Israel assinou um acordo com os Estados Unidos para comprar 12 helicópteros de ataque AH-64E Apache, enquanto o Brasil continua sem um substituto direto para os 12 AH-2 Sabre russos retirados de serviço pela FAB em 2022. As duas decisões mostram caminhos diferentes para a aviação militar: de um lado, a renovação de uma frota de combate; do outro, a reorganização de um esquadrão brasileiro que passou quatro anos sem aeronaves.
A compra israelense foi oficializada em 14 de outubro de 2026, após semanas de impasse sobre o financiamento. Os novos helicópteros serão fabricados pela Boeing e devem começar a chegar no início da década de 2030. O acordo envolve a versão mais recente do Apache, equipada com sistemas avançados de identificação de alvos, comunicação e emprego de armamentos.
No Brasil, a situação é diferente. A Força Aérea retirou seus Mi-35M de operação depois de enfrentar problemas de manutenção, dificuldades para conseguir peças e custos elevados para manter as aeronaves disponíveis. A decisão encerrou a experiência brasileira com helicópteros especificamente projetados para ataque, iniciada em 2010 na Base Aérea de Porto Velho, em Rondônia.
Quatro anos depois, o Esquadrão Poti, responsável por operar os antigos AH-2, prepara seu retorno com helicópteros H-60 Black Hawk. A unidade voltará a realizar missões aéreas, mas sem recuperar integralmente a capacidade ofensiva que possuía com os equipamentos russos.
Israel garante 12 novos Apache após negociação que quase terminou sem acordo
A encomenda dos helicópteros americanos não foi concluída facilmente. Israel já havia recebido autorização dos Estados Unidos, em janeiro, para uma possível aquisição de até 30 AH-64E Apache, dentro de um pacote estimado em US$ 3,8 bilhões, incluindo equipamentos e serviços associados.
A autorização, entretanto, não significava que todos os aparelhos seriam comprados. O acordo efetivamente assinado em outubro contempla 12 unidades, e o valor final desse contrato específico não foi informado no comunicado oficial israelense.
Segundo a reportagem da Defense News, publicada em 16 de outubro, a negociação chegou a correr risco de adiamento por causa de divergências entre os ministérios israelenses da Defesa e das Finanças. Enquanto os militares defendiam a urgência da aquisição, a área econômica exigia uma definição sobre a origem dos recursos.
Os Estados Unidos chegaram a prorrogar o prazo para a assinatura, mas o impasse continuou. Quando surgiu a possibilidade de Israel perder seu lugar na fila de produção da Boeing, o governo voltou a negociar com Washington e conseguiu uma nova oportunidade para concluir o contrato.
A aprovação ocorreu em 14 de outubro, depois de uma votação ministerial por telefone e da definição de uma fonte orçamentária. Parte dos recursos foi remanejada de um programa governamental destinado ao desenvolvimento de comunidades árabes em Israel, decisão que também provocou questionamentos internos.
Os helicópteros encomendados pertencem à versão AH-64E, conhecida como Apache Guardian. Projetados para operações de ataque, podem empregar mísseis Hellfire, foguetes e um canhão automático de 30 milímetros, além de sistemas que permitem compartilhar informações com outras aeronaves e operar em conjunto com drones.
Para a Força Aérea Israelense, a aquisição representa a continuidade de uma capacidade militar que já utiliza há décadas. O país possui experiência com versões anteriores do Apache e agora pretende incorporar equipamentos mais modernos, mantendo o modelo entre os principais meios de apoio aéreo às tropas terrestres.
Brasil comprou 12 helicópteros russos para a Amazônia, mas frota foi aposentada em 2022
A experiência brasileira com helicópteros de ataque seguiu um caminho bem diferente.
Em 2008, a FAB adquiriu da Rússia 12 helicópteros Mi-35M, posteriormente designados AH-2 Sabre. A escolha levou ao país uma aeronave blindada, equipada com canhão de 23 milímetros, foguetes de 80 milímetros e mísseis destinados a atingir alvos terrestres.
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Os primeiros exemplares chegaram a Porto Velho em 2010 e foram incorporados ao Esquadrão Poti, unidade que passou a desenvolver missões de ataque, escolta e apoio de fogo utilizando o novo equipamento.
A localização tinha importância operacional. Com uma extensa área de fronteira, grandes distâncias e regiões de difícil acesso terrestre, a Amazônia exigia meios capazes de atuar em diferentes condições. Os AH-2 poderiam trabalhar em conjunto com aeronaves A-29 Super Tucano, ampliando as possibilidades de emprego da FAB naquela região.
