Uma ilha desabitada, cercada pelo Atlântico e sem infraestrutura para receber visitantes, tornou-se cenário de uma operação inédita da Marinha do Brasil. Em março de 2022, militares desembarcaram em Martin Vaz, a cerca de 1.200 quilômetros de Vitória, no Espírito Santo, e instalaram o primeiro acampamento científico com pernoite no local.
A iniciativa fez parte da 110ª Expedição Científica à Ilha da Trindade e ao Arquipélago de Martin Vaz. Para viabilizá-la, a Marinha utilizou um navio hidroceanográfico, um helicóptero e Fuzileiros Navais, permitindo que a equipe permanecesse na ilha por seis dias.
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Helicóptero decolou às 8h para iniciar o desembarque
Os pesquisadores embarcaram em Niterói, no Rio de Janeiro, em 7 de março. No dia 17, o navio chegou às proximidades da Ilha da Trindade, distante aproximadamente 49 quilômetros de Martin Vaz.
Às 8h de 18 de março, o helicóptero decolou transportando pessoal e equipamentos para o acampamento. Conforme a Agência Marinha de Notícias, os ventos irregulares e o relevo montanhoso dificultavam a aproximação e as manobras da aeronave.
Fuzileiros Navais enfrentaram terreno rochoso e encostas íngremes

Martin Vaz tem aproximadamente 500 metros de extensão e elevações próximas de 180 metros. O relevo vulcânico, a vegetação rasteira e a inexistência de instalações permanentes impõem dificuldades até para movimentar suprimentos. Sem porto ou pista de pouso convencional, desembarcar materiais exigia planejamento e adaptação às condições do tempo.
Os Fuzileiros Navais empregaram técnicas de montanhismo para apoiar o transporte dos equipamentos e a montagem das barracas. O trabalho exigiu coordenação entre as equipes em terra, a aeronave e o navio que permanecia na região.
Navio transportou 117 pessoas e funcionou como base de apoio
O Navio Hidroceanográfico Faroleiro Almirante Graça Aranha (H-34), comandado pelo capitão de fragata Marcelo de Abreu Souza, foi o principal meio de apoio à expedição, que durou 31 dias.
A embarcação contava com laboratórios, enfermaria, oficinas, hangar e convés de voo. Ao todo, 117 pessoas participaram da viagem, entre militares e pesquisadores. Esse número corresponde aos embarcados na expedição, não aos integrantes que passaram a noite em Martin Vaz. A estrutura do navio possibilitou manter assistência, alimentação e apoio técnico enquanto os trabalhos avançavam longe do continente.
Capitão-tenente se tornou a primeira oficial a pernoitar na ilha
A capitão-tenente Juliana Carvalho ficou responsável pelo acampamento. Segundo o Informativo da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, ela foi a primeira oficial da Marinha a pernoitar em Martin Vaz.
Durante a permanência, além de coordenar atividades de apoio às pesquisas, a oficial participou da substituição da Bandeira Nacional. O gesto integrou as ações de presença institucional brasileira na região.
Cientistas recolheram 52 quilos de rochas e estudaram a fauna

Um dos resultados da missão foi a coleta de 52 quilos de rochas destinadas a análises em oito instituições de ensino superior. O pesquisador Lucas Guimarães Pereira Monteiro, da UERJ, identificou na base da ilha uma formação vulcânica ainda não mapeada. As amostras ajudariam a investigar a origem e a evolução geológica dessa parte da cadeia Vitória-Trindade.
O trabalho também envolveu observação, medição, anilhamento e soltura de aves marinhas, incluindo atobás-mascarados, trinta-réis-das-rocas e fragatas-grandes. Duas armadilhas fotográficas foram instaladas para acompanhar a fauna após a saída da equipe.
Durante a navegação, pesquisadores realizaram ainda 48 lançamentos de sensores XBT, usados para medir a temperatura da água e estudar características da circulação oceânica. Esses lançamentos ocorreram no mar, não dentro do acampamento.
Marinha instalou marco geodésico e reforçou presença brasileira
A expedição estabeleceu um marco geodésico para aumentar a precisão das referências cartográficas da ilha. A medida poderia contribuir para futuros levantamentos científicos e para a produção de informações náuticas, após os procedimentos necessários de homologação.
A instalação do acampamento, entretanto, não significou a criação de uma base militar permanente. Tampouco foi o primeiro desembarque de brasileiros em Martin Vaz: documentos da Marinha registram uma missão de hasteamento da bandeira em 1962.
Novas expedições deram continuidade ao trabalho científico
A operação de março abriu caminho para visitas posteriores. Em julho de 2022, militares e pesquisadores retornaram para recolher dados das armadilhas fotográficas, ampliar coletas geológicas e substituir novamente a Bandeira Nacional.
Localizada na extremidade oriental do território brasileiro, Martin Vaz possui importância científica, ambiental e estratégica. A missão mostrou como a combinação de navio, helicóptero e Fuzileiros Navais tornou possível realizar pesquisas em um dos pontos de acesso mais difíceis do país. Embora relevante para a presença do Brasil no Atlântico Sul, a operação não alterou por si só os limites marítimos nacionais.