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Brasil compra no Reino Unido um dos maiores navios de guerra de sua história, mas preço estimado em R$ 145 milhões segue sem confirmação oficial e deputado britânico exige explicações sobre a venda

Noel Budeguer
Por Noel Budeguer 23/10/2026 às 11:18
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Brasil compra no Reino Unido um dos maiores navios de guerra de sua história, mas preço estimado em R$ 145 milhões segue sem confirmação oficial e deputado britânico exige explicações sobre a venda

O Brasil comprou um dos maiores navios de guerra de sua história recente, mas existe uma informação fundamental que continua sem confirmação oficial pública: quanto custou a embarcação? O futuro NDM Oiapoque (G350), antigo HMS Bulwark da Marinha britânica, aparece em reportagens como uma aquisição de aproximadamente R$ 145 milhões. O problema é que esse mesmo valor já foi associado à negociação de dois navios, e não apenas de um.

A situação ganhou novos capítulos em outubro de 2026. Enquanto o Ministério da Defesa britânico continua evitando divulgar o preço do contrato, um deputado do Reino Unido voltou a exigir explicações sobre os números envolvidos na venda e o andamento da transferência ao Brasil.

O contraste chama atenção: Londres reconheceu gastos milionários com a embarcação, decidiu retirá-la de serviço e agora afirma que sua venda produzirá retorno financeiro. Mas quanto exatamente será recebido? Até nas respostas oficiais ao Parlamento britânico, esse número continua ausente.

Os R$ 145 milhões divulgados para o navio brasileiro escondem uma dúvida importante

Durante meses, a informação circulou como se estivesse resolvida: o Brasil compraria um gigante naval britânico por aproximadamente 20 milhões de libras, equivalentes a cerca de R$ 145 milhões.

Entretanto, existe um detalhe que muda a interpretação dessa cifra.

As primeiras reportagens de 2025 mencionavam 20 milhões de libras nas negociações envolvendo dois navios britânicos: HMS Albion e HMS Bulwark. Mais tarde, outras publicações passaram a associar o mesmo valor à compra individual do Bulwark.

Ocorre que a Marinha do Brasil assinou, em setembro de 2025, o contrato de aquisição do Bulwark. Já o Albion permaneceu no Reino Unido, sem uma venda definitiva anunciada.

Isso não significa que o Brasil tenha pago menos ou mais que o valor divulgado. Significa que a cifra de R$ 145 milhões não pode ser apresentada como preço contratual comprovado do Oiapoque sem documentação oficial que esclareça seu alcance.

Deputado pediu o preço da venda, mas governo britânico se recusou a divulgar os números

A controvérsia não está restrita a especulações da imprensa.

Em 1º de setembro de 2026, o deputado conservador britânico Ben Obese-Jecty apresentou uma pergunta formal ao Ministério da Defesa.

Ele solicitou duas informações: quanto o Reino Unido gastaria para preparar o HMS Bulwark para transferência e qual seria o preço acordado com o Brasil.

A resposta veio em 14 de setembro, assinada pelo ministro Luke Pollard.

O governo confirmou que a embarcação estava passando por trabalhos de recuperação na Base Naval de Devonport e afirmou que a operação deveria gerar retorno financeiro para o Ministério da Defesa.

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Mas não revelou nem o preço da venda nem os custos dessa preparação, alegando que os dados eram comercialmente sensíveis.

É importante esclarecer: isso não prova irregularidade. Entretanto, impede que o público confira, com base nessas respostas oficiais, os valores efetivamente envolvidos na operação.

Reino Unido gastou £72,1 milhões recuperando navio que agora será entregue ao Brasil

O HMS Bulwark, futuro NDM Oiapoque da Marinha do Brasil, navegando em águas britânicas. O Reino Unido gastou £72,1 milhões em trabalhos de recuperação da embarcação entre 2022 e 2024, mas posteriormente decidiu retirá-la de serviço e vendê-la ao Brasil. Foto: Divulgação.
O HMS Bulwark, futuro NDM Oiapoque da Marinha do Brasil, navegando em águas britânicas. O Reino Unido gastou £72,1 milhões em trabalhos de recuperação da embarcação entre 2022 e 2024, mas posteriormente decidiu retirá-la de serviço e vendê-la ao Brasil. Foto: Divulgação.

A discussão fica ainda mais interessante quando são examinados os investimentos britânicos na embarcação.

O próprio Ministério da Defesa do Reino Unido confirmou que, entre 2022 e 2024, foram gastos 72,1 milhões de libras em trabalhos de reforma do HMS Bulwark.

Mesmo depois desse investimento, Londres decidiu retirar antecipadamente o navio de serviço, juntamente com seu irmão HMS Albion.

Para os britânicos, a decisão foi apresentada como uma maneira de eliminar custos de manutenção e direcionar recursos para novas capacidades militares.

Em janeiro de 2025, o governo informou que a retirada dos dois navios permitiria economizar aproximadamente 9 milhões de libras por ano em manutenção.

