Antes de voarem a até Mach 2 (até 2,4 mil km/h) em um dos caças mais avançados do mundo, a trajetória dos pilotos brasileiros que operam a frota de F-39 Gripen da Força Aérea Brasileira (FAB) passa por uma formação exigente em diversas etapas, mas que começa nos exercícios mais elementares da aviação, incluindo o voo no T-25 Universal, avião que começou a voar em 1966 e ainda hoje marca o início da instrução de pilotos de caça da FAB.
O Neiva T-25 Universal é o primeiro avião de instrução pilotado pelos cadetes da FAB na Academia da Força Aérea (AFA), em Pirassununga (SP), durante o curso de formação. Com 60 anos de maturidade nos céus, o projeto da aeronave é brasileiro e foi desenvolvido pensando especificamente nas necessidades de formação de pilotos militares.
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O T-25 foi produzido pela Indústria Aeronáutica Neiva anos 1960, e é utilizado no Curso de Formação de Oficiais Aviadores, no qual os cadetes realizam o Estágio Básico de Instrução Aérea, e segue até hoje como peça fundamental na instrução de Oficiais Aviadores e futuros pilotos do F-39 Gripen, F-5, T-27 Tucano e A-29 Super Tucano, principais aeronaves de caça da FAB.
Operando na FAB desde 1971 e na AFA desde 1979, a aeronave também integrou, nos anos 1980, a Esquadrilha da Fumaça. É uma aeronave leve, com peso máximo de decolagem de 1.700kg, e velocidade máxima de 440km/h.
Por sua versatilidade, foi utilizado na formação de todos os pilotos atualmente na ativa na FAB, passando por processos de modernização que resultaram na versão T-25M, incorporando tecnologias que ampliam a segurança, a eficiência e a capacidade de treinamento. A partir de 2024, o avião recebeu novos sistemas elétricos e eletrônicos, melhorias nas comunicações e um painel redesenhado.
Instrução primária da FAB
O candidato que sonha em se tornar piloto da FAB e quer ingressar na AFA enfrenta antes de tudo um processo concorrido e de nível exigente, com provas teóricas, testes físico, psicológico e de saúde. Ele também realiza o Teste de Aptidão para Pilotagem Militar, conhecido como TAPMILO.
Uma vez aprovado, a formação de quatro anos na Academia em regime de internato combina a instrução militar intensiva com disciplinas acadêmicas e o estágio de pilotagem militar, com várias etapas e diferentes aeronaves. Aviadores em formação na AFA cumprem cerca de 35 horas de voo no T-25, durante o segundo ano do curso de formação.

É nesse avião de 60 anos de projeto em que os cadetes aprendem as regras elementares do voo, manobras básicas e primeiras acrobacias. Sua principal função é ensinar o futuro piloto militar a dominar os fundamentos da aviação em um avião monomotor a pistão, com características de voo que exigem precisão, coordenação e disciplina
Antes de voar, o cadete estuda os sistemas, os instrumentos, os procedimentos normais e de emergência e as limitações do avião. Em seguida, realiza voos acompanhado por um instrutor, que orienta e avalia seu desempenho.
Técnicas básicas e voo solo
Depois de dominar a teoria e o conceito do T-25, o aluno da AFA passa para a prática de voo, treinando decolagens, pousos, curvas, subidas, descidas e manutenção de altitude e velocidade. Também aprende a coordenar os comandos e a manter o controle da aeronave em diferentes situações de voo.
Conforme progride, o cadete desenvolve a capacidade de se orientar durante o voo, cumprir rotas planejadas e executar manobras, incluindo acrobacias previstas na instrução.
Um dos marcos mais importantes ocorre quando o cadete demonstra proficiência suficiente para voar sem o instrutor a bordo, após cumprir a preparação e receber a autorização necessária. O primeiro voo solo é um marco na formação de aviadores tanto na aviação militar quanto na civil e marca uma das etapas de avaliação mais importantes da formação.
Evolução para o T-27 Tucano
O segundo estágio da formação de futuros pilotos que almejam chegar ao cockpit de um F-39 Gripen da FAB é baseado em outro ícone da aviação militar nacional: o Embraer T-27 Tucano, que se tornou o principal treinador avançado nas últimas décadas.
