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Bolívia pediu 10 jatos militares ao Brasil, exigiu 3 anos de carência e tentou obter as mesmas condições de uma compra de 30 mil toneladas de açúcar, mas governo brasileiro recusou fornecer os aviões

Memorando secreto da Casa Branca registra pedido boliviano de 10 jatos Xavante e 30 mil toneladas de açúcar com carência de três anos. Médici autorizou facilitar o açúcar, mas recusou fornecer os aviões.

Noel Budeguer
Por Noel Budeguer 03/11/2026 às 07:52
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Bolívia pediu 10 jatos militares ao Brasil, exigiu 3 anos de carência e tentou obter as mesmas condições de uma compra de 30 mil toneladas de açúcar, mas governo brasileiro recusou fornecer os aviões

A Bolívia pediu ao Brasil 10 aviões militares Xavante com pagamento adiado por três anos, logo depois de solicitar 30 mil toneladas de açúcar em condições especiais. A proposta foi apresentada ao governo de Emílio Garrastazu Médici em plena crise econômica boliviana. O presidente brasileiro aceitou providenciar o açúcar, mas rejeitou o pedido dos jatos.

A história aparece em um memorando secreto da Casa Branca, de 9 de dezembro de 1971, que reproduz o relato feito por Médici ao presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon. A reunião ocorreu em Washington, com a participação do general Vernon Walters como intérprete. O registro oficial mostra como uma solicitação alimentar acabou se transformando em uma tentativa de aquisição de armamentos brasileiros.

Bolívia pediu 30 mil toneladas de açúcar sem começar a pagar por três anos

Segundo o documento, um ministro boliviano, cujo nome não foi identificado no relato, visitou Médici para solicitar açúcar em volume equivalente a 30 milhões de quilos. O pagamento deveria começar após três anos de carência e se estender por dez anos.

Médici considerou essas condições muito distantes das praticadas no comércio do produto. Ele comentou a Nixon que, normalmente, o comprador recebia uma saca de açúcar e efetuava o pagamento, sem um financiamento tão prolongado.

O representante boliviano respondeu que não estava negociando uma compra convencional. Alegou que a falta do alimento poderia derrubar o governo em La Paz e abrir caminho para adversários de extrema esquerda. O argumento transformou a solicitação em uma questão de sobrevivência política para as autoridades bolivianas.

Presidente brasileiro autorizou a oferta de açúcar após alerta de crise política

Depois de ouvir o alerta, Médici afirmou ter dado instruções para que o açúcar fosse disponibilizado à Bolívia nas condições solicitadas. O memorando número 143 do Departamento de Estado dos EUA registra essa autorização, relatada pelo próprio presidente brasileiro.

O papel desclassificado preserva a conversa entre os presidentes, mas não apresenta comprovantes de embarque, contrato comercial ou valores totais da operação. A autorização narrada por Médici é o ato documentado naquela reunião.

A crise era real. O general Hugo Banzer havia assumido a Presidência da Bolívia após o golpe militar de agosto de 1971. O país enfrentava dificuldades econômicas e políticas, enquanto os governos militares da região acompanhavam o avanço de grupos oposicionistas.

Ministro fez um segundo pedido e incluiu 10 jatos militares Xavante

Foi logo após receber a resposta sobre o açúcar que o visitante boliviano apresentou a segunda solicitação. Queria dez jatos brasileiros Xavante e pediu que a venda seguisse as mesmas condições de financiamento, incluindo o período de carência.

AT-26 Xavante da Força Aérea Brasileira em voo. Produzido pela Embraer sob licença italiana, o jato de treinamento avançado e ataque leve podia atingir 867 km/h e transportar armamentos. Em 1971, a Bolívia solicitou dez aeronaves desse modelo ao governo brasileiro, mas o pedido foi recusado pelo presidente Emílio Garrastazu Médici. Foto: Wikimedia Commons.

O contraste entre os pedidos era enorme. De um lado estavam milhares de toneladas de alimento destinadas a evitar desabastecimento. De outro, uma frota de aeronaves militares a jato, que exigiria pilotos, treinamento, manutenção, peças e uma estrutura de operação especializada.

