Um dos temas mais recorrentes quando se fala em Forças Armadas brasileiras é o gasto astronômico com pessoal em detrimento do investimento em equipamentos.
A mais recente matéria da Revista Sociedade Militar sobre o assunto diz que no Brasil a folha de pagamento dos militares temporários e efetivos das Forças Armadas consumiu 87,2% das despesas efetivamente pagas pela Defesa em 2025.
Foram R$ 103,4 bilhões para ativos, inativos, pensões, assistências e benefícios, de um total de R$ 118,3 bilhões.
Ainda segundo esse artigo, em 2025, apenas 9,7% das despesas pagas pela Defesa foram para a função “defesa nacional”.
Essa cifra incluiu o caça Gripen, o programa nuclear da Marinha, a aviação do Exército, a operação do controle do espaço aéreo e a movimentação de militares.
O dilema orçamentário: equipamentos modernos vs. custo com pessoal
De um modo geral, a tônica do debate se concentra em posicionar pessoal e equipamento em polos opostos e antagônicos. E a impressão que se passa é que o Brasil deveria optar por um ou por outro.
O leitmotiv implícito é que se não se pagar praticamente 90% dos recursos de Defesa ao pessoal militar, sobra dinheiro para modernizar as Forças.
Contudo, foge à razão adquirir, por exemplo, aeronaves de última geração e não ter aviadores para pilotá-las.
Um meio termo seria viável? Se o que mais onera as Forças é o pessoal, o caminho mais curto não seria reduzir o pessoal?
Porém, como fazer isso e não incorrer no absurdo de existir o equipamento, e não existir o operador?
Efetivo 100% de temporários, uma reestruturação radical das Forças Armadas
Em 2019, a reestruturação ligada ao PL 1.645 previa reduzir o efetivo total das Forças Armadas em 10% e ampliar a proporção de militares temporários.
Segundo números divulgados pelo Ministério da Defesa na época, a composição passaria de 55% de temporários e 45% de carreira para 65% de temporários e 35% de carreira em 10 anos.
Em 2023, o comandante da Marinha, almirante Marcos Olsen, também defendeu reduzir gradualmente o quadro de carreira e aumentar o recrutamento de temporários para diminuir despesas de pessoal a médio e longo prazos.
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Em 2021, o deputado Sanderson apresentou iniciativas para ampliar o tempo máximo do serviço temporário de 8 para 15 anos. O parlamentar justificou que a manutenção da não estabilidade ajudaria a conter gastos públicos.
Portanto, pelo que se vê, mesmo na alta esfera decisória, o debate se inclina na direção de que a folha de pagamento obstaculiza a modernização das Forças Armadas.
E, além disso, aponta que a substituição crescente de militares de carreira por temporários seria a chave para isso.
Partindo dessa abordagem, o que aconteceria se 100% dos efetivos das Forças Armadas fossem temporários? Dentro de 15 anos, o Brasil poderia chegar perto de ser uma potência militar?
Simulação orçamentária: o impacto financeiro de militares 100% temporários
Projetada ao longo de quinze anos, o senso comum indica que essa hipótese certamente produziria uma economia fiscal considerável.
Lançando mão de ferramentas de inteligência artificial, propusemos uma simulação de modelo orçamentário que prospectasse a situação.
Segundo outro artigo da Revista Sociedade Militar, as despesas com inativos militares somaram R$ 31,08 bilhões ao longo de 2025, enquanto o pagamento de pensões militares alcançou R$ 25,01 bilhões. Juntos, esses dois itens consumiram R$ 56,09 bilhões no ano.
O modelo de simulação projetou, ao longo de 15 anos, os efeitos da substituição gradual do efetivo de carreira por militares temporários.
A economia gerada será realocada para investimentos em equipamentos, pesquisa tecnológica e infraestrutura.
Metodologia do modelo financeiro: projeção de 15 anos com dados oficiais
Para subsidiar a análise, foi desenvolvido um modelo financeiro em planilha eletrônica, com horizonte de quinze anos e sete módulos interligados.
São eles: premissas, efetivo atual, transição, fluxo previdenciário, realocação, prontidão e cenários.
