A Bolívia pediu ao Brasil 10 aviões militares Xavante com pagamento adiado por três anos, logo depois de solicitar 30 mil toneladas de açúcar em condições especiais. A proposta foi apresentada ao governo de Emílio Garrastazu Médici em plena crise econômica boliviana. O presidente brasileiro aceitou providenciar o açúcar, mas rejeitou o pedido dos jatos.
A história aparece em um memorando secreto da Casa Branca, de 9 de dezembro de 1971, que reproduz o relato feito por Médici ao presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon. A reunião ocorreu em Washington, com a participação do general Vernon Walters como intérprete. O registro oficial mostra como uma solicitação alimentar acabou se transformando em uma tentativa de aquisição de armamentos brasileiros.
Bolívia pediu 30 mil toneladas de açúcar sem começar a pagar por três anos
Segundo o documento, um ministro boliviano, cujo nome não foi identificado no relato, visitou Médici para solicitar açúcar em volume equivalente a 30 milhões de quilos. O pagamento deveria começar após três anos de carência e se estender por dez anos.
Médici considerou essas condições muito distantes das praticadas no comércio do produto. Ele comentou a Nixon que, normalmente, o comprador recebia uma saca de açúcar e efetuava o pagamento, sem um financiamento tão prolongado.
O representante boliviano respondeu que não estava negociando uma compra convencional. Alegou que a falta do alimento poderia derrubar o governo em La Paz e abrir caminho para adversários de extrema esquerda. O argumento transformou a solicitação em uma questão de sobrevivência política para as autoridades bolivianas.
Presidente brasileiro autorizou a oferta de açúcar após alerta de crise política
Depois de ouvir o alerta, Médici afirmou ter dado instruções para que o açúcar fosse disponibilizado à Bolívia nas condições solicitadas. O memorando número 143 do Departamento de Estado dos EUA registra essa autorização, relatada pelo próprio presidente brasileiro.
O papel desclassificado preserva a conversa entre os presidentes, mas não apresenta comprovantes de embarque, contrato comercial ou valores totais da operação. A autorização narrada por Médici é o ato documentado naquela reunião.
A crise era real. O general Hugo Banzer havia assumido a Presidência da Bolívia após o golpe militar de agosto de 1971. O país enfrentava dificuldades econômicas e políticas, enquanto os governos militares da região acompanhavam o avanço de grupos oposicionistas.
Ministro fez um segundo pedido e incluiu 10 jatos militares Xavante
Foi logo após receber a resposta sobre o açúcar que o visitante boliviano apresentou a segunda solicitação. Queria dez jatos brasileiros Xavante e pediu que a venda seguisse as mesmas condições de financiamento, incluindo o período de carência.

O contraste entre os pedidos era enorme. De um lado estavam milhares de toneladas de alimento destinadas a evitar desabastecimento. De outro, uma frota de aeronaves militares a jato, que exigiria pilotos, treinamento, manutenção, peças e uma estrutura de operação especializada.
O memorando não especifica o preço por aeronave, nem identifica uma proposta formal da Embraer ou um contrato de exportação para a Bolívia. A compra é mencionada como parte do relato presidencial sobre a solicitação feita pelo ministro.
Médici recusou os aviões por considerar a compra absurda durante a crise
Ao comentar a reação brasileira, Médici disse a Nixon que recusou o pedido dos Xavante. Classificou como ridícula a ideia de um país em situação econômica desesperadora adquirir aviões militares a jato.
A diferença de tratamento revela a decisão adotada por Brasília naquele episódio: oferecer condições excepcionais para um produto considerado necessário à estabilidade boliviana, mas negar o mesmo crédito para equipamentos de combate.
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O presidente brasileiro ainda comentou suas dificuldades de relacionamento com governantes dos países hispano-americanos. A passagem aparece no memorando junto à explicação sobre os aviões, antes de Médici abordar negociações com o Paraguai e a Argentina.
Xavante podia atingir 867 km/h e havia estreado no Brasil três meses antes
O pedido envolvia uma das principais novidades da indústria aeronáutica brasileira. O EMB-326 Xavante, produzido pela Embraer sob licença da italiana Aermacchi, havia realizado seu primeiro voo de testes em 3 de setembro de 1971. No dia 8, segundo o histórico oficial da Embraer, começaram as entregas à Força Aérea Brasileira.
O AT-26 era um jato de dois lugares, empregado principalmente em treinamento avançado e ataque leve. Não tinha o desempenho de um caça supersônico, mas podia realizar missões armadas e preparar pilotos para aeronaves de combate mais exigentes.
Dados do Museu Aeroespacial da FAB indicam 867 km/h de velocidade máxima, 1.850 quilômetros de alcance, comprimento de 10,65 metros e capacidade para transportar até 1.814 quilos de cargas externas em seis pontos sob as asas.
Assim, o governo boliviano procurava adquirir um modelo que ainda estava no começo de sua trajetória dentro da própria FAB. A solicitação chegou a Médici poucos meses depois de o primeiro avião brasileiro sair da linha de produção.
Paraguai comprou nove Xavante anos depois, enquanto Bolívia ficou sem os dez
A tentativa boliviana não impediu que o Xavante conquistasse clientes no exterior. A Embraer informa que produziu 182 unidades do modelo, das quais 167 destinadas à FAB, nove ao Paraguai e seis ao Togo.
A própria Força Aérea Brasileira registra que a Força Aérea Paraguaia adquiriu nove AT-26 no início de 1980. Pilotos e técnicos paraguaios passaram por adaptação no Brasil, e uma equipe de instrutores brasileiros seguiu para o país vizinho para apoiar a operação dos aviões.
A venda paraguaia ocorreu quase uma década depois da conversa entre Médici e Nixon. A comparação permite ver dois destinos diferentes para o mesmo equipamento: uma proposta boliviana recusada durante a crise de 1971 e uma exportação efetivamente realizada para o Paraguai anos mais tarde.
Arquivos dos EUA mostram que crise boliviana continuou exigindo ajuda financeira
A precariedade econômica boliviana também aparece em registros posteriores da diplomacia norte-americana. Em junho de 1972, um memorando de Henry Kissinger a Nixon informou que Banzer precisava urgentemente de US$ 20 milhões para cobrir um déficit orçamentário.
O documento de 1972 registra que Washington decidiu apoiar um empréstimo-programa de US$ 20 milhões sem exigir, naquele momento, a desvalorização da moeda boliviana. O problema fiscal persistia meses depois de Médici ter contado a Nixon sobre a tentativa de comprar os Xavante.
Entre os documentos preservados nos arquivos dos Estados Unidos, a passagem sobre os dez jatos revela uma decisão pouco conhecida do governo militar brasileiro. Médici disse ter autorizado condições excepcionais para o açúcar e, na mesma conversa, negado crédito para uma frota de aviões que mal começara a entrar em serviço no Brasil.