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Pentágono proíbe militares de usar informação de operações para apostar no Polymarket e no Kalshi depois que um sargento foi acusado de ganhar quase US$ 410 mil com a captura de Maduro

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 22/10/2026 às 21:04
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Pentágono proíbe militares de usar informação de operações para apostar no Polymarket e no Kalshi depois que um sargento foi acusado de ganhar quase US$ 410 mil com a captura de Maduro
Donald Trump em entrevista coletiva em Mar-a-Lago, na Flórida, depois da Operação Absolute Resolve, em 3 de janeiro de 2026. Foto: Molly Riley, Casa Branca, Wikimedia Commons, domínio público.

Memorando de Hegseth de 20 de outubro diz que “nossos inimigos observam” esses mercados e prevê punição pelo Código Uniforme de Justiça Militar. No Brasil, a MP 1.394/2026 não menciona mercados de previsão.

O secretário Pete Hegseth, que chefia o Pentágono, assinou em 20 de outubro um memorando de uma página que proíbe militares e civis do Departamento de usar informação não pública do governo para apostar, com o Polymarket e o Kalshi citados pelo nome. O texto foi obtido pela DefenseScoop e pela CBS e revelado na quinta-feira (22), seis meses depois de a Justiça americana acusar o sargento-mestre do Exército Gannon Ken Van Dyke de lucrar cerca de US$ 409,9 mil com apostas na captura de Nicolás Maduro.

Pela acusação formal da Promotoria Federal de Manhattan, o militar fez 13 compras de cotas entre 27 de dezembro de 2025 e a noite de 2 de janeiro, a última por volta das 21h58. Pouco mais de seis horas depois, Donald Trump anunciou a operação. Ele apostou cerca de US$ 33,9 mil, o equivalente a R$ 171 mil pela PTAX de venda de 22/10/2026 (R$ 5,0383), e se declarou inocente.

Uma página endereçada aos comandantes

Segundo a DefenseScoop, o memorando foi enviado à cúpula do Pentágono, aos comandantes combatentes e aos diretores das agências de Defesa. Um funcionário confirmou ao site a autenticidade do documento, que não foi publicado na íntegra nem no site oficial do Departamento.

A regra vale tanto para casas de apostas tradicionais quanto para os mercados de previsão, plataformas em que o usuário compra cotas de “sim” ou “não” sobre um acontecimento futuro. “A proibição se aplica quer a transação seja informada por informação sigilosa ou não sigilosa”, diz o texto, segundo a DefenseScoop.

Quem descumprir pode responder com medidas administrativas, disciplinares ou criminais, pelo Código Uniforme de Justiça Militar (UCMJ) ou pela lei federal, de acordo com a DefenseScoop e a CBS. A inclusão de terceirizados não aparece nos dois veículos e só foi noticiada pelo site Prediction News.

“Nossos inimigos observam os movimentos nesses mercados”

“Não se enganem sobre por que isso importa. Nossos inimigos observam os movimentos nesses mercados”, escreveu Hegseth, segundo a DefenseScoop e a CBS. Pela CBS, o memorando diz que serviços de inteligência estrangeiros podem analisar as apostas para antecipar movimentos, alvos e horários de operações.

O secretário também argumenta que dinheiro em jogo distorce o julgamento de quem planeja. “Um militar da logística com dinheiro apostado na data de um ataque tem interesse nessa data. Um analista com posição sobre um resultado tem interesse nesse resultado”, diz o trecho citado pela DefenseScoop, que chama a prática de “diluição do ethos guerreiro”.

Seis horas entre a última aposta e o anúncio

A acusação formal descreve o caminho do sargento. Em 26 de dezembro de 2025, ele criou uma conta no Polymarket e passou a acessar a plataforma por uma rede privada virtual (VPN) com saída num país estrangeiro, o que escondia a localização dele.

No dia seguinte começaram as compras. Os contratos perguntavam se Maduro estaria fora do poder até 31 de janeiro, se haveria forças americanas na Venezuela, se os EUA invadiriam o país e se Trump invocaria poderes de guerra. Cada cota pagaria US$ 1 se a resposta fosse “sim”, e as do contrato sobre a saída de Maduro custaram em média cerca de US$ 0,074, segundo a CFTC.

