A Marinha americana pôs 64 pais entre os primeiros a desembarcar; em agosto, um oficial da fragata Independência conheceu o filho no cais do Rio depois de 84 dias no Atlântico Norte.
O chefe técnico de criptologia Cory Storun desceu do porta-aviões USS Abraham Lincoln na quinta-feira, 8 de outubro, e pegou no colo pela primeira vez o bebê que nasceu enquanto ele estava no mar. A cena, registrada pela Marinha dos EUA no cais da Estação Aeronaval de North Island, em San Diego, se repetiu com 64 pais que, segundo a Marinha, citada pela agência Associated Press, estavam entre os primeiros a desembarcar para conhecer os filhos.
O navio voltava de 322 dias longe de casa, contando o dia da partida e o da chegada, com a guerra contra o Irã no meio do caminho. Em agosto, no cais da Base Naval do Rio de Janeiro, o capitão de corveta Eduardo Paollielo Alves viveu o mesmo momento ao desembarcar da fragata Independência, depois de 84 dias no Atlântico Norte, e conhecer o filho Atlas, segundo a Agência Marinha de Notícias.
Receba nossas notícias independente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
Flores, balões e sinos no píer de Coronado
Centenas de parentes esperaram horas ao sol até o porta-aviões atracar, pouco antes do meio-dia, segundo o Stars and Stripes. A Associated Press descreveu famílias com flores, balões e sinos de vaca, enquanto marinheiros pulavam e acenavam do convés de voo ao passar diante do centro de San Diego.
McKenzie Adkins segurava o filho Declan, de dez semanas, e acenava para o marido, Alexander, ainda no convés, contou a CBS News, e logo depois o pai conheceu o menino. Kathy Monterrosa, de Virginia Beach, levou a filha Sarahi, de seis meses, num vestidinho azul e branco de marinheiro, e a chamou de “nosso bebê da missão”, segundo a AP.
Partiu para o Pacífico e acabou na guerra
O Lincoln deixou San Diego em 21 de novembro de 2025 para o que seria uma missão de rotina no Pacífico, segundo a AP, e foi desviado para o Oriente Médio. A nota oficial da Marinha dos EUA, publicada em 9 de outubro, fala em 321 dias desde que o navio soltou as amarras, enquanto a AP e o Stars and Stripes chegam a 322 contando o dia da volta.
No caminho, o porta-aviões atravessou os estreitos de San Bernardino, de Surigao e de Malaca e passou pelo Mar do Sul da China, pelo Oceano Índico e pelo norte do Mar Arábico, diz a Marinha. Chegou à área do Comando Central americano no fim de janeiro, e os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã começaram em 28 de fevereiro, segundo a AP.
Quase 4 mil surtidas em 40 dias de combate
Como capitânia do Carrier Strike Group 3, o grupo de ataque do porta-aviões, o Lincoln liderou a participação da Marinha americana na Operação Epic Fury na costa sul do Irã, à frente da Força-Tarefa 50. Foram 40 dias de grandes operações de combate e quase 4 mil surtidas de combate da Ala Aérea Embarcada 9, segundo a nota.
As unidades da força-tarefa destruíram mais de 100 ataques iranianos com drones, mísseis e pequenas embarcações, diz a Marinha. Os aviões da ala, entre eles os caças Super Hornet, lançaram mais de 1,5 milhão de libras de munição, cerca de 680 toneladas, sobre milhares de alvos.
Para o comandante do navio, capitão de mar e guerra Dan Keeler, a tripulação está “literalmente reescrevendo o manual do que um porta-aviões é capaz de fazer”. Ele citou, na nota, as operações de combate, dois bloqueios navais e um ritmo de operação “sem precedentes” por muito tempo.
Dois bloqueios contra o petróleo do Irã
Depois do cessar-fogo de 8 de abril entre EUA e Irã, o grupo passou a impor um bloqueio marítimo a navios de bandeira iraniana no norte do Mar Arábico e no Golfo de Omã. Segundo a Marinha, o cerco impediu a saída de petróleo e de material iraniano.
Em julho, depois de ataques do Irã a navios mercantes no Estreito de Ormuz, aviões do Lincoln apoiaram bombardeios contra defesas costeiras e locais de armazenamento e lançamento de mísseis de cruzeiro. O grupo reforçou então um segundo bloqueio a portos e navios iranianos e só deixou a área do Comando Central em 22 de agosto, rumo a casa.
