Revista Sociedade Militar, todos os direitos reservados.

Herdeiro da Samsung abriu mão da cidadania americana para servir na Marinha da Coreia do Sul e virou intérprete de almirantes

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 03/10/2026 às 14:30
Compartilhar
Herdeiro da Samsung abriu mão da cidadania americana para servir na Marinha da Coreia do Sul e virou intérprete de almirantes
O capitão de mar e guerra Timothy Waits, comandante do porta-aviões USS George Washington, à esquerda, conversa com o vice-almirante Kim Kyung-ryul, comandante da Esquadra da Coreia do Sul, e outros militares sul-coreanos no passadiço do navio, em janeiro de 2026. Foto: Marinha dos EUA/Johnathan Meighan, domínio público, via Wikimedia Commons.

Ele ficará 39 meses de farda, mais que o triplo do serviço militar inicial previsto na lei brasileira.

O segundo-tenente Lee Ji-ho, filho mais velho do presidente da Samsung Electronics, Lee Jae-yong, serve como oficial intérprete na Seção de Inteligência e Operações da 5ª Flotilha de Guerra de Minas da Marinha da Coreia do Sul. Nascido nos Estados Unidos, ele renunciou à cidadania americana para cumprir o serviço militar como oficial, segundo a agência sul-coreana Nocut News.

O compromisso dele com a Marinha soma 39 meses, mais que o triplo dos 12 meses do serviço inicial previsto na lei brasileira. Na Coreia, quase todo homem apto serve, enquanto no Brasil a maioria dos jovens que se alistam aos 18 anos é dispensada sem nunca entrar num quartel.

Receba nossas notícias independente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora

Entrar no grupo agora

Tradução entre um vice-almirante e um contra-almirante

O trabalho mais recente divulgado foi em 9 de setembro, na reunião de cooperação entre os comandos de educação das Marinhas da Coreia do Sul e dos Estados Unidos, no Comando de Educação e Treinamento Naval, em Jinhae, distrito de Changwon. Lee fez a interpretação entre o vice-almirante Kang Jeong-ho, comandante sul-coreano, e o contra-almirante americano Gregory Huffman, segundo o Nocut News.

Em fevereiro de 2026, ele já tinha atuado como intérprete no Cobra Gold, exercício multinacional realizado na Tailândia. Pela descrição do Nocut News, a função do oficial intérprete é traduzir conversas entre comandantes e verter documentos de inteligência, para facilitar a comunicação entre as forças.

A cidadania americana que impedia a farda de oficial

Lee nasceu nos Estados Unidos em 2000 e tinha dupla cidadania, coreana e americana, segundo o jornal Korea Herald. Fez o ensino médio no Canadá, entrou numa universidade em Paris e passou um período como aluno de intercâmbio nos Estados Unidos.

A renúncia à nacionalidade americana foi anunciada em 10 de setembro de 2025. Pelas regras de segurança das Forças Armadas sul-coreanas, quem tem dupla cidadania não pode ser oficial, segundo o Korea Herald e o site vietnamita VnExpress. Sem a renúncia, o caminho que restava era o serviço como praça.

Praça serve de 18 a 21 meses na Coreia

O serviço de praça na Coreia do Sul dura 18 meses no Exército e nos Fuzileiros Navais, 20 meses na Marinha e 21 meses na Força Aérea, segundo a Administração de Recursos Humanos Militares do país. No sistema de alistamento obrigatório da Coreia do Sul, quase todo homem apto acaba incorporado.

Os 39 meses de Lee equivalem a quase o dobro dos 20 meses de um marinheiro convocado. É a troca que o oficial temporário aceita: mais tempo de farda em troca de posto e função de oficial.

Onze semanas de curso e três anos de serviço

Lee se apresentou em 15 de outubro de 2025 para um curso de formação de 11 semanas, de acordo com o Korea Herald. Saiu dele como segundo-tenente no fim de 2025 e foi designado para a flotilha de guerra de minas, unidade que cuida de varredura e caça de minas navais.

A promoção a primeiro-tenente está prevista para 1º de dezembro de 2026, e a baixa, para 30 de novembro de 2028, segundo o Nocut News. O VnExpress resume o tempo de serviço depois da formatura em cerca de três anos.

