Entre janeiro e agosto de 2026, viagens internacionais envolvendo militares brasileiros consumiram R$ 22,9 milhões. No roteiro aparecem compromissos bastante diferentes entre si: campeonatos de cross country na Grécia e meia maratona na Turquia, equitação no Equador, paraquedismo na Espanha, reuniões institucionais na Europa, visitas aos Estados Unidos e algumas das maiores feiras de defesa e aviação do mundo.
O maior peso veio das passagens aéreas. Foram cerca de R$ 12,3 milhões, enquanto as diárias responderam por outros R$ 9,9 milhões. Outras despesas chegaram a R$ 713 mil, com aproximadamente R$ 103 mil registrados em devoluções.
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Os números fazem parte de um levantamento publicado pelo jornalista Lúcio Vaz, da Gazeta do Povo, a partir das viagens realizadas por militares neste ano.
O valor total, porém, reúne missões de naturezas bastante diferentes. Há desde encontros diretamente ligados à defesa, indústria e diplomacia militar até uma extensa agenda esportiva internacional, que levou delegações brasileiras a vários países ao longo do ano.
Campeonatos levaram militares a diferentes países
Entre os deslocamentos que mais chamam atenção estão justamente as competições organizadas no ambiente militar internacional.
Na Grécia, 12 militares brasileiros participaram do 60º Campeonato Mundial Militar de Cross Country, realizado na região de Trikala. O grupo reunia sargentos, um suboficial e um general.
A viagem ocorreu entre o fim de fevereiro e o início de março e custou aproximadamente R$ 197 mil, segundo o levantamento. Somente as passagens ficaram próximas de R$ 155 mil.
O Brasil também obteve resultado esportivo: a equipe de revezamento misto terminou na quarta colocação, apontada como o melhor desempenho brasileiro na história da prova.
Outro grupo seguiu para Antalya, na Turquia, onde ocorreu o Campeonato Mundial Militar de Meia Maratona. A delegação reuniu 11 militares e gerou uma despesa de aproximadamente R$ 144 mil.
Nesse caso, a equipe feminina brasileira conquistou medalha de bronze por equipes, enquanto o time masculino ficou na quarta posição.
As viagens esportivas não pararam por aí.
Na Áustria, uma delegação participou do Campeonato Mundial de Pentatlo Militar, realizado em Wiener Neustadt. O gasto informado ficou em aproximadamente R$ 208 mil, um dos maiores valores entre as competições destacadas.
Também houve deslocamento para Quito, no Equador, por causa do 26º Campeonato Mundial Militar de Equitação do CISM, com despesa próxima de R$ 40 mil.
Já a Espanha recebeu militares ligados ao Campeonato Mundial Militar de Paraquedismo de Veteranos, realizado em Alicante. O levantamento aponta aproximadamente R$ 38 mil associados à participação nessa competição e a outras atividades incluídas no mesmo deslocamento.
O paraquedismo tem uma característica particular nesse conjunto. Marinha, Exército e Força Aérea mantêm equipes na modalidade, que também possui relação direta com capacidades utilizadas no ambiente militar.
Por que existem campeonatos militares?
Cross country, meia maratona, equitação e pentatlo podem parecer deslocados em uma lista de viagens das Forças Armadas, mas fazem parte de uma estrutura internacional própria.
Boa parte dessas competições está ligada ao Conselho Internacional do Esporte Militar, o CISM, organização que reúne Forças Armadas de dezenas de países e promove campeonatos entre militares em diferentes modalidades.
No Brasil, parte dos atletas que representam as Forças também integra programas de alto rendimento.
Essa estrutura explica por que algumas delegações viajam especificamente para competir, enquanto outras participam de congressos, reuniões e atividades ligadas à organização do esporte militar.
Também aparecem na relação compromissos no Cairo, no Egito, voltados ao desenvolvimento dos esportes equestres militares, além de encontros do próprio CISM em países europeus.
O caráter esportivo, portanto, representa uma parcela visível das viagens, mas não explica sozinho os R$ 22,9 milhões registrados até agosto.
Feiras de defesa e missões institucionais entram na conta
Outra parte da agenda internacional está diretamente relacionada à atividade militar, à diplomacia e à indústria de defesa.
Militares brasileiros viajaram para Washington e Fayetteville, nos Estados Unidos, em compromissos envolvendo o Exército americano, a Embaixada do Brasil, a Junta Interamericana de Defesa e estruturas brasileiras mantidas no país.
Também houve deslocamentos associados aos preparativos para os 8º Jogos Mundiais Militares, incluindo visita de coordenação a Charlotte, na Carolina do Norte.
Em outros casos, o objetivo estava relacionado à indústria.
A lista inclui participação na World Defense Show 2026, realizada em Riad, na Arábia Saudita. O evento reúne fabricantes de armamentos, delegações governamentais, representantes militares e empresas que disputam contratos no mercado internacional de defesa.
Outro destino foi o Farnborough International Airshow, no Reino Unido.
A feira reúne governos e empresas dos setores aeroespacial, espacial e militar e funciona como ponto de encontro para fabricantes, Forças Armadas e autoridades responsáveis por programas de aquisição e modernização.
Nesse tipo de viagem, a lógica é diferente daquela encontrada nos campeonatos. A presença militar pode envolver acompanhamento de novas tecnologias, contatos com fornecedores, reuniões institucionais e observação de sistemas que futuramente podem aparecer em projetos brasileiros.
Valor ainda não representa o ano inteiro
Os R$ 22,9 milhões correspondem às despesas levantadas entre janeiro e agosto.
Isso significa que o número ainda não representa o custo completo das viagens internacionais dos militares brasileiros em 2026.
Também seria incorreto olhar para o valor e associá-lo exclusivamente aos campeonatos que aparecem entre os destinos mais curiosos. O total abrange um universo maior, com atividades esportivas, missões administrativas, diplomacia militar, visitas institucionais, reuniões e eventos ligados à indústria de defesa.
Essa distinção também importa na comparação com anos anteriores.
Em 2025, o Sociedade Militar mostrou despesas muito superiores ao considerar viagens, passagens e diárias da estrutura da Defesa em um universo bem mais amplo, incluindo deslocamentos que não estavam limitados às missões internacionais consideradas neste levantamento.
O recorte atual responde a outra pergunta: que tipo de atividade está levando militares brasileiros ao exterior e quanto já foi gasto com isso durante os primeiros oito meses do ano?
A Gazeta do Povo informou ter procurado Exército, Marinha e Força Aérea para questionar os gastos e a participação nas competições diante do cenário fiscal. Segundo a publicação, as três Forças não haviam respondido até a divulgação do levantamento.
Como o período analisado termina em agosto, as despesas dos quatro últimos meses do ano ainda poderão alterar o total. O fechamento de 2026 permitirá saber quanto essa agenda internacional efetivamente custou e qual peso tiveram, no conjunto, competições, feiras de defesa e demais missões realizadas fora do país.