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O que o piloto da FAB leva embaixo do assento ejetável para sobreviver dias na selva ou no mar

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 03/10/2026 às 17:10
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O que o piloto da FAB leva embaixo do assento ejetável para sobreviver dias na selva ou no mar
Aviso de assento ejetável pintado abaixo da cabine de um avião da Esquadrilha da Fumaça, da FAB. Foto de Cesar I. Martins, Wikimedia Commons, CC BY 2.0.

Bote, rádio, sinalizadores e dessalinizador vão no kit que a FAB testa com cadetes em 48 horas numa balsa e cinco dias na mata do Pará.

O piloto da Força Aérea Brasileira que se ejeta de um A-29 Super Tucano, de um F-5 ou de um Gripen desce de paraquedas com um kit de sobrevivência pendurado abaixo do corpo. O fabricante britânico Martin-Baker, que fornece os assentos dessas aeronaves, descreve o pacote como um conjunto com bote salva-vidas que infla sozinho e baliza de resgate que se ativa automaticamente.

A lista exata de cada caça não é divulgada, mas a FAB mostra o material nos estágios em que cadetes da Academia da Força Aérea passam 48 horas numa balsa no litoral paulista ou cinco dias na mata do sul do Pará. Nesses treinos, eles recebem itens dos mesmos kits que equipam as aeronaves da Força e aprendem a usá-los até o resgate chegar.

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Um pacote que desce preso ao piloto

Na sequência de ejeção descrita pela Martin-Baker, o assento se separa do ocupante quando o paraquedas principal abre. Logo depois que o piloto se ejeta e o velame infla, o chamado Seat Survival Kit fica suspenso abaixo dele, com itens definidos conforme a missão, como o bote e a baliza.

A família de assentos Mk10 da empresa, segundo a ficha publicada no site do fabricante, equipa o F-5, o Super Tucano, o AMX brasileiro e o Gripen, entre outras aeronaves. A Martin-Baker informa mais de 4 mil assentos Mk10 em serviço no mundo e mais de 1.400 vidas salvas com esse modelo desde a primeira ejeção, em 1976. Somando todos os seus assentos, a empresa contabiliza mais de 7.720 vidas salvas.

Sinalizadores, rádio e dessalinizador na balsa

O retrato mais detalhado do conteúdo está numa nota da FAB de setembro de 2019, reproduzida pela DefesaNet. Os cadetes receberam itens que compõem os kits de sobrevivência das aeronaves da Força Aérea Brasileira: sinalizadores, lanterna, rádio, material para manutenção da balsa e dessalinizador, aparelho que torna a água do mar potável.

A comida veio como ração operacional para sobrevivência no mar, composta por água, jujuba e chicletes, segundo a mesma nota da Força. Num estágio de selva de 2014, a FAB citou ainda um kit de primeiros socorros entre os itens entregues aos cadetes.

Dois dias numa balsa a 800 metros da praia

Naquele ano, 192 cadetes do 2º ano da AFA, da turma Mihos, com 171 homens e 21 mulheres, fizeram a fase prática no Forte dos Andradas, sede da 1ª Brigada de Artilharia Antiaérea do Exército, no Guarujá (SP). Eles foram levados de bote até balsas ancoradas a cerca de 800 metros da praia e ficaram nelas por 48 horas, segundo a FAB.

“São muitas as dificuldades encontradas nos dois dias em que ficamos na balsa”, disse a cadete aviadora Ianca Maria Cavalcante Menezes, na nota da Força. Militares da Seção de Instrução Militar do Corpo de Cadetes da Aeronáutica ficaram de prontidão 24 horas para atender e resgatar os participantes, com equipe médica no local.

Antes do mar, a turma teve aulas teóricas e práticas na piscina da AFA, em Pirassununga (SP), nos dias 11 e 12 de setembro. A etapa terminou com o Teste de Habilidade Específica, que avaliou natação, flutuação vertical e nado submerso, feitos de uniforme e sem calçados.

