Camp Century operou de 1959 a 1967 a 205 quilômetros da base de Pituffik, tinha três quilômetros de túneis escavados dentro da calota e servia de fachada para o Project Iceworm, o plano de instalar sítios de lançamento nuclear sob a Groenlândia.
Em 1959 o Exército dos Estados Unidos começou a cavar uma cidade dentro da calota de gelo da Groenlândia.
A explicação oficial era pesquisa polar: um lugar para estudar o clima, o gelo e a vida humana no Ártico.
A explicação era verdadeira pela metade.
Havia mesmo ciência sendo feita ali, e havia também um plano guardado que só viraria público três décadas depois.
O plano se chamava Project Iceworm.
Uma base que foi cavada, não construída
Camp Century ficava a 205 quilômetros a leste-nordeste da base de Pituffik, no noroeste da Groenlândia.
A técnica não foi erguer prédios sobre a neve, e sim abrir trincheiras na superfície da calota, cobri-las com arcos de aço e deixar a neve soprada fechar o teto por cima.
O resultado era um conjunto de corredores enterrados, com as instalações montadas dentro deles.
Estruturas assim voltaram ao noticiário quando os Estados Unidos passaram a discutir reabrir bases da Guerra Fria no Ártico.
Vinte e um túneis, três quilômetros
Foram 21 túneis, somando cerca de 3 quilômetros de extensão.
A trincheira principal tinha 340 metros de comprimento, com aproximadamente 7,9 metros de largura e a mesma medida de altura.
Dentro havia alojamento, refeitório, enfermaria, oficina, laboratório e até barbearia, tudo abaixo da superfície.
A água vinha do próprio gelo, derretido com calor do sistema de energia, e o esgoto era despejado em poços abertos na neve.
O reator que foi montado no lugar
A energia veio de um reator nuclear semimóvel do modelo PM-2A, levado em partes e montado no próprio acampamento.
Ele funcionou por pouco mais de três anos e foi desligado por um motivo que dizia tudo sobre o projeto: as trincheiras onde ele estava começaram a se comprimir mais rápido do que o previsto.
O gelo estava fechando a sala do reator.
No verão de 1962 o teto daquela sala já havia baixado o suficiente para exigir que fosse erguido em cerca de um metro e meio.
O que era o Project Iceworm
O objetivo declarado do Iceworm era instalar uma rede de sítios de lançamento de mísseis nucleares capaz de sobreviver a um primeiro ataque soviético.
A lógica era simples: alvo que não se sabe onde está não pode ser destruído no primeiro golpe.
Se o inimigo não conseguisse mapear qual trecho de gelo guardava qual míssil, teria de destruir a calota inteira para eliminar a ameaça.
Seiscentos mísseis debaixo da neve
O planejamento previa a instalação de cerca de 600 mísseis balísticos de alcance médio, distribuídos em trincheiras espaçadas entre si.
O deslocamento das armas entre os pontos de lançamento seria feito por uma ferrovia subterrânea escavada na própria calota.
A área total de túneis prevista superava em muito o que foi efetivamente escavado, e chegava a ser comparada ao território de países inteiros da Europa.
A base visitada por jornalistas e escoteiros era, nessa conta, apenas o protótipo.
O caráter aberto da visitação servia à história oficial: um lugar que recebe repórter e escoteiro não parece esconder silo de míssil.
Era a mesma corrida que produziu, do outro lado, um gigante nuclear soviético de 28 mil toneladas.
O erro de cálculo: gelo escorre
A calota de gelo não é uma rocha.
Ela flui, lentamente, sob o próprio peso.
As medições feitas dentro dos túneis mostraram deformação contínua: paredes se aproximando, tetos baixando, estruturas de aço sendo entortadas.
Um sítio de lançamento precisa de posição estável e de acesso garantido.
Nenhuma das duas coisas o gelo oferecia.
O Iceworm foi cancelado em 1963, antes de qualquer míssil chegar.
O furo que sobrou de tudo aquilo
A parte científica da base não era fachada, e acabou entregando o resultado mais duradouro do projeto.
Entre 1963 e 1966 uma sonda perfurou o gelo até 1.390 metros de profundidade, retirando um testemunho contínuo com 10,8 centímetros de diâmetro.
A composição isotópica daquele cilindro de gelo guardava o registro das variações climáticas de quase 100 mil anos.
Foi um dos primeiros testemunhos profundos já obtidos, e virou material de referência para a ciência do clima.
Na ponta, a perfuração ainda trouxe 3,44 metros de sedimento congelado do fundo, material do próprio solo da Groenlândia.
Décadas depois, a análise desse sedimento mostrou que aquele trecho de ilha já esteve sem gelo em algum ponto do passado.
O fim em 1967
Sem a finalidade militar que justificava o custo, a base perdeu sentido.
O reator foi retirado e Camp Century foi abandonada em 1967, oito anos depois de começar a ser cavada.
O propósito verdadeiro só veio a público em janeiro de 1997, quando o Parlamento da Dinamarca encarregou o instituto de política externa do país de reconstituir a história das armas nucleares na Groenlândia, no episódio que ficou conhecido como Thulegate.
O que continua lá embaixo
O abandono não foi uma limpeza.
O que estava enterrado ficou enterrado, na suposição de que a neve continuaria acumulando para sempre por cima.
Ficaram para trás cerca de 200 mil litros de diesel, resíduos químicos com PCB, aproximadamente 24 milhões de litros de esgoto não tratado e material contaminado do sistema do reator.
Em levantamento de 2016 esses resíduos estavam a algo em torno de 36 metros de profundidade.
O derretimento acelerado da calota inverteu a suposição original e colocou a questão de quem responde por aquilo.
O Brasil também construiu no gelo, para outra coisa
A Antártica brasileira tem base permanente desde 1984, e a estação atual foi reconstruída depois do incêndio de 2012.
A operação de quatro décadas na Comandante Ferraz é conduzida pela Marinha e existe para sustentar pesquisa científica.
O apoio logístico envolve navio polar e, mais recentemente, suprimentos lançados por avião da FAB.
A diferença entre os dois casos não está na engenharia, e sim no que cada país foi guardar debaixo do gelo.
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