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Se 100% dos militares fossem temporários, o Brasil seria potência em 15 anos? Os riscos para doutrina e prontidão

Simulação de IA mostra que substituir militares de carreira por temporários nas Forças Armadas pode gerar economia de R$ 76 bilhões em 15 anos para investimentos em defesa e tecnologia.

JB Reis
Por JB Reis 13/10/2026 às 15:55
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Se 100% dos militares fossem temporários, o Brasil seria potência em 15 anos? Os riscos para doutrina e prontidão
Forças Armadas pode gerar economia de R$ 76 bilhões em 15 anos, segundo simulação de IA. Imagem: EB

Um dos temas mais recorrentes quando se fala em Forças Armadas brasileiras é o gasto astronômico com pessoal em detrimento do investimento em equipamentos.

A mais recente matéria da Revista Sociedade Militar sobre o assunto diz que no Brasil a folha de pagamento dos militares temporários e efetivos das Forças Armadas consumiu 87,2% das despesas efetivamente pagas pela Defesa em 2025.

Foram R$ 103,4 bilhões para ativos, inativos, pensões, assistências e benefícios, de um total de R$ 118,3 bilhões.

Ainda segundo esse artigo, em 2025, apenas 9,7% das despesas pagas pela Defesa foram para a função “defesa nacional”.

Essa cifra incluiu o caça Gripen, o programa nuclear da Marinha, a aviação do Exército, a operação do controle do espaço aéreo e a movimentação de militares.

O dilema orçamentário: equipamentos modernos vs. custo com pessoal

De um modo geral, a tônica do debate se concentra em posicionar pessoal e equipamento em polos opostos e antagônicos. E a impressão que se passa é que o Brasil deveria optar por um ou por outro.

O leitmotiv implícito é que se não se pagar praticamente 90% dos recursos de Defesa ao pessoal militar, sobra dinheiro para modernizar as Forças.

Contudo, foge à razão adquirir, por exemplo, aeronaves de última geração e não ter aviadores para pilotá-las.

Um meio termo seria viável? Se o que mais onera as Forças é o pessoal, o caminho mais curto não seria reduzir o pessoal?

Porém, como fazer isso e não incorrer no absurdo de existir o equipamento, e não existir o operador?

Efetivo 100% de temporários, uma reestruturação radical das Forças Armadas

Em 2019, a reestruturação ligada ao PL 1.645 previa reduzir o efetivo total das Forças Armadas em 10% e ampliar a proporção de militares temporários.

Segundo números divulgados pelo Ministério da Defesa na época, a composição passaria de 55% de temporários e 45% de carreira para 65% de temporários e 35% de carreira em 10 anos.

Em 2023, o comandante da Marinha, almirante Marcos Olsen, também defendeu reduzir gradualmente o quadro de carreira e aumentar o recrutamento de temporários para diminuir despesas de pessoal a médio e longo prazos.

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Em 2021, o deputado Sanderson apresentou iniciativas para ampliar o tempo máximo do serviço temporário de 8 para 15 anos. O parlamentar justificou que a manutenção da não estabilidade ajudaria a conter gastos públicos.

Portanto, pelo que se vê, mesmo na alta esfera decisória, o debate se inclina na direção de que a folha de pagamento obstaculiza a modernização das Forças Armadas.

E, além disso, aponta que a substituição crescente de militares de carreira por temporários seria a chave para isso.

Partindo dessa abordagem, o que aconteceria se 100% dos efetivos das Forças Armadas fossem temporários? Dentro de 15 anos, o Brasil poderia chegar perto de ser uma potência militar?

Simulação orçamentária: o impacto financeiro de militares 100% temporários

Projetada ao longo de quinze anos, o senso comum indica que essa hipótese certamente produziria uma economia fiscal considerável.

Lançando mão de ferramentas de inteligência artificial, propusemos uma simulação de modelo orçamentário que prospectasse a situação.

Segundo outro artigo da Revista Sociedade Militar, as despesas com inativos militares somaram R$ 31,08 bilhões ao longo de 2025, enquanto o pagamento de pensões militares alcançou R$ 25,01 bilhões. Juntos, esses dois itens consumiram R$ 56,09 bilhões no ano.

O modelo de simulação projetou, ao longo de 15 anos, os efeitos da substituição gradual do efetivo de carreira por militares temporários.

A economia gerada será realocada para investimentos em equipamentos, pesquisa tecnológica e infraestrutura.

