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Pilotos que bebem menos água para não urinar em voo perdem até 50% da tolerância à força G, diz edital da Força Aérea dos EUA

Letícia Araújo
Por Letícia Araújo 13/10/2026 às 14:44
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Pilotos que bebem menos água para não urinar em voo perdem até 50% da tolerância à força G, diz edital da Força Aérea dos EUA
Helicópteros AH-64 Apache do Exército dos EUA, em 2013. Foto: Sgt. 1st Class Andrew Kosterman, Exército dos EUA, Wikimedia Commons, domínio público.

O número está num edital, não num estudo; o Exército dos EUA testou em Apache, Black Hawk e Chinook o coletor que tenta acabar com a desidratação tática.

O piloto que bebe menos água antes de decolar para não precisar urinar no voo pode perder até 50% da tolerância à força G, afirma a Força Aérea dos EUA no edital do Sky High Relief Challenge, aberto em agosto de 2020. A conta voltou à mesa nesta semana porque o Exército dos EUA fez, de 5 a 7 de outubro, os primeiros voos de helicóptero com um coletor de urina portátil, o AIRUS.

Os 50% não saem de uma pesquisa publicada. O edital não cita estudo, e a literatura médica mostra perdas reais, mas medidas em grupos pequenos e em condições diferentes das de um voo de combate.

Por que o piloto bebe menos

A prática tem nome entre os aviadores: desidratação tática. “Tivemos pilotos que nos disseram que se desidratam taticamente”, contou a capitã Gena Baisa, nutricionista-chefe do programa de saúde da 101ª Brigada de Aviação de Combate, segundo o Exército dos EUA. Foi por isso que a equipe dela foi atrás de um sistema que deixasse o piloto ir ao banheiro no ar.

O edital da Força Aérea descreve o mesmo problema com outro foco, as mulheres. Missões com reabastecimento em voo chegam a 16 horas, e muitas aeronavegantes recorrem à desidratação tática para evitar o incômodo e o risco de urinar na cabine, diz o documento, reproduzido pelo site The War Zone. O texto pede um sistema que dê conta de até 3,9 litros em 16 horas sem que a tripulante solte os cintos ou tire o equipamento.

Como se urina num caça ou helicóptero

A solução mais antiga é a piddle pack, uma bolsa plástica com material absorvente dentro, descreve o The War Zone. Na prática, o piloto abre o macacão de voo e urina direto no saco, explica o Task & Purpose, o que é bem mais difícil para as mulheres, que muitas vezes têm de mudar de posição no assento.

Num caça, mudar de posição tem custo. Os sistemas existentes podiam obrigar o piloto a soltar o cinto de segurança, registrou a Força Aérea, segundo o site norueguês ABC Nyheter. O chief warrant officer Collin McAllister, piloto de Apache do Exército dos EUA, resume a diferença: os sistemas anteriores “eram só bolsas com coagulante dentro”, disse ao Exército.

Três dias de teste em Fort Campbell

Os voos aconteceram em Fort Campbell, no Kentucky, com três batalhões da 101ª Brigada: o de ataque, que voa o AH-64 Apache, o de assalto, com o UH-60 Black Hawk, e o de carga pesada, com o CH-47 Chinook. Foi o primeiro teste do AIRUS em helicópteros e com o Exército, informou a corporação em 8 de outubro.

As tripulações responderam a questionários de fatores humanos, testaram o encaixe e o uso em voo. Também passaram por testes de saída da aeronave com o equipamento, com voluntários do 5º ao 95º percentil de tamanho corporal, para ver se pessoas de corpos muito diferentes entram e saem com segurança.

“Testamos para integrar o sistema ao Apache, ao Black Hawk e ao Chinook”, disse Colt Seman, fundador e presidente da Airion, a empresa que fabrica o AIRUS. Para ele, o aparelho é o que pode acabar com a desidratação tática.

O que muda com o coletor

O AIRUS funciona assim: uma peça acolchoada, presa a uma roupa íntima ajustada, recebe a urina, e uma bomba a leva para uma bolsa de coleta, descreve o ABC Nyheter a partir do teste em solo feito pela Força Aérea em 2023, com foco nas pilotas. A Airion diz que o sistema está aprovado para todas as aeronaves da Força Aérea dos EUA, segundo o Exército.