Na madrugada de 3 de janeiro, forças especiais americanas capturaram Maduro e a mulher, Cilia Flores, numa residência em Caracas, segundo o documento. Trump anunciou a operação numa rede social às 4h21 (horário de Washington), e o preço da cota saltou de US$ 0,375 para US$ 0,955 em quatro minutos, registra a ação civil da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC).

O acordo de sigilo assinado em 8 de dezembro

Van Dyke está no Exército desde 2008 e é sargento-mestre das Forças Especiais desde pelo menos 2023, lotado em Fort Bragg, na Carolina do Norte, diz a acusação. Em 8 de dezembro de 2025, assinou um termo de sigilo sobre operações no Hemisfério Ocidental e prometeu “nunca divulgar, publicar ou revelar” informação sigilosa ou sensível sobre elas.

Segundo a Promotoria, ele participou do planejamento e da execução da Operação Absolute Resolve de 8 de dezembro a 5 de janeiro. Em novembro, já tinha salvo na conta do Google a captura de tela de uma consulta a uma inteligência artificial que dizia haver nas Forças Especiais “numerosos arquivos sigilosos”.

Do cofre de criptomoedas para a conta na corretora

Com os contratos resolvidos a favor do “sim”, a acusação calcula o lucro em cerca de US$ 409.881, aproximadamente R$ 2,07 milhões pela mesma PTAX. Ainda em 3 de janeiro, o sargento mandou 437.859 unidades da criptomoeda USDC.e, atrelada ao dólar, para um “cofre” estrangeiro que paga juros a depositantes.

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Em 16 de janeiro, cerca de US$ 444.209 voltaram para uma corretora de criptomoedas e dali para uma conta de investimentos recém-aberta. Em 21 de abril, essa conta tinha saldo de cerca de US$ 415.511, ligado às apostas, segundo a Promotoria.

Em 6 de janeiro, quando a imprensa e as redes já falavam em negociação incomum, ele pediu ao Polymarket que apagasse a conta, alegando ter perdido o acesso ao e-mail. A acusação diz que a alegação era falsa e que, no mesmo dia, ele trocou o e-mail da corretora por um endereço que não estava em seu nome.

Cinco acusações e uma ação civil paralela

Segundo o Departamento de Justiça, são cinco acusações: três pela lei de commodities (Commodity Exchange Act), uma por fraude eletrônica e uma por transação monetária ilegal. Ele se declarou inocente na Justiça Federal em Nova York e responde em liberdade sob fiança, informou a DefenseScoop.

A CFTC abriu processo civil no mesmo 23 de abril e calcula o lucro só no contrato sobre a saída de Maduro em mais de US$ 404 mil, com custo de cerca de US$ 32.538. A ação registra que o perfil usava o apelido “Burdensome-Mix” e que, antes do Polymarket, o militar tentou sem sucesso abrir conta numa bolsa regulada nos EUA no fim de dezembro.

Mais de 150 carteiras sob suspeita

O caso não é isolado. Em agosto, pesquisa da organização Anti-Corruption Data Collective citada pela CNN apontou mais de 150 carteiras do Polymarket que podem ter negociado com informação militar privilegiada, segundo a DefenseScoop. No mesmo mês, a Reuters informou, segundo o site, que o Polymarket encaminhou “dezenas” de possíveis casos ao Departamento de Justiça.

A mesma Promotoria de Manhattan já acusou, em maio, um engenheiro do Google de usar dados internos da lista anual de buscas da empresa para apostar no Polymarket. O lucro foi de cerca de US$ 1,2 milhão (R$ 6,05 milhões), segundo a queixa-crime assinada por um agente do FBI.

No Brasil, a Medida Provisória 1.394/2026, de 25 de setembro, proíbe a exploração das apostas de quota fixa, as bets. O texto não menciona mercados de previsão.

Uma data de ataque, um sargento e US$ 33,9 mil em cotas

A frase de Hegseth sobre o militar da logística com dinheiro na data de um ataque descreve, sem citar nomes, o que a Promotoria atribui ao sargento: quem ajudou a planejar a operação comprou cotas que só pagariam se ela desse certo até 31 de janeiro. O caso ainda não foi julgado, e Van Dyke nega as acusações.

Até o memorando de 20 de outubro, a acusação contra ele se apoiava em leis de commodities e de fraude, não em uma regra do Pentágono sobre apostas. Agora quem estiver na cadeia de planejamento de uma operação também responde ao próprio comando se apostar no resultado.

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