O Brasil comprou um dos maiores navios de guerra de sua história recente, mas existe uma informação fundamental que continua sem confirmação oficial pública: quanto custou a embarcação? O futuro NDM Oiapoque (G350), antigo HMS Bulwark da Marinha britânica, aparece em reportagens como uma aquisição de aproximadamente R$ 145 milhões. O problema é que esse mesmo valor já foi associado à negociação de dois navios, e não apenas de um.
A situação ganhou novos capítulos em outubro de 2026. Enquanto o Ministério da Defesa britânico continua evitando divulgar o preço do contrato, um deputado do Reino Unido voltou a exigir explicações sobre os números envolvidos na venda e o andamento da transferência ao Brasil.
O contraste chama atenção: Londres reconheceu gastos milionários com a embarcação, decidiu retirá-la de serviço e agora afirma que sua venda produzirá retorno financeiro. Mas quanto exatamente será recebido? Até nas respostas oficiais ao Parlamento britânico, esse número continua ausente.
Os R$ 145 milhões divulgados para o navio brasileiro escondem uma dúvida importante
Durante meses, a informação circulou como se estivesse resolvida: o Brasil compraria um gigante naval britânico por aproximadamente 20 milhões de libras, equivalentes a cerca de R$ 145 milhões.
Entretanto, existe um detalhe que muda a interpretação dessa cifra.
As primeiras reportagens de 2025 mencionavam 20 milhões de libras nas negociações envolvendo dois navios britânicos: HMS Albion e HMS Bulwark. Mais tarde, outras publicações passaram a associar o mesmo valor à compra individual do Bulwark.
Ocorre que a Marinha do Brasil assinou, em setembro de 2025, o contrato de aquisição do Bulwark. Já o Albion permaneceu no Reino Unido, sem uma venda definitiva anunciada.
Isso não significa que o Brasil tenha pago menos ou mais que o valor divulgado. Significa que a cifra de R$ 145 milhões não pode ser apresentada como preço contratual comprovado do Oiapoque sem documentação oficial que esclareça seu alcance.
Deputado pediu o preço da venda, mas governo britânico se recusou a divulgar os números
A controvérsia não está restrita a especulações da imprensa.
Em 1º de setembro de 2026, o deputado conservador britânico Ben Obese-Jecty apresentou uma pergunta formal ao Ministério da Defesa.
Ele solicitou duas informações: quanto o Reino Unido gastaria para preparar o HMS Bulwark para transferência e qual seria o preço acordado com o Brasil.
A resposta veio em 14 de setembro, assinada pelo ministro Luke Pollard.
O governo confirmou que a embarcação estava passando por trabalhos de recuperação na Base Naval de Devonport e afirmou que a operação deveria gerar retorno financeiro para o Ministério da Defesa.
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Mas não revelou nem o preço da venda nem os custos dessa preparação, alegando que os dados eram comercialmente sensíveis.
É importante esclarecer: isso não prova irregularidade. Entretanto, impede que o público confira, com base nessas respostas oficiais, os valores efetivamente envolvidos na operação.
Reino Unido gastou £72,1 milhões recuperando navio que agora será entregue ao Brasil

A discussão fica ainda mais interessante quando são examinados os investimentos britânicos na embarcação.
O próprio Ministério da Defesa do Reino Unido confirmou que, entre 2022 e 2024, foram gastos 72,1 milhões de libras em trabalhos de reforma do HMS Bulwark.
Mesmo depois desse investimento, Londres decidiu retirar antecipadamente o navio de serviço, juntamente com seu irmão HMS Albion.
Para os britânicos, a decisão foi apresentada como uma maneira de eliminar custos de manutenção e direcionar recursos para novas capacidades militares.
Em janeiro de 2025, o governo informou que a retirada dos dois navios permitiria economizar aproximadamente 9 milhões de libras por ano em manutenção.
O Brasil, por sua vez, enxergou na embarcação uma oportunidade de ampliar rapidamente sua capacidade naval.
A questão é que um navio pode ser barato para comprar e caro para manter. Os gastos anteriores do Reino Unido não são uma dívida transferida ao Brasil, mas a experiência britânica demonstra a importância dos custos de operação ao longo dos anos.
Deputado também questionou perda contábil de £428 milhões envolvendo os navios britânicos
O valor mais impressionante dessa história aparece nas contas do próprio Ministério da Defesa britânico.