Em 2013, a prova no mar durou 72 horas

O formato já foi mais longo. Entre 2 e 20 de outubro de 2013, cadetes do 2º ano do Esquadrão Kratos passaram 72 horas no mar, em equipes de até 28 pessoas, usando balsas iguais às que equipam as aeronaves da FAB, segundo reportagem da DefesaNet daquele mês.

A instrução prévia na academia cobriu abandono de aeronave, técnicas de salvamento de afogados, operação dos equipamentos de sobrevivência e procedimentos no bote de emergência. A DefesaNet descreveu como condições simuladas a falta de água e de comida, o estresse psicológico, o desgaste físico e a exposição ao tempo.

Sal, facões e quatro noites no sul do Pará

A mesma turma Kratos foi para a selva no ano seguinte. Em agosto de 2014, já no 3º ano, os cadetes fizeram o estágio no Campo de Provas Brigadeiro Velloso, no sul do Pará, num exercício que simula o pouso forçado de uma aeronave e obriga os sobreviventes a esperar o resgate por quatro noites, segundo a FAB.

Em junho de 2018, 143 cadetes do Esquadrão Astherion repetiram o treinamento de sobrevivência na selva no mesmo campo, divididos em três grupos de cinco dias cada. Para esse período, segundo a FAB, cada grupo recebeu um kit semelhante ao das aeronaves da Força, um pouco de sal e alguns facões.

Para o comandante do Corpo de Cadetes em 2014, coronel Claudio Evangelista Cardoso, o motivo é o território. “Em um Brasil como o nosso, com fronteiras de proporções continentais e com a Amazônia que nós temos, se acontecer algum tipo emergência que leve a tripulação a ter que fazer uma sobrevivência, eles vão estar preparados”, afirmou, em texto da FAB reproduzido pela Defesa Aérea & Naval.

Abrigo longe do chão, armadilha e fogueira para ser visto

As tarefas listadas pela FAB em 2018 foram construir abrigo, um porto à beira do rio, armadilhas para capturar alimento e uma fogueira para sinalização ao resgate aéreo. Em 2014, o coordenador da instrução, capitão Allan Godoy de Menezes, explicou que os cadetes preparam uma área de localização para serem vistos e uma área de sobrevivência afastada do solo, para evitar insetos.

A teoria é dada antes, na própria AFA, com aulas sobre o preparo da área, armadilhas de caça e pesca e identificação de vegetais comestíveis da região amazônica. A maior dificuldade relatada pelos cadetes foi a fome. “Tem que construir as armadilhas como realmente nos ensinam, tem que disfarçar o cheiro, saber canalizar o animal para a armadilha e ter bastante paciência”, contou o cadete aviador João Gabriel Guimarães Lobato.

Quanto tempo esperar pelo resgate

Não há, em documento público da FAB, um número oficial de horas ou dias que o piloto deve aguentar até ser encontrado. Os estágios da AFA trabalham com 48 horas no mar e de quatro noites a cinco dias na selva, e a Força apresenta o treino como preparo para a espera por resgate.

Quem chega até o sobrevivente é a estrutura de busca e salvamento da FAB, que conta com o PARA-SAR para áreas isoladas. Nos próprios estágios, os cadetes têm rádio para emergências reais e uma equipe de instrutores pronta para ir até o local.

A ejeção de um F-5 em Parnamirim

Em 22 de outubro de 2024, um caça F-5 da FAB teve pane no motor logo depois de decolar de Natal para um voo de treinamento, segundo o jornal Estado de Minas, com base em nota da Força. O piloto desviou o avião para uma área desabitada de Parnamirim (RN) antes de se ejetar.

Ele saiu sem ferimentos, foi resgatado pela equipe de salvamento da FAB e levado ao hospital da Base Aérea de Natal para avaliação. O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, o Cenipa, abriu investigação. Ali o resgate chegou logo, e é para o caso contrário, longe de tudo, no mar ou na mata, que os cadetes passam pela balsa e pelo acampamento do Pará.

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