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Marinha colocou A-4, A-7, Harrier e Super Étendard na mesma disputa para voltar a operar jatos: favorito francês perdeu e lote usado do Kuwait venceu por cerca de US$ 70 milhões

Antes de comprar 23 A-4 usados do Kuwait, a Marinha avaliou A-7, Harrier e Super Étendard. Preço, peso e limites do porta-aviões Minas Gerais mudaram uma disputa que terminou em negócio de cerca de US$ 70 milhões.

Marcos
Por Marcos 02/10/2026 às 20:21
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Marinha colocou A-4, A-7, Harrier e Super Étendard na mesma disputa para voltar a operar jatos: favorito francês perdeu e lote usado do Kuwait venceu por cerca de US$ 70 milhões
AF-1 Skyhawk operado pela Marinha do Brasil, modelo escolhido após a avaliação de A-7, Harrier e Super Étendard. Crédito: Marinha do Brasil.

A Marinha do Brasil colocou quatro caças muito diferentes na mesma disputa para recuperar sua aviação de asa fixa no fim dos anos 1990. Entraram no radar o A-4 Skyhawk, o A-7 Corsair II, o BAE Harrier e o Dassault Super Étendard. O favorito inicial não venceu, dois concorrentes ficaram caros demais e outro acabou grande e pesado demais para o velho porta-aviões Minas Gerais.

A escolha terminou com um lote usado do Kuwait: 20 A-4KU monopostos e três TA-4KU bipostos, aeronaves fabricadas em 1977 e 1978 e que haviam passado pela Guerra do Golfo. O negócio foi avaliado em cerca de US$ 70 milhões e abriu uma nova fase para a Aviação Naval brasileira.

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Restrições de orçamento, tamanho do navio e disponibilidade internacional pesaram mais do que a preferência inicial da Marinha. No papel, havia opções mais modernas e até mais desejadas. No convés do Minas Gerais e dentro do orçamento brasileiro, a disputa mudou de rumo.

Super Étendard era o preferido, mas o preço tirou o caça francês da disputa

Segundo levantamento publicado pelo AeroFlap, a Marinha buscava uma aeronave com capacidade de ataque marítimo, boa autonomia e condições de operar tanto em bases terrestres quanto em porta-aviões. O Dassault Super Étendard aparecia como a alternativa preferida.

A familiaridade brasileira com aeronaves francesas ajudava. A Força Aérea Brasileira havia operado os Mirage III, e o Super Étendard já carregava uma reputação de combate construída na Guerra das Malvinas, quando aeronaves argentinas do modelo empregaram mísseis antinavio Exocet.

Dois caças Super Étendard franceses em voo durante operação de reabastecimento aéreo.
Caças Dassault Super Étendard em voo. O modelo francês foi a opção preferida pela Marinha do Brasil, mas o preço afastou a compra. Crédito: Duch.seb/Wikimedia Commons.

O obstáculo apareceu no preço. Os valores pedidos pelas aeronaves francesas ficaram acima do que os recursos disponíveis permitiam. Uma opção desejada pela Marinha acabou perdendo espaço antes de a compra avançar.

O BAE Harrier encontrou problema parecido. Sua capacidade de decolagem curta e pouso vertical tornava o avião especialmente interessante para navios com espaço limitado, mas o custo também pesou contra a aquisição brasileira.

A-7 tinha preço atraente, mas era grande e pesado demais para o Minas Gerais

O terceiro concorrente era o Vought A-7 Corsair II, avião de ataque que serviu à Marinha dos Estados Unidos e possuía boa capacidade de carga. Diferentemente das alternativas francesa e britânica, seu preço era considerado atraente.

O problema estava no navio disponível. O NAeL Minas Gerais havia sido construído durante a Segunda Guerra Mundial e tinha limitações físicas que não podiam ser ignoradas. Para a configuração brasileira, o A-7 era considerado grande e pesado demais para uma operação adequada a bordo.

Restava então um caça conhecido por uma característica que sempre ajudou sua carreira embarcada: dimensões compactas. O A-4 Skyhawk havia sido desenhado para entregar capacidade de ataque em uma célula pequena, simples e relativamente leve.