A menção de Hegseth: 450 Tomahawks e 64 navios afundados
Na quarta-feira, 7 de outubro, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, foi a bordo entregar ao grupo do Lincoln a Menção Presidencial de Unidade, a maior honraria que uma unidade pode receber, “por heroísmo extraordinário contra forças inimigas”. Segundo o texto lido por ele, citado pelo Stars and Stripes, o grupo cumpriu 3.693 missões de combate, lançou 450 mísseis de cruzeiro Tomahawk, derrubou 77 drones de ataque e afundou 64 navios de guerra iranianos.
A AP acrescenta 21 mísseis de cruzeiro antinavio destruídos. O Lincoln é o segundo porta-aviões enviado ao Oriente Médio nesta guerra a receber a menção depois de uma missão longa, informa a agência, e o primeiro foi o USS Gerald R. Ford, que voltou em maio após 326 dias.
Comida racionada e oito tentativas de suicídio
A volta chegou depois de semanas de relatos sobre piora nas condições a bordo e refeições racionadas, segundo a AP. O secretário interino da Marinha, Hung Cao, admitiu que as opções de refeição foram reduzidas por um curto período, porque o combate limitou o reabastecimento.
Em carta à senadora Kirsten Gillibrand, Cao informou que oito marinheiros do grupo tentaram suicídio durante a missão, segundo o Stars and Stripes. Hegseth rebateu as tentativas de transformar o Lincoln em “símbolo de disfunção ou de moral baixa”, e Keeler disse ao jornal que “cada marinheiro e fuzileiro que partiu nesta missão está voltando para casa”.
93 mil milhas náuticas e 286 dias sem escala
O porta-aviões navegou mais de 93 mil milhas náuticas, cerca de 172 mil quilômetros, fez 72 reabastecimentos no mar e recebeu mais de 20,5 milhões de galões de combustível de aviação, perto de 77,6 milhões de litros, segundo a Marinha. A tripulação apoiou mais de 13 mil surtidas e 28,5 mil horas de voo da ala aérea em toda a missão.
As paradas foram rápidas, de uma noite, para suprimentos em Guam, em dezembro de 2025 e em setembro de 2026, e em Duqm, em Omã, em julho. A Marinha diz que os 208 dias seguidos no mar entre Guam e Omã e os 286 dias seguidos entre a saída de San Diego e a chegada à Tailândia são recordes para porta-aviões modernos.
A primeira escala com folga foi em Pattaya, de 2 a 6 de setembro, quando a ferrugem no casco do porta-aviões ficou à vista. O grupo de ataque reúne cerca de 5 mil marinheiros e fuzileiros, nas contas de Keeler, e inclui os contratorpedeiros Frank E. Petersen Jr., Spruance e Michael Murphy.
No Brasil, 84 dias e um bebê chamado Atlas
A fragata Independência voltou ao Rio no sábado, 8 de agosto, véspera do Dia dos Pais, com mais de 260 militares, segundo a Agência Marinha de Notícias. O navio participou da FLEETEX 250, exercício iniciado em 16 de maio com mais de 20 marinhas na costa leste americana, e da International Naval Review 250, no Rio Hudson, entre Nova York e Nova Jersey.
“É a primeira vez que vou ver o meu filho”, disse o capitão de corveta Paollielo Alves à agência da Força. “Acabamos de cumprir nossa missão enquanto a minha esposa cumpria a missão da família em terra”, completou.
No mesmo cais, Heitor, de oito anos, esperava o pai, o terceiro-sargento Nelson Pinheiro dos Santos Junior, com um cartaz: “Papai, eu te amo! Você é o meu melhor amigo”. O comandante do navio, capitão de fragata Nícolas Pflueger Raynal Lira, disse que a tripulação voltou satisfeita “em devolver esses homens e mulheres do mar às suas famílias”.
Dez meses de espera para Brent Ledbetter
Entre os 64 pais do Lincoln estava o marinheiro Brent Ledbetter, que ia conhecer o filho de dez meses, segundo a NBC News. “Eu só quero segurá-lo no colo”, disse ele à emissora, a bordo, antes de o navio atracar.
Pela idade informada pela NBC, o menino nasceu nas primeiras semanas da missão, quando o Lincoln ainda seguia para o que seria uma rotina no Pacífico. Ele tinha dez meses quando o porta-aviões, que partiu para treinar e voltou de uma guerra, encostou no cais de San Diego.