A retirada antecipada do HMS Albion e do HMS Bulwark levou ao registro de uma perda contábil de 428,459 milhões de libras, relacionada ao valor remanescente dos dois navios, obras, peças e materiais associados.
O deputado Ben Obese-Jecty questionou como a venda do Bulwark ao Brasil poderia gerar retorno financeiro diante desse registro.
A resposta oficial de setembro esclareceu que os £428,459 milhões não representam dinheiro perdido diretamente na transação nem o preço de venda das embarcações. Trata-se de uma baixa de valor contábil, que abrange os dois navios.
Portanto, seria incorreto afirmar que o Reino Unido perdeu essa quantia vendendo o Oiapoque ao Brasil.
A controvérsia real está em outra questão: depois de investir recursos expressivos nessas embarcações, quanto o governo britânico conseguirá recuperar com a venda de uma delas?
Em outubro, parlamentar voltou a cobrar explicações e resposta continuou sem apresentar valores
O assunto voltou ao Parlamento em outubro.
Em pergunta apresentada no dia 9, Obese-Jecty pediu que o Ministério da Defesa explicasse como calculava o retorno financeiro líquido esperado com a venda do Bulwark.
A resposta publicada em 20 de outubro informou que o cálculo considera o dinheiro recebido pela venda, descontados os gastos de preparação do navio para a transferência ao Brasil.
Em termos simples, o governo explicou a conta, mas não revelou os números necessários para conferir seu resultado.
No dia seguinte, 21 de outubro, o mesmo deputado apresentou outra pergunta parlamentar, desta vez solicitando informações sobre a situação atual do Bulwark e os avanços para concluir sua venda e transferência.
A resposta estava prevista para 26 de outubro.
O novo questionamento não denuncia fraude nem confirma problemas na entrega. Mas demonstra que o parlamentar continua buscando esclarecimentos sobre uma operação que envolve diretamente a Marinha brasileira.
Enquanto Londres abandona seus antigos navios, Brasil aposta em um deles para reforçar a Esquadra
Existe ainda um contraste estratégico importante.
O governo britânico decidiu abandonar os navios da classe Albion e avançar em projetos de uma nova geração de embarcações anfíbias, com maior integração de drones e sistemas autônomos.
Já o Brasil pretende incorporar uma plataforma que entrou em serviço na Marinha britânica em 2005.
Isso não significa que o Oiapoque seja ultrapassado para as necessidades brasileiras. Com 176 metros de comprimento e deslocamento de aproximadamente 18,5 mil toneladas, ele poderá transportar tropas, veículos, helicópteros e equipamentos pesados.
A embarcação deverá se tornar o segundo maior navio de guerra brasileiro, atrás apenas do Atlântico, também adquirido do Reino Unido.
A Marinha afirma que os trabalhos de revitalização permitirão prolongar sua vida útil por pelo menos duas décadas.
A diferença é que Londres decidiu deixar de gastar com essa geração de navios, enquanto Brasília pretende colocá-la novamente em operação. São estratégias distintas, com custos e necessidades próprias.
Brasil ainda espera confirmação da chegada e permanece sem um preço contratual publicamente esclarecido
Em fevereiro de 2026, durante uma visita do ministro José Múcio Monteiro ao futuro Oiapoque, a Marinha informou que sua chegada ao Brasil estava prevista para outubro.
Calendários posteriores apontaram outras referências, incluindo novembro e o fim de 2026. Até 23 de outubro, a documentação oficial examinada nesta apuração não permitia confirmar publicamente a partida definitiva do Reino Unido ou a chegada ao Brasil.
Isso não comprova atraso contratual. Mostra apenas que a última etapa da transferência ainda precisava de confirmação pública atualizada.
O mesmo cuidado vale para o preço: o contrato de aquisição existe, mas os documentos oficiais consultados não esclarecem publicamente quanto o Brasil acordou pagar pelo navio nem quais custos integram esse valor.
Para a Marinha brasileira, o Oiapoque poderá representar um reforço importante em operações militares, transporte logístico e atendimento a desastres naturais.
Entretanto, a sequência de questionamentos parlamentares britânicos deixa duas perguntas que interessam também aos brasileiros: quanto custou efetivamente a aquisição e qual será o investimento necessário para manter o gigante naval em condições de operar?
O Brasil pode ter feito um excelente negócio. Mas, sem os valores contratuais publicamente esclarecidos, ainda não é possível demonstrar isso apenas com a cifra de R$ 145 milhões repetida nas manchetes.