O memorando não especifica o preço por aeronave, nem identifica uma proposta formal da Embraer ou um contrato de exportação para a Bolívia. A compra é mencionada como parte do relato presidencial sobre a solicitação feita pelo ministro.

Médici recusou os aviões por considerar a compra absurda durante a crise

Ao comentar a reação brasileira, Médici disse a Nixon que recusou o pedido dos Xavante. Classificou como ridícula a ideia de um país em situação econômica desesperadora adquirir aviões militares a jato.

A diferença de tratamento revela a decisão adotada por Brasília naquele episódio: oferecer condições excepcionais para um produto considerado necessário à estabilidade boliviana, mas negar o mesmo crédito para equipamentos de combate.

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O presidente brasileiro ainda comentou suas dificuldades de relacionamento com governantes dos países hispano-americanos. A passagem aparece no memorando junto à explicação sobre os aviões, antes de Médici abordar negociações com o Paraguai e a Argentina.

Xavante podia atingir 867 km/h e havia estreado no Brasil três meses antes

O pedido envolvia uma das principais novidades da indústria aeronáutica brasileira. O EMB-326 Xavante, produzido pela Embraer sob licença da italiana Aermacchi, havia realizado seu primeiro voo de testes em 3 de setembro de 1971. No dia 8, segundo o histórico oficial da Embraer, começaram as entregas à Força Aérea Brasileira.

O AT-26 era um jato de dois lugares, empregado principalmente em treinamento avançado e ataque leve. Não tinha o desempenho de um caça supersônico, mas podia realizar missões armadas e preparar pilotos para aeronaves de combate mais exigentes.

Dados do Museu Aeroespacial da FAB indicam 867 km/h de velocidade máxima, 1.850 quilômetros de alcance, comprimento de 10,65 metros e capacidade para transportar até 1.814 quilos de cargas externas em seis pontos sob as asas.

Assim, o governo boliviano procurava adquirir um modelo que ainda estava no começo de sua trajetória dentro da própria FAB. A solicitação chegou a Médici poucos meses depois de o primeiro avião brasileiro sair da linha de produção.

Paraguai comprou nove Xavante anos depois, enquanto Bolívia ficou sem os dez

A tentativa boliviana não impediu que o Xavante conquistasse clientes no exterior. A Embraer informa que produziu 182 unidades do modelo, das quais 167 destinadas à FAB, nove ao Paraguai e seis ao Togo.

A própria Força Aérea Brasileira registra que a Força Aérea Paraguaia adquiriu nove AT-26 no início de 1980. Pilotos e técnicos paraguaios passaram por adaptação no Brasil, e uma equipe de instrutores brasileiros seguiu para o país vizinho para apoiar a operação dos aviões.

A venda paraguaia ocorreu quase uma década depois da conversa entre Médici e Nixon. A comparação permite ver dois destinos diferentes para o mesmo equipamento: uma proposta boliviana recusada durante a crise de 1971 e uma exportação efetivamente realizada para o Paraguai anos mais tarde.

Arquivos dos EUA mostram que crise boliviana continuou exigindo ajuda financeira

A precariedade econômica boliviana também aparece em registros posteriores da diplomacia norte-americana. Em junho de 1972, um memorando de Henry Kissinger a Nixon informou que Banzer precisava urgentemente de US$ 20 milhões para cobrir um déficit orçamentário.

O documento de 1972 registra que Washington decidiu apoiar um empréstimo-programa de US$ 20 milhões sem exigir, naquele momento, a desvalorização da moeda boliviana. O problema fiscal persistia meses depois de Médici ter contado a Nixon sobre a tentativa de comprar os Xavante.

Entre os documentos preservados nos arquivos dos Estados Unidos, a passagem sobre os dez jatos revela uma decisão pouco conhecida do governo militar brasileiro. Médici disse ter autorizado condições excepcionais para o açúcar e, na mesma conversa, negado crédito para uma frota de aviões que mal começara a entrar em serviço no Brasil.

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