Revista Sociedade Militar, todos os direitos reservados.

Marinha do Brasil mobilizou navio, helicóptero e Fuzileiros Navais até ilha desabitada a 1.200 km de Vitória para montar acampamento científico inédito

Em operação inédita em 2022, a Marinha do Brasil mobilizou navio, helicóptero e Fuzileiros Navais para instalar o primeiro acampamento científico em Martin Vaz, ilha desabitada a 1.200 km de Vitória, no Atlântico Sul.

Noel Budeguer
Por Noel Budeguer 12/10/2026 às 15:17
Compartilhar
Marinha do Brasil mobilizou navio, helicóptero e Fuzileiros Navais até ilha desabitada a 1.200 km de Vitória para montar acampamento científico inédito
Operação realizada em março de 2022 permitiu a permanência de militares e pesquisadores em um território brasileiro de difícil acesso, no meio do Atlântico Sul.

Uma ilha desabitada, cercada pelo Atlântico e sem infraestrutura para receber visitantes, tornou-se cenário de uma operação inédita da Marinha do Brasil. Em março de 2022, militares desembarcaram em Martin Vaz, a cerca de 1.200 quilômetros de Vitória, no Espírito Santo, e instalaram o primeiro acampamento científico com pernoite no local.

A iniciativa fez parte da 110ª Expedição Científica à Ilha da Trindade e ao Arquipélago de Martin Vaz. Para viabilizá-la, a Marinha utilizou um navio hidroceanográfico, um helicóptero e Fuzileiros Navais, permitindo que a equipe permanecesse na ilha por seis dias.

Receba nossas notícias independente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora

Entrar no grupo agora

Helicóptero decolou às 8h para iniciar o desembarque

Os pesquisadores embarcaram em Niterói, no Rio de Janeiro, em 7 de março. No dia 17, o navio chegou às proximidades da Ilha da Trindade, distante aproximadamente 49 quilômetros de Martin Vaz.

Às 8h de 18 de março, o helicóptero decolou transportando pessoal e equipamentos para o acampamento. Conforme a Agência Marinha de Notícias, os ventos irregulares e o relevo montanhoso dificultavam a aproximação e as manobras da aeronave.

Fuzileiros Navais enfrentaram terreno rochoso e encostas íngremes

Ilha de Martin Vaz, o ponto mais oriental do território brasileiro, fica a cerca de 1.200 quilômetros de Vitória, possui apenas 500 metros de extensão e paredões rochosos de quase 180 metros de altura. Desabitada e de difícil acesso, recebeu em 2022 seu primeiro acampamento científico com pernoite. Foto: Marinha do Brasil/Divulgação.
Ilha de Martin Vaz, o ponto mais oriental do território brasileiro, fica a cerca de 1.200 quilômetros de Vitória, possui apenas 500 metros de extensão e paredões rochosos de quase 180 metros de altura. Desabitada e de difícil acesso, recebeu em 2022 seu primeiro acampamento científico com pernoite. Foto: Marinha do Brasil/Divulgação.

Martin Vaz tem aproximadamente 500 metros de extensão e elevações próximas de 180 metros. O relevo vulcânico, a vegetação rasteira e a inexistência de instalações permanentes impõem dificuldades até para movimentar suprimentos. Sem porto ou pista de pouso convencional, desembarcar materiais exigia planejamento e adaptação às condições do tempo.

Os Fuzileiros Navais empregaram técnicas de montanhismo para apoiar o transporte dos equipamentos e a montagem das barracas. O trabalho exigiu coordenação entre as equipes em terra, a aeronave e o navio que permanecia na região.

Navio transportou 117 pessoas e funcionou como base de apoio

O Navio Hidroceanográfico Faroleiro Almirante Graça Aranha (H-34), comandado pelo capitão de fragata Marcelo de Abreu Souza, foi o principal meio de apoio à expedição, que durou 31 dias.

A embarcação contava com laboratórios, enfermaria, oficinas, hangar e convés de voo. Ao todo, 117 pessoas participaram da viagem, entre militares e pesquisadores. Esse número corresponde aos embarcados na expedição, não aos integrantes que passaram a noite em Martin Vaz. A estrutura do navio possibilitou manter assistência, alimentação e apoio técnico enquanto os trabalhos avançavam longe do continente.

Capitão-tenente se tornou a primeira oficial a pernoitar na ilha

A capitão-tenente Juliana Carvalho ficou responsável pelo acampamento. Segundo o Informativo da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, ela foi a primeira oficial da Marinha a pernoitar em Martin Vaz.

Durante a permanência, além de coordenar atividades de apoio às pesquisas, a oficial participou da substituição da Bandeira Nacional. O gesto integrou as ações de presença institucional brasileira na região.

Cientistas recolheram 52 quilos de rochas e estudaram a fauna

Pesquisador observa uma ave marinha em ambiente costeiro. Durante a expedição a Martin Vaz, em 2022, cientistas realizaram estudos sobre aves, incluindo monitoramento, anilhamento e instalação de armadilhas fotográficas. Foto: crédito a confirmar.
Pesquisador observa uma ave marinha em ambiente costeiro. Durante a expedição a Martin Vaz, em 2022, cientistas realizaram estudos sobre aves, incluindo monitoramento, anilhamento e instalação de armadilhas fotográficas. Foto: crédito a confirmar.

Um dos resultados da missão foi a coleta de 52 quilos de rochas destinadas a análises em oito instituições de ensino superior. O pesquisador Lucas Guimarães Pereira Monteiro, da UERJ, identificou na base da ilha uma formação vulcânica ainda não mapeada. As amostras ajudariam a investigar a origem e a evolução geológica dessa parte da cadeia Vitória-Trindade.

O trabalho também envolveu observação, medição, anilhamento e soltura de aves marinhas, incluindo atobás-mascarados, trinta-réis-das-rocas e fragatas-grandes. Duas armadilhas fotográficas foram instaladas para acompanhar a fauna após a saída da equipe.

Durante a navegação, pesquisadores realizaram ainda 48 lançamentos de sensores XBT, usados para medir a temperatura da água e estudar características da circulação oceânica. Esses lançamentos ocorreram no mar, não dentro do acampamento.

Marinha instalou marco geodésico e reforçou presença brasileira

A expedição estabeleceu um marco geodésico para aumentar a precisão das referências cartográficas da ilha. A medida poderia contribuir para futuros levantamentos científicos e para a produção de informações náuticas, após os procedimentos necessários de homologação.

A instalação do acampamento, entretanto, não significou a criação de uma base militar permanente. Tampouco foi o primeiro desembarque de brasileiros em Martin Vaz: documentos da Marinha registram uma missão de hasteamento da bandeira em 1962.

Novas expedições deram continuidade ao trabalho científico

A operação de março abriu caminho para visitas posteriores. Em julho de 2022, militares e pesquisadores retornaram para recolher dados das armadilhas fotográficas, ampliar coletas geológicas e substituir novamente a Bandeira Nacional.

Localizada na extremidade oriental do território brasileiro, Martin Vaz possui importância científica, ambiental e estratégica. A missão mostrou como a combinação de navio, helicóptero e Fuzileiros Navais tornou possível realizar pesquisas em um dos pontos de acesso mais difíceis do país. Embora relevante para a presença do Brasil no Atlântico Sul, a operação não alterou por si só os limites marítimos nacionais.

guest
0 Comentários