A Marinha do Brasil colocou quatro caças muito diferentes na mesma disputa para recuperar sua aviação de asa fixa no fim dos anos 1990. Entraram no radar o A-4 Skyhawk, o A-7 Corsair II, o BAE Harrier e o Dassault Super Étendard. O favorito inicial não venceu, dois concorrentes ficaram caros demais e outro acabou grande e pesado demais para o velho porta-aviões Minas Gerais.
A escolha terminou com um lote usado do Kuwait: 20 A-4KU monopostos e três TA-4KU bipostos, aeronaves fabricadas em 1977 e 1978 e que haviam passado pela Guerra do Golfo. O negócio foi avaliado em cerca de US$ 70 milhões e abriu uma nova fase para a Aviação Naval brasileira.
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Restrições de orçamento, tamanho do navio e disponibilidade internacional pesaram mais do que a preferência inicial da Marinha. No papel, havia opções mais modernas e até mais desejadas. No convés do Minas Gerais e dentro do orçamento brasileiro, a disputa mudou de rumo.
Super Étendard era o preferido, mas o preço tirou o caça francês da disputa
Segundo levantamento publicado pelo AeroFlap, a Marinha buscava uma aeronave com capacidade de ataque marítimo, boa autonomia e condições de operar tanto em bases terrestres quanto em porta-aviões. O Dassault Super Étendard aparecia como a alternativa preferida.
A familiaridade brasileira com aeronaves francesas ajudava. A Força Aérea Brasileira havia operado os Mirage III, e o Super Étendard já carregava uma reputação de combate construída na Guerra das Malvinas, quando aeronaves argentinas do modelo empregaram mísseis antinavio Exocet.

O obstáculo apareceu no preço. Os valores pedidos pelas aeronaves francesas ficaram acima do que os recursos disponíveis permitiam. Uma opção desejada pela Marinha acabou perdendo espaço antes de a compra avançar.
O BAE Harrier encontrou problema parecido. Sua capacidade de decolagem curta e pouso vertical tornava o avião especialmente interessante para navios com espaço limitado, mas o custo também pesou contra a aquisição brasileira.
A-7 tinha preço atraente, mas era grande e pesado demais para o Minas Gerais
O terceiro concorrente era o Vought A-7 Corsair II, avião de ataque que serviu à Marinha dos Estados Unidos e possuía boa capacidade de carga. Diferentemente das alternativas francesa e britânica, seu preço era considerado atraente.
O problema estava no navio disponível. O NAeL Minas Gerais havia sido construído durante a Segunda Guerra Mundial e tinha limitações físicas que não podiam ser ignoradas. Para a configuração brasileira, o A-7 era considerado grande e pesado demais para uma operação adequada a bordo.
Restava então um caça conhecido por uma característica que sempre ajudou sua carreira embarcada: dimensões compactas. O A-4 Skyhawk havia sido desenhado para entregar capacidade de ataque em uma célula pequena, simples e relativamente leve.
A oportunidade apareceu no Kuwait. O país tinha um lote de Skyhawk que já não era necessário depois da introdução dos F/A-18 Hornet e procurava comprador para as aeronaves sobreviventes.
Brasil encontrou 23 Skyhawk no Kuwait e fechou negócio de cerca de US$ 70 milhões
Os aviões oferecidos ao Brasil pertenciam à versão A-4KU, derivada da família A-4M Skyhawk II. Eram máquinas produzidas no fim da década de 1970 para a Força Aérea do Kuwait e equipadas com o motor J52-P-408.
O lote brasileiro reuniu 20 A-4KU de um assento e três TA-4KU de dois lugares. A negociação foi intermediada pelos Estados Unidos e alcançou aproximadamente US$ 70 milhões.
As aeronaves não vinham de uma carreira tranquila. Quando o Iraque invadiu o Kuwait, em agosto de 1990, pilotos kuwaitianos empregaram seus Skyhawk contra as forças invasoras. Parte da frota conseguiu escapar para a Arábia Saudita e continuou operando durante a campanha que culminou na libertação do país.

A Skyhawk Association registra que os A-4KU sobreviventes foram posteriormente retirados de serviço e colocados à venda. O Brasil acabou comprando 23 deles para reconstruir uma capacidade de aviação de caça embarcada que a Marinha buscava recuperar.
Caças chegaram encaixotados ao Rio e obrigaram a Marinha a montar uma nova estrutura
Os Skyhawk chegaram ao Brasil em 5 de setembro de 1998, transportados por navio e desembarcados em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro. Depois dos procedimentos de entrada no país, seguiram para a Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia.
A compra dos aviões era apenas uma parte do projeto. A base precisou receber infraestrutura para operar os jatos, com hangar, instalações administrativas, equipamentos de apoio, adequações da pista e treinamento de oficiais e praças.
Em 2 de outubro de 1998, a Marinha ativou o 1º Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque, o VF-1, conhecido como Esquadrão Falcão. Os A-4KU receberam a designação brasileira AF-1, enquanto os bipostos TA-4KU passaram a ser chamados AF-1A.
O Acervo Arquivístico da Marinha registra que o primeiro voo de um AF-1 no Brasil ocorreu em 26 de abril de 2000. Um mês depois, em 26 de maio, aconteceu o primeiro voo do modelo no país pilotado por um brasileiro.
O avião que venceu por caber no navio acabou atravessando outra mudança de porta-aviões
A ironia apareceu pouco depois da compra. O Minas Gerais, cuja limitação de tamanho havia ajudado a eliminar o A-7 da disputa, deixou a linha de frente e foi substituído pelo NAe São Paulo, antigo Foch francês, incorporado pela Marinha em 2000.
Os AF-1 passaram então a operar com o novo porta-aviões. Registros da Marinha mostram enganches, catapultagens e treinamento crescente do VF-1 no início dos anos 2000. Em dezembro de 2001, uma aeronave do esquadrão realizou o primeiro lançamento do míssil ar-ar AIM-9H Sidewinder.
O Super Étendard esbarrou no preço, o Harrier também ficou caro e o A-7 não combinava com as limitações do Minas Gerais. O A-4 apareceu como o equilíbrio possível entre dimensões, custo, disponibilidade e capacidade de operação naval.
Décadas depois, aqueles 23 jatos comprados usados continuam ligados a um dos capítulos mais incomuns da modernização militar brasileira: uma concorrência em que o caça desejado perdeu, um avião maior não cabia bem no plano e aeronaves veteranas do Kuwait acabaram atravessando o Atlântico para vestir as cores da Marinha do Brasil.