Diferentemente de simulações baseadas em custos individuais arbitrados, esta modelagem de IA utiliza os quantitativos e as remunerações médias divulgados na avaliação atuarial das Forças Armadas que integra o PLDO 2026.
Os efeitos sobre inativos e pensões são aproximados pela diferença entre as projeções oficiais de massa aberta, com reposição de pessoal, e massa fechada, sem reposição.
A simulação preserva integralmente as obrigações já constituídas com inativos e pensionistas.
Além disso, ela deduz a perda de contribuições associada à redução da folha e separa a economia anual do valor acumulado.
Isso é importante, já que evita apresentar recursos economizados ao longo de quinze anos como se fossem receita recorrente de um único exercício.
Economia acumulada e teto de ganho fiscal até 2040
No cenário extremo de substituição integral da carreira até 2040, a economia fiscal anual alcançaria aproximadamente R$ 9,55 bilhões, enquanto a economia acumulada entre 2026 e 2040 seria de cerca de R$ 76 bilhões.
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Economia fiscal anual em 2040 | R$ 9,55 bilhões |
| Economia acumulada em 2026–2040 | R$ 76,00 bilhões |
| Equipamentos em 2040 | R$ 3,82 bilhões |
| Pesquisa e desenvolvimento em 2040 | R$ 2,87 bilhões |
| Infraestrutura em 2040 | R$ 2,87 bilhões |
| Equipamentos acumulados | R$ 30,40 bilhões |
| P&D acumulada | R$ 22,80 bilhões |
| Infraestrutura acumulada | R$ 22,80 bilhões |
A economia fiscal anual estimada seria crescente à medida que avançasse a substituição dos militares de carreira.
No cenário extremo de transição linear até um efetivo integralmente temporário, a economia acumulada alcançaria aproximadamente:
- R$ 9,44 bilhões no 5º ano,
- R$ 34,71 bilhões no 10º ano e
- R$ 76 bilhões no 15º ano.
No último ano da projeção, a economia anual seria de cerca de R$ 9,55 bilhões.
A maior parcela desse resultado viria da redução da folha ativa, enquanto os efeitos sobre reservas e pensões apareceriam mais lentamente, devido à longa maturação das obrigações militares.
Esses valores decorrem da eliminação progressiva de novas concessões de reserva remunerada e pensões, já que o militar temporário, ao ser desligado, não gera despesa de inativo nem de pensionista.
Como a economia fiscal seria redistribuída: equipamentos, P&D e infraestrutura
Esses valores representam um teto de cenário, anterior à contabilização integral dos custos de recrutamento, formação, rotatividade e reorganização.
A realocação proposta pelo modelo de IA distribuiu a economia no 15º ano, que representaria:
- 40% (R$ 30 bilhões) para aquisição de equipamentos (fragatas, caças, submarinos),
- 30% (R$ 22 bilhões) para pesquisa tecnológica (programas nuclear e espacial, ciberdefesa) e
- 30% (R$ 22 bilhões) para infraestrutura (bases, logística, saúde militar).
Desafios operacionais e barreiras legais da transição para efetivos de militares temporários
Isso seria uma inversão substancial do quadro atual, em que apenas 6% a 8% do orçamento é destinado a investimento.
Ainda assim, o ganho financeiro não seria imediato nem eliminaria os riscos para a doutrina, a prontidão e a retenção de especialistas.
Também existem obstáculos legais. Pela legislação vigente, o militar temporário não adquire estabilidade, passa à reserva não remunerada após o desligamento e pode permanecer no serviço ativo por até 96 meses, ou oito anos.
Uma força totalmente temporária exigiria alterações legislativas e revisão profunda das estruturas de comando, formação, promoção e mobilização.
Tropas 100% de militares temporários comprometem a memória institucional
Do ponto de vista operacional, um efetivo integralmente temporário pode comprometer a memória institucional, a continuidade doutrinária, a formação de comandantes e a manutenção de competências estratégicas.
Por isso, é necessário preservar um núcleo robusto de militares de carreira, limitar a substituição conforme a função e destinar os temporários a atividades compatíveis com maior rotatividade.
Isso garantiria que a economia obtida se converteria em capacidade operacional, inovação e infraestrutura sem prejudicar a prontidão e a autonomia de defesa do País.