais aeronaves empregadas na busca e localização de embarcações inimigas.

Foi então que o acordo com a Força Aérea Brasileira (FAB) foi firmado para transferir duas unidades do EMB-111 Bandeirulha, designados como P-95, para o Comando de Aviação Naval Argentino (COAN).

Os dois aviões cedidos foram o P-95 7058 e P-95 7060. Antes de seguir para o país vizinho, os Bandeirulha foram levados à Embraer, em São José dos Campos, para receber a pintura da aviação naval argentina, em tons de cinza mais escuro do que o utilizado na FAB. A identidade visual incluía uma bandeira da Argentina no estabilizador horizontal, conforme mostram fotos da época.

Chegando ao país vizinho em 12 de maio de 1982, os Bandeirulha brasileiros receberam equipamentos de apoio eletrônico semelhantes aos utilizados nos aviões Grumman S-2 Tracker, empregados pela Argentina na busca de contatos navais.

Os dois aviões de patrulha cedidos pela FAB em solo junto a outras aeronaves das forças Argentinas em 1982. Foto: Reprodução/Ministério da Defesa da Argentina

Durante as missões no Atlântico Sul, os aviões brasileiros voaram com tripulação totalmente argentina, segundo registros, não representando a quebra de neutralidade do Brasil em relação ao conflito.

Segundo dados oficiais do Ministério da Defesa da Argentina, os Embraer Bandeirulha realizaram 39 decolagens para localizar navios da armada britânica, totalizando 206 horas de voo. O alcance das aeronaves da Embraer representava uma grande vantagem em relação aos Tracker argentinos, uma vez que os Bandeirulha podiam voar bem a leste das ilhas, onde estava localizada a maior parte da armada britânica.

Durante um mês, os aviões brasileiros ajudaram a confirmar a região de atuação do grupo de batalha britânico associado aos porta-aviões.

Nenhuma das duas aeronaves sofreu avarias durante as missões. As últimas missões ocorreram em 13 de junho de 1982, quando os aviões realizaram duas saídas sem encontrar alvos, antes de retornar ao Brasil com a rendição das forças argentinas.

Com capacidade de 5 tripulantes, o EMB-111 Bandeirulha contava com dois motores turbo-hélices Pratt & Whitney PT6A-34 de 750 hp, pesava 11.816 quilos e chegava aos 393 km/h, tendo autonomia de voo de 2.945 quilômetros.

O Bandeirulha também podia ter capacidade bélica: quatro pontos sob as asas para lançadores de foguetes SBAT (Sistema Brasileiro Ar-Terra) de 70mm. O SBAT é uma família de foguetes não guiados desenvolvida no Brasil pela Avibras nas décadas de 1980.

O legado das Malvinas para a Embraer

A Guerra das Malvinas terminou em 14 de junho de 1982, com a rendição incondicional das tropas argentinas, cercadas e sem condições de resistir, e com o Reino Unido recuperando o controle total do arquipélago após 74 dias de conflito. O confronto resultou na morte de 649 militares argentinos, 255 britânicos e 3 civis das ilhas, seugundo os números oficiais.

Ainda hoje, mais de 40 anos depois, as Ilhas Falkland/Malvinas permanecem como um dos litígios territoriais mais sensíveis do Hemisfério Sul. Enquanto a Inglaterra continua exercendo controle sobre o território, a Argentina ainda reivindica as ilhas, e há pressão de organismos internacionais para que os dois países encontrem uma solução pacífica para a disputa.

Quanto às aeronaves brasileiras que serviram às forças argentinas em um episódio histórico e marcaram o “batismo de fogo” da Embraer em um conflito real, após o fim da guerra, as duas unidades do Bandeirulha foram encaminhadas novamente à fabricante brasileira, onde passaram por procedimentos de reconfiguração antes de voltarem às suas unidades de origem na FAB.

O episódio demonstrou a utilidade de uma aeronave brasileira em operações reais de reconhecimento marítimo e marcou a presença de um produto da indústria aeronáutica nacional no contexto operacional da Guerra das Malvinas.

A cooperação com o país vizinho no setor também abriu espaço para que, em outubro de 1982, o Brasil fechasse a venda de 11 jatos de treinamento e ataque AT-26 Xavante para o Comando de Aviação Naval da Armada Argentina, para auxiliar na recomposição do poderio aéreo perdido durante a guerra.

Avião produzido em conjunto com a Argentina

Já em 1986, os governos de José Sarney, no Brasil, e Raúl Alfonsín, na Argentina, anunciaram uma cooperação para desenvolver um avião regional. A Embraer se associou à Fábrica Militar de Aviones (FMA), posteriormente denominada Fábrica Argentina de Material Aeroespacial (FAMA).

O objetivo era produzir o CBA-123 Vector, um avião turboélice pressurizado para 19 passageiros, concebido para oferecer desempenho elevado em rotas regionais.

O primeiro voo ocorreu em 18 de julho de 1990, e o projeto chegou a ser apresentado internacionalmente, mas seria encerrado em 1991, sem que a aeronave recebesse certificação para voar comercialmente. O alto custo de desenvolvimento, as dificuldades financeiras das empresas e as mudanças no mercado de aviação regional inviabilizaram a continuidade do projeto.

Mas a cooperação com a indústria brasileira continuou, e em 1987, a Argentina começou a receber aviões EMB-312 Tucano, fabricados pela Embraer, para modernizar a formação de pilotos militares.

A encomenda previa 30 aeronaves, destinadas principalmente à Escola de Aviação Militar, em Córdoba. O Tucano foi utilizado no treinamento de pilotos da Força Aérea Argentina e também contribuiu para a formação de aviadores de outras forças argentinas.

Mais recentemente, a Argentina teve participação em outro projeto estratégico da Embraer: o KC-390 Millenium, principal produto exportador da indústria aeroespacial brasileira. Por meio da Fábrica Argentina de Aviones (FAdeA), instalada em Córdoba, empresas argentinas fornecem componentes estruturais para a Embraer. A cooperação inclui peças como spoilers, carenagens dos flapes e portas do trem de pouso.

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