Não é a primeira tentativa. Em dezembro de 2021, a Força Aérea começou a receber o Skydrate, da Omni Defense Technologies, com um copo para homens e uma almofada para mulheres ligados por tubo a uma bomba a bateria, relatou o Task & Purpose. A promessa era que as tripulações tivessem acesso ao aparelho na primavera de 2022.

McAllister vê uso direto no dia a dia do Apache. Para ele, o coletor ajuda quando o helicóptero precisa ficar mais tempo no ar para apoiar a tropa no solo, contou ao Exército.

De onde vêm os 50%

A frase do edital é direta: em voo, a desidratação prejudica os pilotos “ao reduzir a tolerância à força G em até 50%”. O documento lista ainda dor de cabeça forte, alteração da visão, queda do desempenho físico e mental e risco de perda de consciência, mas não indica de qual pesquisa tirou o número, aponta o The War Zone.

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A literatura tem um teste parecido. Em 1979, Sarah Nunneley e Robert Stribley desidrataram sete homens em 0%, 1% e 3% do peso corporal antes de sessões numa centrífuga, publicou o Journal of Applied Physiology. Quatro deles, que aguentavam 7 G por 60 segundos com traje anti-G, passaram a resistir em média 35 segundos com 3% de desidratação.

A queda foi de cerca de 40% no tempo sob carga, mas num grupo de quatro pessoas. Para o piloto de caça, a desidratação reduz a tolerância à força G e aumenta a ameaça de desmaio em voo, resume uma revisão feita por pesquisadores da Universidade da Força Aérea.

Quanto líquido o piloto perde no voo

Muitos já decolam secos. Um estudo francês de 2019, de Brescon e colegas, mediu desidratação antes do voo em 52% dos pilotos de caça, e um israelense de 2018, de Levkovsky e colegas, chegou a 58%, segundo a revisão brasileira.

No estudo israelense, publicado na Aerospace Medicine and Human Performance, os pilotos de caça perderam até 692 ml por hora de voo, a maior taxa. Os de Black Hawk perderam mais líquido por voo, porque ficavam mais tempo no ar.

O mesmo trabalho francês comparou pilotos com e sem uma bainha urinária. Quem podia urinar bebeu e comeu mais durante o voo, e sem o equipamento a desidratação pode passar de 2%, o limite a partir do qual o desempenho físico e cognitivo cai, de acordo com a revisão.

Como é no Brasil

A revisão foi publicada em 2025 na Revista Interdisciplinar de Promoção da Saúde por Esther Oliveira Xavier de Brito, Fabrícia Geralda Ferreira e Fábio Angioluci Diniz Campos, da Universidade da Força Aérea, da Escola Preparatória de Cadetes do Ar e da Academia da Força Aérea. Os autores partiram de 5.830 estudos e ficaram com cinco que mediam a desidratação de pilotos militares em voo.

Um deles é brasileiro: Oliveira-Silva e Boullosa acompanharam, em 2015, 11 pilotos de caça em voos reais, com exame de sangue antes e depois. A revisão afirma que limitar a água antes e durante o voo para não urinar é prática frequente e que há poucos trabalhos sobre quanto líquido os pilotos da FAB e de outras forças perdem no ar.

O artigo é científico e não é norma da Aeronáutica. No portal da FAB não aparece orientação pública sobre hidratação de pilotos ou sobre coletores de urina em voo.

Próximo passo: o parecer de Redstone

Representantes do Arsenal de Redstone, no Alabama, acompanharam os voos e vão dar recomendações sobre o uso do AIRUS em voo, informou o Exército. O ABC Nyheter ressalta que se trata de um teste, e não de um anúncio de que todos os helicópteros vão receber o equipamento.

O Exército liga o coletor a missões cada vez mais longas, como os assaltos aéreos de grande escala e longo alcance e o futuro MV-75 Cheyenne II. A corporação não deu data para o parecer, e até lá o piloto de Apache segue voando com a bolsa e a água contada.

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