O T-27 é um turboélice fabricado no Brasil pela Embraer, equipado com motor Pratt & Whitney PT6A-25C de 750 shp, que leva o avião a velocidades de até 528km/h, um pequeno salto em comparação com o T-25, movido a pistão e que atinge 440km/h.

O Tucano ajuda a familiarizar o cadete com uma aeronave de desempenho superior ao T-25 e com uma cabine mais moderna, que apresenta semelhanças funcionais com a de aviões de caça.
A carga horária de voo aumenta consideravelmente, passando para cerca de 93 horas de voo no T-27, com outras 36 horas adicionais de simulador da aeronave.
O T-25 Universal estabelece os fundamentos da pilotagem; o T-27 permite aprofundá-los e desenvolver competências mais avançadas. A aprovação nessa etapa contribui para preparar o futuro oficial aviador para a especialização nas diferentes aviações operacionais da FAB, mas não significa que ele já esteja qualificado para pilotar um caça operacional como o Gripen ou F-5.
A última etapa de formação dos oficiais aviadores da FAB é o Programa de Especialização Operacional (PESOP), realizada logo após a conclusão da formação na Academia da Força Aérea (AFA).
É nessa etapa que os aviadores são distribuídos entre as especialidades de caça, transporte, asas rotativas (helicópteros) e IVR (Inteligência, Vigilância e Reconhecimento).
Seleção para o Esquadrão Joker
Uma vez concluídas todas as etapas de formação, o piloto da FAB terá sua formação, experiência e desempenho avaliados para determinar se está apto a avançar para a operação de um caça supersônico como o F-39 Gripen.
Entre os fatores considerados estão as notas de voo, o desempenho acadêmico e o perfil psicomotor. A seleção também pode incluir requisitos antropométricos relacionados à segurança e à compatibilidade com a cabine e o assento ejetável da aeronave.
O Esquadrão Joker (2º/5º GAv), sediado na Base Aérea de Natal (BANT-RN), é a unidade da Força Aérea Brasileira responsável por ministrar o Curso de Especialização Operacional na Aviação de Caça (CEO-CA), transformando novos aspirantes em pilotos de combate.
Nessa etapa, o aspirante a piloto de caça passa a pilotar o Embraer A-29 Super Tucano, um avião com conceito desenhado para o combate aéreo, ataque ao solo e reconhecimento. O modelo voou pela primeira vez em 1999 e apresenta interface homem-máquina de última geração, que minimiza a carga de trabalho do piloto, mediante a otimização de todas as missões (interceptação, vigilância, apoio).

Atingindo velocidades máximas de 590km/h, o Super Tucano possui características que o aproximam da aviação de caça a jato porque permite ao piloto treinar procedimentos de combate, tomada de decisão tática e emprego de armamento, competências que vão além da pilotagem ensinada no T-25 Universal e no T-27 nas etapas anteriores.
No Curso de Especialização Operacional na Aviação de Caça, os pilotos praticam o emprego ar-ar, inclusive com tiro contra alvos rebocados, e desenvolvem a coordenação necessária para manobrar e acompanhar um alvo.
O piloto aprende a interpretar informações, acompanhar outras aeronaves, planejar missões e tomar decisões sob pressão, preparando para situações de combate.
A Força Aérea Brasileira emprega em torno de 100 unidades de Super Tucano, em quatro esquadrões de caça, incluindo o 2º/5º GAV Esquadrão Joker, atuando na defesa da Amazônia e diversas outras missões.
Gripen e F-5: barreira final
Após a especialização no A-29 Super Tucano, os pilotos da FAB são encaminhados conforme a destinação definida pela Força. Aqueles selecionados para unidades que operam o Northrop F-5M precisam realizar a adaptação ao caça a jato e cumprir a progressão operacional prevista para essa aeronave.
O F-5M é o caça que compôs a espinha dorsal da defesa aérea brasileira por décadas antes da chegada das primeiras unidades do Saab F-39 Gripen, que vão gradativamente substituir o caça norte-americano, que teve as primeiras unidades adquiridas a partir de 1979.
Atualmente, a FAB emprega o F-5 no 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAVCA) – Esquadrão Jambock, sediado na Base Aérea de Santa Cruz (BASC), no Rio de Janeiro (RJ), e no 1º Esquadrão do 14º Grupo de Aviação (1º/14º GAV) – Esquadrão Pampa: sediado na Base Aérea de Canoas (BACO), em Canoas (RS).