Quanto ganha um recruta sul-coreano em reais

Em 2026, a remuneração base mensal do soldado sul-coreano vai de 750 mil wons para o recruta a 1,5 milhão de wons para o sargento, o posto mais alto da praça convocada, segundo dados do Ministério da Defesa publicados pelo jornal The Public em abril. O valor do sargento ficou congelado no nível de 2025, segundo o Asia Business Daily.

O real não tem cotação PTAX para o won. Pela taxa cruzada, com o dólar a 1.350,6 wons no fechamento das 15h30 de 2 de outubro em Seul, segundo a agência News1, e a PTAX de venda de R$ 5,2238 no mesmo dia, 750 mil wons equivalem a cerca de R$ 2.901 e 1,5 milhão de wons, a cerca de R$ 5.802.

Fora da remuneração base, o governo deposita até 550 mil wons por mês, cerca de R$ 2.127, como contrapartida numa poupança que o soldado só resgata na baixa, segundo o The Public. Esse valor não entra na comparação com o soldo brasileiro.

No Brasil, 12 meses e soldo de R$ 1.177

O artigo 6º da Lei 4.375, de 1964, fixa em 12 meses a duração normal do serviço militar inicial. Desde 1º de janeiro de 2026, o soldo do recruta, do marinheiro-recruta e do soldado não engajado é de R$ 1.177, segundo a tabela da Lei 15.167, de 2025.

Comparando soldo base com remuneração base, sem adicionais dos dois lados, o recruta sul-coreano recebe cerca de 2,5 vezes o recruta brasileiro. O brasileiro, por outro lado, serve um ano, e a maior parte dos alistados nem chega a ser incorporada.

Em 2025, o Brasil teve mais de 1 milhão de alistados, com 1.029.323 homens e 33.720 mulheres, segundo dados do Ministério da Defesa. A seleção absorve só uma fração desse contingente, e o restante recebe o certificado de dispensa.

Dispensa por excesso e oficial temporário

No Brasil, o jovem apto que fica de fora é dispensado por excesso de contingente, porque há mais jovens aptos do que vagas nos quartéis. A dispensa não é punição nem reprovação, e o jovem segue a vida civil com o documento em mãos.

O Brasil também forma oficiais temporários. O artigo 27 da Lei 4.375 permite incorporar voluntários de até 40 anos como oficial subalterno ou praça temporário, e o serviço temporário dura 12 meses, prorrogáveis até o limite de 96 meses, pela redação dada em 2019.

O segundo-tenente brasileiro tem soldo de R$ 8.179 em 2026, segundo a mesma Lei 15.167. É o posto equivalente ao de Lee na Marinha sul-coreana.

Por que um herdeiro de farda vira notícia em Seul

Na Coreia do Sul, a forma como filhos de ricos e de autoridades cumprem o serviço militar é tema político antigo. Em outubro de 2015, o jornal Hankook Ilbo publicou dados da Administração de Recursos Humanos Militares, divulgados pelo deputado Baek Gun-gi, mostrando que 30 filhos de 26 servidores de alto escalão tinham deixado a obrigação ao abrir mão da nacionalidade coreana.

Os mesmos números mostravam que as pessoas livres do serviço por renúncia à nacionalidade passaram de 2.842 em 2012 para 4.386 em 2014, segundo o Hankook Ilbo. Lee fez o movimento inverso: abriu mão da cidadania estrangeira para ficar na fila do serviço mais longo.

Entre minas navais e reuniões de almirantes

Na 5ª Flotilha, Lee está lotado na seção de inteligência e operações e é chamado para traduzir em encontros com a Marinha americana e em exercícios multinacionais, como o Cobra Gold. O Nocut News não informou se ele já embarcou em navio da flotilha.

Se o calendário se cumprir, ele troca a insígnia de segundo-tenente pela de primeiro-tenente em dezembro e deixa a Marinha no fim de novembro de 2028, depois de cerca de três anos como oficial. No total, terá ficado 19 meses a mais na Marinha do que ficaria se tivesse entrado como marinheiro convocado.

guest
0 Comentários