De um lado, café, rapadura, bebidas lácteas, purificador de água e um pequeno fogareiro dobrável. Do outro, borsch com carne, mingaus salgados, chocolate, frutas secas e um sistema capaz de aquecer a refeição sem produzir chama. Brasil e Ucrânia precisam resolver o mesmo problema, alimentar um militar longe de qualquer cozinha, mas chegaram a soluções diferentes para manter a tropa em operação.
A comparação ganhou ainda mais curiosidade depois que vídeos mostrando as rações utilizadas pelos militares ucranianos começaram a circular na internet. O pacote parece simples quando fechado, mas por dentro existe uma pequena operação logística pensada para um soldado conseguir passar o dia sem depender de restaurante, cozinha de campanha ou refrigeração.
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No Brasil, essa estrutura acaba de passar por uma atualização importante. Desde 2026, as Forças Armadas seguem novos requisitos técnicos para as chamadas Rações Operacionais Individuais, divididas em versões para seis, 12 e 24 horas.
A maior delas, a RO-24, precisa sustentar o militar por um dia inteiro e é organizada em quatro refeições: desjejum, almoço, jantar e ceia.
Rapadura, café e um fogareiro dentro da embalagem
A norma brasileira não determina mais um único cardápio nacional. Exército, Marinha e Força Aérea podem definir suas próprias combinações, desde que respeitem os requisitos nutricionais e operacionais estabelecidos pelo Ministério da Defesa.
Para uma missão rotineira, treinamento, operação de paz ou emprego em calamidade, a RO-24 tem 3.600 calorias como valor de referência, com margem de variação de 10%. Em operações especializadas, a necessidade pode chegar a 4.900 calorias por dia, completadas com rações específicas ou alimentos adicionais.
As refeições principais utilizam alimentos já cozidos, esterilizados e embalados em bolsas resistentes do tipo retort pouch. Eles precisam continuar próprios para consumo mesmo sem aquecimento, justamente porque nem sempre o militar poderá parar para preparar a comida.
É nos complementos que aparecem alguns itens bastante familiares ao brasileiro.
A lista prevista pelo Ministério da Defesa permite café, café com leite, cappuccino, bebidas lácteas, refrescos, mel, biscoitos, torradas, geleias, barras de cereais e proteínas, frutas liofilizadas e até rapadura.
Mas comida é apenas parte do pacote.
A ração brasileira também deve levar purificador de água, talheres, repositor hidroeletrolítico, fósforos e um kit de aquecimento.
O sistema padrão utiliza um pequeno fogareiro dobrável com pastilhas de álcool sólido. Na RO-24 são previstas quatro pastilhas, suficientes para elevar os alimentos e bebidas quentes à temperatura adequada. Aquecedores químicos também podem ser utilizados pelas Forças como alternativa.
Ou seja, o soldado carrega não apenas aquilo que vai comer, mas parte da estrutura necessária para tornar aquela refeição utilizável longe de qualquer cozinha.
Na Ucrânia, a guerra criou uma segunda ração
A realidade ucraniana acrescentou outra camada ao problema.
As Forças Armadas da Ucrânia trabalham atualmente com dois tipos principais de ração de campo para um dia inteiro: uma versão padrão e outra reforçada para condições operacionais mais exigentes.
A ração normal entrega três refeições e cerca de 3.500 calorias.
O cardápio tem uma identidade bem diferente da brasileira. Entre os pratos aparecem borscht com carne, sopas, mingaus ou papas de cereais com carne, legumes com carne, biscoitos duros militares e pão seco.
Há ainda café solúvel, chá, açúcar, mel, geleia, sal e pimenta.
Tudo foi pensado para durar e ser transportado em condições de campanha. Assim como no Brasil, os pratos principais ficam em embalagens retort, que dispensam refrigeração e podem ser consumidas prontas.
A diferença fica mais evidente quando se abre a chamada ração reforçada.
Ela foi criada justamente para militares submetidos a maior esforço físico, separados da unidade principal ou empregados diretamente em missões de combate em áreas ativas.
Chocolate e comida quente sem acender fogo
Na versão reforçada, o valor energético sobe para cerca de 4.100 calorias.
O café da manhã recebe frutas secas ou damascos, uma barra de chocolate e chiclete. No jantar entra também uma porção adicional de carne pronta para consumo, além de café e açúcar.
Mas talvez a diferença mais interessante esteja no aquecimento.
Enquanto o conjunto brasileiro prevê um fogareiro e combustível sólido, a ração reforçada ucraniana utiliza aquecedores sem chama.
O militar coloca a refeição dentro do sistema e inicia uma reação que produz calor sem precisar acender fogo. Isso permite esquentar a comida mesmo em locais onde uma chama aberta seria impraticável ou indesejável.
Não é simplesmente uma questão de conforto. Em uma guerra marcada por drones, sensores e longos períodos em posições avançadas, cada item carregado precisa funcionar com o mínimo possível de infraestrutura.
A Ucrânia colocou aquecedores desse tipo no café da manhã, almoço e jantar da ração reforçada.
Brasil tem quatro refeições, Ucrânia trabalha com três
Os dois modelos mostram diferenças interessantes.
O padrão brasileiro de 24 horas divide a alimentação em quatro momentos, incluindo uma ceia. Já a ração de campo ucraniana trabalha com café da manhã, almoço e jantar.
Em calorias, eles acabam ficando próximos nas versões convencionais: 3.600 kcal como referência no Brasil e 3.500 kcal na Ucrânia.
Quando as condições ficam mais duras, os dois países também admitem aumentar a energia fornecida. A Ucrânia criou a versão reforçada de 4.100 kcal, enquanto a norma brasileira prevê que operações especializadas possam exigir até 4.900 kcal diárias.
Há ainda uma semelhança menos visível: os dois sistemas precisam transformar comida comum em algo capaz de sobreviver a transporte, armazenamento prolongado e dias longe de qualquer estrutura de apoio.
Por isso aparecem embalagens esterilizadas, refeições prontas, alimentos compactos e acessórios que normalmente nunca seriam necessários em uma mesa de casa.
A própria tropa passou a avaliar a comida
A guerra também fez a Ucrânia acelerar mudanças que vão além do cardápio.
Desde o fim de 2025, as embalagens das rações passaram a receber QR Codes para que os próprios militares avaliem pratos, embalagem e composição. O governo também abriu espaço para versões halal e kosher e começou a ampliar a compra das rações reforçadas.
Em 2025, o Ministério da Defesa ucraniano chegou a administrar contratos para quase 1,6 milhão de rações padrão, além de processos para centenas de milhares de unidades reforçadas.
O sistema continua mudando em plena guerra. Em agosto de 2026, o Ministério da Defesa anunciou uma nova etapa da reforma do abastecimento alimentar das Forças Armadas, com controle dos produtos antes da entrega e separação entre a compra da comida e a contratação da logística.