Um dos dois jatos Airbus A330-200 (em sua versão militar denominado C-30) adquiridos pela Força Aérea Brasileira (FAB) por cerca de US$ 80 milhões (cerca de R$ 413 milhões na cotação atual) completou mais de um ano parado no Aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), e vai precisar passar pela troca do componente mais caro de uma aeronave: o motor.
A informação é do Centro de Comunicação Social da Aeronáutica em Brasília, por meio do Comando-Geral de Apoio (COMGAP), que prevê que a manutenção programada do A330 de matrícula FAB 2902 seja concluída até dezembro de 2026, depois de a aeronave permanecer preservada no pátio do aeroporto em Campinas desde o final de agosto de 2025.
O que pode ter atrasado a manutenção do avião e causado o período prolongado fora de operação é o custo: o motor é o componente mais caro de uma aeronave, representando frequentemente cerca de um terço do valor total, ou até mais quando vendido isoladamente.
Segundo a Aeronáutica, o FAB 2902 precisou ter um dos motores removidos para manutenção e posterior substituição. Já em setembro de 2026, seguindo o planejamento de manutenção da frota C-30, a aeronave retornou ao hangar em Viracopos para o cumprimento de uma manutenção programada prevista em seu plano de manutenção.
O jato foi flagrado estacionado dentro do hangar de manutenção em agosto de 2026, após passar meses estacionado em um pátio externo destinado à preservação de aeronaves (situação em que o avião é preparado para permanecer um longo período fora de operação).
Motor novo pode custar até US$ 30 milhões
Os Airbus A330-200 (designados como C-30) da FAB são equipados com motores Rolls-Royce Trent 700. A Força não revela valores envolvidos na manutenção do FAB 2902, mas segundo estimativas internacionais, a unidade de um motor usado do tipo pode custar até US$ 18 milhões (mais de R$ 96 milhões, na cotação atual), segundo levantamento da empresa de aviação mundial Safe Fly.
Isso para um motor revisado, com muitas horas de uso. Para um motor novo de fábrica, o valor pode chegar aos US$ 30 milhões por unidade. Não há especificação se a aeronave da FAB recebeu um motor novo ou revisado, e os valores envolvidos.
A troca do motor é a parte mais complexa da manutenção de uma aeronave, e pode causar longos períodos fora de serviço, especialmente por conta do custo envolvido e pela disponibilidade de motores compatíveis no mercado.

Até mesmo companhias aéreas comerciais que realizam manutenção em dezenas de aeronaves diariamente podem encontrar dificuldades para substituir um motor, e dependendo dos custos envolvidos, a operação acaba se tornando prejuízo, o que leva a aeronave a ser retirada definitivamente de operação para servir como “doadora” de peças ou ter outro destino.
O trabalho exige equipamentos especializados, técnicos certificados, componentes compatíveis, inspeções rigorosas e uma série de testes antes que a aeronave possa voltar a transportar passageiros, militares e cargas.
O motor Rolls-Royce Trent 700 é um turbofan de três eixos e alto bypass projetado exclusivamente para equipar a família de aeronaves A330 da Airbus.
Ele pode ter entre 68.000 a 72.000 libras-força (lbs) de empuxo, levando a aeronave, com o conjunto de dois motores, a velocidades superiores aos 800km/h, dependendo da altitude e condições.
FAB quer assumir manutenção do A330
A brasileira Azul, por meio da Azul TecOps, presta serviços de manutenção aos A330 da FAB, por meio de um contrato da Aeronáutica junto à Airbus Defense and Space, participando da execução dos serviços. Os trabalhos são realizados nas instalações da Azul em Campinas (SP) e, quando necessário, em outras bases, como no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro.
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No caso do avião FAB 2902, que permanece parado em Viracopos desde agosto de 2025, a Azul aparece como responsável pelos trabalhos de manutenção.
Apesar do contrato firmado inicialmente com a Azul, o Comando da Aeronáutica prevê que a manutenção dos A330 seja assumida pela FAB por meios próprios. Para isso, a FAB, por meio de seu Instituto de Logística, está treinando mecânicos e mantenedores da aeronave por meio da estrutura de um curso específico para o KC-30.
No documento que detalha a formação, a Aeronáutica destaca que o objetivo é “tornar-se independente na manutenção de nível orgânico do KC-30, para garantir a autonomia operacional e reduzir a dependência de contratos externos, promovendo uma significativa economia dos recursos financeiros que seriam destinados à aquisição de futuros pacotes de treinamento“.
O custo elevado do contrato de manutenção com a Azul e Airbus é citado como o principal fator para a internalização da manutenção do A330. A formação pretende abordar todos os aspectos da filosofia operacional de um jato Airbus, e todos os aspectos de manutenção que envolve os A330, incluindo motores, sistemas elétricos e hidráulicos, trem de pouso e diversos outros sistemas.
A330 é um “coringa” da FAB
A FAB adquiriu as duas unidades do A330 em 2022 para suprir uma necessidade de transporte estratégico de longo alcance e reabastecimento em voo. Uma das vantagens do jato da Airbus é a capacidade de realizar voos intercontinentais sem necessidade de escala, chegando a 14 mil quilômetros de autonomia, mais do que o dobro do KC-390 da Embraer, que vem sendo a espinha dorsal da logística da Força, com um autonomia de cerca de 6 mil quilômetros.
O jato também possui uma capacidade de carga de até 45 toneladas, enquanto o KC-390 consegue carregar até 26 toneladas.
Os dois jatos adquiridos em contrato com a Azul receberam a adaptação para o padrão militar, mas o projeto de conversão para a capacidade de reabastecimento em voo (REVO) ainda não saiu do papel.
Esse processo é realizado na fábrica da Airbus, em Getafe, na Espanha, e não há verba prevista. Por isso, os dois A330 permanecem no padrão C-30. Em caso de conversão para REVO, os aviões são denominados KC-30.
O A330 vem desempenhando um papel de “coringa” dentro da estratégia logística da FAB, e já foi usado para viagens presidenciais internacionais em substituição ao A319, apesar de não ter sido convertido exclusivamente para essa função.
Uma das aeronaves A330 chegou a ser cotada para se transformar no novo avião oficial da Presidência da República, já que o governo estudava aposentar o A319, em operação desde 2005 e apelidado de “Aerolula” por ter sido adquirido durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O projeto, entretanto, por enquanto não foi adiante.
Avião voou por 19 horas sem escala
Como uma prova de sua versatilidade e uso estratégico para as missões da FAB, o A330 voou por quase 19 horas sem escalas entre a Índia e o Brasil, no retorno da viagem precursora que prepara a visita do presidente Lula à Ásia em fevereiro de 2026.
O percurso foi de 14.260 km em 18 horas e 52 minutos de voo. Com capacidade para 240 passageiros, até 13 toneladas de cargas nos porões, o avião tem autonomia de aproximadamente 14.000 quilômetros, dependendo das condições de operação.