Os helicópteros russos ainda tinham uma característica que os diferenciava de outros modelos utilizados pela Aeronáutica: além dos armamentos e da proteção blindada, possuíam capacidade limitada para transportar militares, combinando funções de ataque e transporte em uma mesma plataforma.
A experiência, porém, começou a enfrentar dificuldades antes mesmo de completar sua primeira década.
A documentação histórica da própria FAB registra problemas com a cadeia de suprimentos russa, componentes específicos e procedimentos de manutenção diferentes daqueles normalmente empregados pela Força Aérea Brasileira. Com o passar dos anos, conseguir determinadas peças e realizar revisões passou a exigir gastos elevados, afetando a disponibilidade das aeronaves.
Em janeiro de 2022, o Comando da Aeronáutica decidiu desativar os AH-2 Sabre. A decisão foi tomada antes da invasão russa da Ucrânia, iniciada em fevereiro daquele ano, e das sanções internacionais que posteriormente tornaram ainda mais difícil a manutenção de diversos equipamentos militares de origem russa.
Os últimos helicópteros da encomenda brasileira haviam sido entregues apenas em 2014. Assim, parte da frota teve uma carreira particularmente curta, encerrada menos de uma década depois de sua incorporação.
Esquadrão Poti ficou sem aeronaves e agora prepara retorno com Black Hawks americanos
A retirada dos Sabre também afetou diretamente a unidade responsável por operá-los.
Desde 2022, o Esquadrão Poti permanece sem aeronaves próprias, embora não tenha sido formalmente desativado. Sua retomada começou a ganhar forma em 2026, quando o Estado-Maior da Aeronáutica confirmou a preparação da unidade para receber helicópteros H-60 Black Hawk.
A mudança, entretanto, envolve muito mais do que substituir uma aeronave de origem russa por outra americana.
Os Black Hawks são helicópteros multimissão utilizados principalmente em transporte, apoio tático, busca e salvamento e outras operações militares. Embora possam utilizar armamentos para autoproteção e apoio às missões, sua configuração na FAB não oferece o mesmo conjunto de recursos ofensivos dos antigos Mi-35M.
No novo planejamento, o Poti deverá atuar em Busca e Salvamento (SAR), Busca e Salvamento em Combate (CSAR) e Escolta, atividades nas quais a capacidade de transportar militares e operar em ambientes hostis tem grande importância.
O programa brasileiro acompanha a ampliação e a modernização da frota de H-60. A FAB adquiriu 11 unidades usadas provenientes dos Estados Unidos para somá-las aos 13 Black Hawks que permaneciam em operação, formando um conjunto de 24 aeronaves destinado a passar por revisão e atualização.
Os trabalhos incluem novos equipamentos de navegação e uma suíte digital de aviônicos, com o objetivo de prolongar a vida útil dos helicópteros e melhorar as condições de operação das tripulações.
O primeiro exemplar foi enviado aos Estados Unidos em março de 2026, transportado por um KC-390 Millennium da própria FAB. A previsão divulgada para o retorno da primeira aeronave modernizada é 2027, enquanto as demais passarão gradualmente pelo processo de atualização.
O que muda na capacidade de ataque da Força Aérea Brasileira
A decisão de utilizar Black Hawks no Esquadrão Poti permite recuperar atividades importantes, mas deixa uma diferença em relação ao período em que a unidade operava os AH-2 Sabre.
Com os helicópteros russos, a FAB contava com aeronaves projetadas desde a origem para atacar alvos terrestres, empregando blindagem, sensores e armamentos específicos para esse tipo de missão.
A frota atual de asas rotativas possui outras capacidades. Os H-60 Black Hawk e H-36 Caracal, por exemplo, podem transportar tropas, apoiar operações especiais, realizar resgates e atuar em ambientes de risco. São equipamentos relevantes para a estrutura militar brasileira, mas com características e prioridades operacionais diferentes das de um helicóptero dedicado ao ataque.
O Brasil também continua dispondo de aviões de combate, como os A-29 Super Tucano e os caças empregados pela FAB, que podem executar missões ofensivas conforme suas características e armamentos. Isso, porém, não elimina as diferenças de emprego entre uma aeronave de asa fixa e um helicóptero concebido para operar próximo ao terreno, acompanhar tropas e atacar determinados alvos terrestres.