Já as unidades operacionais dos caças F-39 Gripen da FAB estão baseadas na Base Aérea de Anápolis (BAAN), localizada no estado de Goiás. As aeronaves integram o 1º GDA (Primeiro Grupo de Defesa Aérea) – Esquadrão Jaguar, responsável pela defesa do espaço aéreo, incluindo a região de Brasília e o Planalto Central.
O 1º GDA já recebeu dez unidades do F-39 Gripen, incorporados a partir de 2022. O contrato do governo brasileiro com a sueca Saab prevê um lote inicial de 36 aeronaves, sendo 28 do modelo monoposto F-39E e 8 do modelo biposto F-39F.
Em breve, o 1º GDA deve receber a 11ª aeronave, sendo o primeiro caça Gripen E fabricado no Brasil, que realizou em outubro os primeiros voos de testes após sair das instalações da Embraer em Gavião Peixoto (SP).
O salto supersônico
Operar uma aeronave supersônica exige muito mais do que conseguir voar em alta velocidade. O piloto precisa reunir excelente condição de saúde, resistência às forças G, raciocínio rápido, controle emocional e capacidade de tomar decisões complexas em poucos segundos.
O F-5M da FAB pode ultrapassar a velocidade do som, alcançando aproximadamente Mach 1.6 (cerca de 1.900 km/h). Já a bordo do F-39 Gripen, há um salto na capacidade, atingindo até Mach 2 (cerca 2,4 mil km/h).
Durante curvas fechadas e manobras de combate, o piloto pode ser submetido a acelerações de várias vezes a força da gravidade. No Gripen, as manobras podem chegar a aproximadamente 9 G de força. Para uma pessoa de 80 kg, isso representa uma carga equivalente a cerca de 720 kg sobre o corpo, em termos de aceleração.
A força G positiva dificulta a chegada de sangue ao cérebro e pode provocar perda de visão ou até desmaio, conhecido como G-LOC. Por isso, os pilotos treinam técnicas de contração muscular e respiração para manter a consciência.
O piloto que opera o Gripen precisa de resistência muscular, capacidade cardiovascular e coordenação para suportar o esforço das manobras e executar corretamente as técnicas anti-G. O treinamento físico também ajuda a reduzir a fadiga e a manter a precisão dos movimentos durante missões exigentes.
A aptidão psicológica e o comportamento profissional também são avaliados durante a seleção e desenvolvidos ao longo da formação. O piloto deve manter a concentração sob pressão, seguir procedimentos rigorosos e evitar decisões impulsivas.
Uma emergência em voo pode exigir uma resposta correta em segundos, mesmo quando há sobrecarga física e mental.
Gripen biposto vai acelerar a formação
A Força Aérea Brasileira não divulga um número fixo e oficial exato do total de pilotos habilitados no caça F-39 Gripen a cada momento, mas estia-se que mais de 20 pilotos já passaram pelos treinamentos operacionais na Suécia e no Brasil.
A partir de 2026, um novo elemento vai contribuir para a formação e aperfeiçoamento das capacidades dos pilotos do caça supersônico no Brasil: a chegada da primeira unidade do Gripen F, variante do Gripen E com capacidade de dois assentos, realizou o seu primeiro voo com sucesso na Suécia no dia 28 de agosto de 2026, com um piloto da FAB a bordo.

A variante de dois lugares foi desenvolvido em parceria do Brasil com a Suécia, com forte atuação da FAB e da Embraer, para unificar o treinamento operacional e a capacidade de combate em uma única plataforma.
A versão biposto do caça Gripen representa um salto na maturidade operacional do programa da aeronave de combate, acelerando a conversão e treinamento preparatório de pilotos da FAB de maneira significativa em comparação aos prazos convencionais.
Com a chegada da plataforma Gripen, o Brasil passou a operar um dos caças mais modernos do mundo, e vem se destacando no cenário de defesa da América do Sul pela aposta no domínio da cadeia produtiva, a partir da cooperação da Embraer com a Saab, elevando a expertise tecnológica brasileira.
Enquanto países como a Argentina e o Chile apostam no F-16 norte-americano, criando uma dependência tecnológica, o Brasil sai na frente, participando ativamente do desenvolvimento de uma plataforma que traz vantagens diversas, como qualidade tecnológica, autonomia e desenvolvimento da base industrial, elevando a defesa aérea brasileira a um patamar nunca alcançado.