Metodologia do modelo financeiro: projeção de 15 anos com dados oficiais

Para subsidiar a análise, foi desenvolvido um modelo financeiro em planilha eletrônica, com horizonte de quinze anos e sete módulos interligados.

São eles: premissas, efetivo atual, transição, fluxo previdenciário, realocação, prontidão e cenários.

Diferentemente de simulações baseadas em custos individuais arbitrados, esta modelagem de IA utiliza os quantitativos e as remunerações médias divulgados na avaliação atuarial das Forças Armadas que integra o PLDO 2026.

Os efeitos sobre inativos e pensões são aproximados pela diferença entre as projeções oficiais de massa aberta, com reposição de pessoal, e massa fechada, sem reposição.

A simulação preserva integralmente as obrigações já constituídas com inativos e pensionistas.

Além disso, ela deduz a perda de contribuições associada à redução da folha e separa a economia anual do valor acumulado.

Isso é importante, já que evita apresentar recursos economizados ao longo de quinze anos como se fossem receita recorrente de um único exercício.

Economia acumulada e teto de ganho fiscal até 2040

No cenário extremo de substituição integral da carreira até 2040, a economia fiscal anual alcançaria aproximadamente R$ 9,55 bilhões, enquanto a economia acumulada entre 2026 e 2040 seria de cerca de R$ 76 bilhões.

IndicadorResultado
Economia fiscal anual em 2040R$ 9,55 bilhões
Economia acumulada em 2026–2040R$ 76,00 bilhões
Equipamentos em 2040R$ 3,82 bilhões
Pesquisa e desenvolvimento em 2040R$ 2,87 bilhões
Infraestrutura em 2040R$ 2,87 bilhões
Equipamentos acumuladosR$ 30,40 bilhões
P&D acumuladaR$ 22,80 bilhões
Infraestrutura acumuladaR$ 22,80 bilhões

A economia fiscal anual estimada seria crescente à medida que avançasse a substituição dos militares de carreira.

No cenário extremo de transição linear até um efetivo integralmente temporário, a economia acumulada alcançaria aproximadamente:

  • R$ 9,44 bilhões no 5º ano,
  • R$ 34,71 bilhões no 10º ano e
  • R$ 76 bilhões no 15º ano.

No último ano da projeção, a economia anual seria de cerca de R$ 9,55 bilhões.

A maior parcela desse resultado viria da redução da folha ativa, enquanto os efeitos sobre reservas e pensões apareceriam mais lentamente, devido à longa maturação das obrigações militares.

Esses valores decorrem da eliminação progressiva de novas concessões de reserva remunerada e pensões, já que o militar temporário, ao ser desligado, não gera despesa de inativo nem de pensionista.

Como a economia fiscal seria redistribuída: equipamentos, P&D e infraestrutura

Esses valores representam um teto de cenário, anterior à contabilização integral dos custos de recrutamento, formação, rotatividade e reorganização.

A realocação proposta pelo modelo de IA distribuiu a economia no 15º ano, que representaria:

  • 40% (R$ 30 bilhões) para aquisição de equipamentos (fragatas, caças, submarinos),
  • 30% (R$ 22 bilhões) para pesquisa tecnológica (programas nuclear e espacial, ciberdefesa) e
  • 30% (R$ 22 bilhões) para infraestrutura (bases, logística, saúde militar).

Desafios operacionais e barreiras legais da transição para efetivos de militares temporários

Isso seria uma inversão substancial do quadro atual, em que apenas 6% a 8% do orçamento é destinado a investimento.

Ainda assim, o ganho financeiro não seria imediato nem eliminaria os riscos para a doutrina, a prontidão e a retenção de especialistas.

Também existem obstáculos legais. Pela legislação vigente, o militar temporário não adquire estabilidade, passa à reserva não remunerada após o desligamento e pode permanecer no serviço ativo por até 96 meses, ou oito anos.

Uma força totalmente temporária exigiria alterações legislativas e revisão profunda das estruturas de comando, formação, promoção e mobilização.

Tropas 100% de militares temporários comprometem a memória institucional

Do ponto de vista operacional, um efetivo integralmente temporário pode comprometer a memória institucional, a continuidade doutrinária, a formação de comandantes e a manutenção de competências estratégicas.

Por isso, é necessário preservar um núcleo robusto de militares de carreira, limitar a substituição conforme a função e destinar os temporários a atividades compatíveis com maior rotatividade.

Isso garantiria que a economia obtida se converteria em capacidade operacional, inovação e infraestrutura sem prejudicar a prontidão e a autonomia de defesa do País.

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