O Brasil, por sua vez, enxergou na embarcação uma oportunidade de ampliar rapidamente sua capacidade naval.

A questão é que um navio pode ser barato para comprar e caro para manter. Os gastos anteriores do Reino Unido não são uma dívida transferida ao Brasil, mas a experiência britânica demonstra a importância dos custos de operação ao longo dos anos.

Deputado também questionou perda contábil de £428 milhões envolvendo os navios britânicos

O valor mais impressionante dessa história aparece nas contas do próprio Ministério da Defesa britânico.

A retirada antecipada do HMS Albion e do HMS Bulwark levou ao registro de uma perda contábil de 428,459 milhões de libras, relacionada ao valor remanescente dos dois navios, obras, peças e materiais associados.

O deputado Ben Obese-Jecty questionou como a venda do Bulwark ao Brasil poderia gerar retorno financeiro diante desse registro.

A resposta oficial de setembro esclareceu que os £428,459 milhões não representam dinheiro perdido diretamente na transação nem o preço de venda das embarcações. Trata-se de uma baixa de valor contábil, que abrange os dois navios.

Portanto, seria incorreto afirmar que o Reino Unido perdeu essa quantia vendendo o Oiapoque ao Brasil.

A controvérsia real está em outra questão: depois de investir recursos expressivos nessas embarcações, quanto o governo britânico conseguirá recuperar com a venda de uma delas?

Em outubro, parlamentar voltou a cobrar explicações e resposta continuou sem apresentar valores

O assunto voltou ao Parlamento em outubro.

Em pergunta apresentada no dia 9, Obese-Jecty pediu que o Ministério da Defesa explicasse como calculava o retorno financeiro líquido esperado com a venda do Bulwark.

A resposta publicada em 20 de outubro informou que o cálculo considera o dinheiro recebido pela venda, descontados os gastos de preparação do navio para a transferência ao Brasil.

Em termos simples, o governo explicou a conta, mas não revelou os números necessários para conferir seu resultado.

No dia seguinte, 21 de outubro, o mesmo deputado apresentou outra pergunta parlamentar, desta vez solicitando informações sobre a situação atual do Bulwark e os avanços para concluir sua venda e transferência.

A resposta estava prevista para 26 de outubro.

O novo questionamento não denuncia fraude nem confirma problemas na entrega. Mas demonstra que o parlamentar continua buscando esclarecimentos sobre uma operação que envolve diretamente a Marinha brasileira.

Enquanto Londres abandona seus antigos navios, Brasil aposta em um deles para reforçar a Esquadra

Existe ainda um contraste estratégico importante.

O governo britânico decidiu abandonar os navios da classe Albion e avançar em projetos de uma nova geração de embarcações anfíbias, com maior integração de drones e sistemas autônomos.

Já o Brasil pretende incorporar uma plataforma que entrou em serviço na Marinha britânica em 2005.

Isso não significa que o Oiapoque seja ultrapassado para as necessidades brasileiras. Com 176 metros de comprimento e deslocamento de aproximadamente 18,5 mil toneladas, ele poderá transportar tropas, veículos, helicópteros e equipamentos pesados.

A embarcação deverá se tornar o segundo maior navio de guerra brasileiro, atrás apenas do Atlântico, também adquirido do Reino Unido.

A Marinha afirma que os trabalhos de revitalização permitirão prolongar sua vida útil por pelo menos duas décadas.

A diferença é que Londres decidiu deixar de gastar com essa geração de navios, enquanto Brasília pretende colocá-la novamente em operação. São estratégias distintas, com custos e necessidades próprias.

Brasil ainda espera confirmação da chegada e permanece sem um preço contratual publicamente esclarecido

Em fevereiro de 2026, durante uma visita do ministro José Múcio Monteiro ao futuro Oiapoque, a Marinha informou que sua chegada ao Brasil estava prevista para outubro.

Calendários posteriores apontaram outras referências, incluindo novembro e o fim de 2026. Até 23 de outubro, a documentação oficial examinada nesta apuração não permitia confirmar publicamente a partida definitiva do Reino Unido ou a chegada ao Brasil.

Isso não comprova atraso contratual. Mostra apenas que a última etapa da transferência ainda precisava de confirmação pública atualizada.

O mesmo cuidado vale para o preço: o contrato de aquisição existe, mas os documentos oficiais consultados não esclarecem publicamente quanto o Brasil acordou pagar pelo navio nem quais custos integram esse valor.

Para a Marinha brasileira, o Oiapoque poderá representar um reforço importante em operações militares, transporte logístico e atendimento a desastres naturais.

Entretanto, a sequência de questionamentos parlamentares britânicos deixa duas perguntas que interessam também aos brasileiros: quanto custou efetivamente a aquisição e qual será o investimento necessário para manter o gigante naval em condições de operar?

O Brasil pode ter feito um excelente negócio. Mas, sem os valores contratuais publicamente esclarecidos, ainda não é possível demonstrar isso apenas com a cifra de R$ 145 milhões repetida nas manchetes.

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