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Na Guerra Fria, a União Soviética furou 12 km rumo ao centro da Terra até o calor da rocha travar a sonda

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 03/10/2026 às 17:50
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Na Guerra Fria, a União Soviética furou 12 km rumo ao centro da Terra até o calor da rocha travar a sonda
Torre de perfuração do Poço Superprofundo de Kola, na tundra da península de Kola, no noroeste da Rússia. Foto de Andre Belozeroff, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Os americanos tentaram pelo fundo do Pacífico com o Projeto Mohole e pararam a 183 metros, cortados pelo Congresso em 1966.

Na Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética também disputaram quem chegaria primeiro ao manto da Terra furando a crosta. Os americanos tentaram pelo fundo do Pacífico com o Projeto Mohole, cancelado pelo Congresso em 1966. Os soviéticos começaram a furar a península de Kola, perto de Murmansk, em 1970 e chegaram a 12.262 metros em 1989, segundo a EarthDate, programa de divulgação científica da Universidade do Texas.

Nenhum dos dois chegou ao manto. No fundo do poço soviético, a temperatura bateu 180 °C, quase o dobro dos 100 °C previstos, e a rocha começou a se comportar como massa plástica, invadindo o furo. Depois o dinheiro acabou junto com a própria União Soviética.

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A fronteira chamada Moho

O alvo das duas potências tinha nome: a descontinuidade de Mohorovičić, ou Moho, o limite entre a crosta e o manto, nome do geólogo croata que a identificou. Um pedaço do manto diria muito sobre a idade, a composição e o funcionamento interno do planeta, segundo o histórico do projeto guardado pelas Academias Nacionais dos Estados Unidos.

Um historiador citado no documento chamou o Mohole de resposta das ciências da Terra ao programa espacial. Para a EarthDate, o fim dos anos 1950 abriu duas corridas entre a URSS e os Estados Unidos, uma para o espaço e outra para o fundo da crosta.

A barcaça americana que furou o Pacífico em 1961

A proposta americana partiu do oceanógrafo Walter Munk em março de 1957 e foi adotada pela American Miscellaneous Society, a AMSOC, um grupo informal de cientistas. Em 1958, com dinheiro da National Science Foundation, o grupo assumiu o projeto.

O plano era furar pelo fundo do mar, onde a crosta é mais fina. Em março e abril de 1961, a barcaça CUSS I abriu cinco furos ao largo da ilha de Guadalupe, no México, sob 11.700 pés, cerca de 3.570 metros, de água. O mais fundo desceu 601 pés, cerca de 183 metros, e trouxe pela primeira vez basalto da segunda camada da crosta oceânica.

O Congresso cortou o dinheiro em 1966

No mar, a primeira fase tinha dado certo, mas não bastou. No fim de 1966, o Congresso, contrário ao aumento dos custos, encerrou o Mohole antes que a segunda fase saísse do papel, segundo as Academias Nacionais.

O navio que herdou a ideia do Mohole

O cancelamento do Mohole não apagou o que ele provou: perfurar o fundo do oceano era viável, e dele nasceu o Deep Sea Drilling Project. Segundo o programa internacional de perfuração oceânica sediado na Universidade Texas A&M, o navio Glomar Challenger foi aceito pelo projeto em 11 de agosto de 1968 e fez 96 expedições até 1983, em 624 pontos dos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico.

Os mais de 97 mil metros de testemunhos recolhidos ajudaram a comprovar a expansão do fundo oceânico e a tectônica de placas. O Challenger foi projetado e construído pela Global Marine, a mesma empresa californiana que, segundo a CIA, supervisionou a construção do Hughes Glomar Explorer, o navio da operação secreta para içar um submarino soviético do Pacífico.

Kola furou em terra, no Ártico soviético

A União Soviética escolheu o caminho que os americanos tinham descartado: furar em terra firme, no Ártico. O poço SG-3 começou a ser perfurado em maio de 1970 perto de Zapolyarny, na região de Murmansk, com a meta de alcançar 15 mil metros de profundidade vertical, segundo a EarthDate.

A obra durou cerca de 20 anos. As amostras trazidas do fundo eram granitos do Pré-Cambriano com 2,7 bilhões de anos, e a 22 mil pés, perto de 6,7 quilômetros, apareceram 24 espécies de microfósseis de 2 bilhões de anos intactos, além de rocha muito fraturada e cheia de água quente mineralizada.

Doze quilômetros, mais fundo que o fundo do mar

Em 1989, o SG-3 chegou a 12.262 metros abaixo da superfície, a maior profundidade vertical já alcançada por um furo humano. A marca supera em 1.228 metros o ponto mais fundo do oceano, segundo a EarthDate.

Para o leitor brasileiro, a escala ajuda. O poço da Serra do Cachimbo, aberto numa área militar do sul do Pará e lacrado com cal pelo presidente Fernando Collor em 18 de setembro de 1990, tinha cerca de 320 metros, menos de 3% da profundidade de Kola.

180 °C, e não 212 °C

O que parou a sonda foi o calor. A temperatura no fundo subiu dos 100 °C esperados para 180 °C, e a essa temperatura e pressão a rocha passou a se comportar de forma plástica, escorrendo lentamente para dentro do furo, segundo a EarthDate.

O número de 212 °C, que o Diário do Litoral publicou em 2 de outubro de 2026, não aparece nas fontes científicas sobre o poço. A coincidência tem explicação: 212 é o valor em graus Fahrenheit dos 100 °C que os soviéticos esperavam encontrar, enquanto os 180 °C medidos equivalem a 356 °F.

A URSS acabou antes do poço

A sonda nunca passou de 12.262 metros. Por volta de 1992, segundo a EarthDate, a União Soviética caiu e o financiamento evaporou, e a perfuração não foi retomada para buscar a meta de 15 quilômetros.

Em 2008, o local estava completamente abandonado, de acordo com a mesma fonte. Na tundra da península, sobraram a torre de perfuração e os prédios da estação, sem nenhuma sonda em operação.

Poços mais longos, mas não mais fundos

Kola perdeu o título de furo mais longo, mas não o de mais fundo. Em 27 de agosto de 2012, a Exxon Neftegas completou o poço Z-44 Chayvo, na plataforma de Sacalina, no Extremo Oriente russo, com 12.376 metros, segundo o Guinness. A ExxonMobil informou à SEC, a comissão de valores dos EUA, que esse número é a profundidade medida de um poço de alcance estendido, que avança na diagonal e não desce na vertical.

No mar, a herança do Mohole seguiu com o navio japonês Chikyu. Em setembro de 2012, a agência japonesa JAMSTEC anunciou que o navio tinha perfurado 2.466 metros abaixo do leito marinho ao largo da península de Shimokita, recorde da perfuração científica oceânica, ainda longe do Moho.

Doze quilômetros num planeta de seis mil

A corrida terminou sem vencedor no objetivo que a lançou. O Mohole furou 183 metros de fundo do mar e foi cancelado por custo; Kola desceu 12,2 quilômetros e parou no calor de uma rocha que já não se comportava como rocha.

O raio da Terra passa de 6 mil quilômetros, e o furo soviético, o mais fundo já feito, ficou na casca. O manto que americanos e soviéticos queriam tocar nos anos 1960 continua fora do alcance de qualquer sonda.

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