A oportunidade apareceu no Kuwait. O país tinha um lote de Skyhawk que já não era necessário depois da introdução dos F/A-18 Hornet e procurava comprador para as aeronaves sobreviventes.

Brasil encontrou 23 Skyhawk no Kuwait e fechou negócio de cerca de US$ 70 milhões

Os aviões oferecidos ao Brasil pertenciam à versão A-4KU, derivada da família A-4M Skyhawk II. Eram máquinas produzidas no fim da década de 1970 para a Força Aérea do Kuwait e equipadas com o motor J52-P-408.

O lote brasileiro reuniu 20 A-4KU de um assento e três TA-4KU de dois lugares. A negociação foi intermediada pelos Estados Unidos e alcançou aproximadamente US$ 70 milhões.

As aeronaves não vinham de uma carreira tranquila. Quando o Iraque invadiu o Kuwait, em agosto de 1990, pilotos kuwaitianos empregaram seus Skyhawk contra as forças invasoras. Parte da frota conseguiu escapar para a Arábia Saudita e continuou operando durante a campanha que culminou na libertação do país.

Caça A-4KU Skyhawk da Força Aérea do Kuwait estacionado durante a Operação Desert Shield.
A-4KU Skyhawk do Kuwait durante a Operação Desert Shield. Aeronaves dessa versão integraram o lote de 23 jatos comprado depois pela Marinha do Brasil. Crédito: JO3 Gerald Johnson/U.S. Navy.

A Skyhawk Association registra que os A-4KU sobreviventes foram posteriormente retirados de serviço e colocados à venda. O Brasil acabou comprando 23 deles para reconstruir uma capacidade de aviação de caça embarcada que a Marinha buscava recuperar.

Caças chegaram encaixotados ao Rio e obrigaram a Marinha a montar uma nova estrutura

Os Skyhawk chegaram ao Brasil em 5 de setembro de 1998, transportados por navio e desembarcados em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro. Depois dos procedimentos de entrada no país, seguiram para a Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia.

A compra dos aviões era apenas uma parte do projeto. A base precisou receber infraestrutura para operar os jatos, com hangar, instalações administrativas, equipamentos de apoio, adequações da pista e treinamento de oficiais e praças.

Em 2 de outubro de 1998, a Marinha ativou o 1º Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque, o VF-1, conhecido como Esquadrão Falcão. Os A-4KU receberam a designação brasileira AF-1, enquanto os bipostos TA-4KU passaram a ser chamados AF-1A.

O Acervo Arquivístico da Marinha registra que o primeiro voo de um AF-1 no Brasil ocorreu em 26 de abril de 2000. Um mês depois, em 26 de maio, aconteceu o primeiro voo do modelo no país pilotado por um brasileiro.

O avião que venceu por caber no navio acabou atravessando outra mudança de porta-aviões

A ironia apareceu pouco depois da compra. O Minas Gerais, cuja limitação de tamanho havia ajudado a eliminar o A-7 da disputa, deixou a linha de frente e foi substituído pelo NAe São Paulo, antigo Foch francês, incorporado pela Marinha em 2000.

Os AF-1 passaram então a operar com o novo porta-aviões. Registros da Marinha mostram enganches, catapultagens e treinamento crescente do VF-1 no início dos anos 2000. Em dezembro de 2001, uma aeronave do esquadrão realizou o primeiro lançamento do míssil ar-ar AIM-9H Sidewinder.

O Super Étendard esbarrou no preço, o Harrier também ficou caro e o A-7 não combinava com as limitações do Minas Gerais. O A-4 apareceu como o equilíbrio possível entre dimensões, custo, disponibilidade e capacidade de operação naval.

Décadas depois, aqueles 23 jatos comprados usados continuam ligados a um dos capítulos mais incomuns da modernização militar brasileira: uma concorrência em que o caça desejado perdeu, um avião maior não cabia bem no plano e aeronaves veteranas do Kuwait acabaram atravessando o Atlântico para vestir as cores da Marinha do Brasil.

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