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Argentina quer autorizar Armada a interceptar e reter navios rumo às Malvinas; Milei defende livre navegação

Projeto ameaça restringir o abastecimento das ilhas no Atlântico Sul, enquanto navio chileno prepara viagem e governo tenta evitar crise naval.

Argentina quer autorizar Armada a interceptar e reter navios rumo às Malvinas; Milei defende livre navegação
Destróier ARA La Argentina (D-11), da Armada Argentina, navegando diante da costa de Mar del Plata. Projeto apresentado ao Congresso argentino propõe ampliar os poderes de intervenção naval contra navios vinculados às Malvinas. Foto: Miguel Ángel Scovenna Rivero y Hornos

Um navio chileno que se prepara para abastecer as Ilhas Malvinas colocou a Argentina diante de uma nova disputa no Atlântico Sul. Enquanto um projeto de lei busca ampliar os poderes de intervenção da Armada, o governo de Javier Milei defende a liberdade de navegação, expondo uma divergência sobre como enfrentar a presença britânica no arquipélago.

A preocupação vai além das declarações diplomáticas. Autoridades argentinas já interceptaram uma embarcação chilena em uma operação relacionada às Malvinas, e informações atribuídas à inteligência do Chile apontaram o risco de um novo incidente naval.

Agora, uma proposta apresentada ao Congresso argentino pretende estabelecer regras para impedir a passagem de determinados navios, incluindo a possibilidade de retenção em portos do país.

Projeto quer permitir à Armada interceptar navios e impedir abastecimento das Malvinas

Destróier ARA La Argentina (D-11), da Armada Argentina, atracado na Base Naval de Mar del Plata, com canhão de proa e radares visíveis.
Destróier ARA La Argentina (D-11), da Armada Argentina, atracado na Base Naval de Mar del Plata. Foto: Miguel Ángel Scovenna Rivero y Hornos

Apresentado em 27 de outubro pela deputada Agustina Propato, da oposição, o projeto de lei 5831-D-2026 considera que o trânsito de embarcações vinculadas a determinadas atividades nas Malvinas não constitui passagem inocente.

A proposta alcança navios de qualquer bandeira envolvidos em operações logísticas, militares, pesqueiras, petrolíferas ou de infraestrutura destinadas ao arquipélago, administrado pelo Reino Unido e reivindicado pela Argentina.

Se aprovada, a legislação permitiria que a Armada Argentina ou a Prefectura Naval, conforme suas competências, adotassem medidas para impedir esses deslocamentos em águas sob jurisdição argentina.

Entre as medidas previstas estão ordenar a parada de navios, exigir mudanças de rumo, inspecionar cargas e registrar embarcações infratoras.

O texto também contempla a possibilidade de retenção em portos argentinos, desde que determinadas condições sejam atendidas.

A iniciativa é diferente de outra proposta enviada pelo governo Milei ao Congresso em setembro, que estabelece procedimentos de fiscalização e uso progressivo da força em determinadas operações marítimas.

Entretanto, nenhuma delas representa uma autorização irrestrita para interceptar navios em qualquer ponto do Atlântico Sul. A aplicação das medidas permanece sujeita aos limites da jurisdição argentina e do direito internacional.

Navio chileno de 72 metros reacende temor de incidente naval no Atlântico Sul

Navio cargueiro MV Copihue durante operações de carga e descarga no porto de Punta Arenas, no Chile.
Navio cargueiro MV Copihue durante operações no porto de Punta Arenas, no Chile, de onde está prevista a partida do Danstar rumo às Ilhas Malvinas. Foto: Arturo.Williamson / Wikimedia Commons (CC0 1.0).

O principal motivo da controvérsia é o Danstar, navio cargueiro chileno de aproximadamente 72 metros, que deverá inaugurar em dezembro uma rota comercial entre Punta Arenas e as Ilhas Malvinas.

A embarcação pertence à empresa Easter Island, que pretende transportar alimentos, equipamentos e materiais de construção. A ligação reduziria a distância de abastecimento em comparação com rotas utilizadas a partir de Montevidéu.

Nos fundamentos, o projeto de Propato menciona expressamente o Danstar e considera que a nova ligação marítima enfraquece a reivindicação argentina de soberania.

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O alerta sobre possíveis consequências militares surgiu antes da apresentação da proposta. Em outubro, uma investigação do BioBioChile, baseada em fontes anônimas ligadas à inteligência chilena, apontou o risco de um incidente caso forças argentinas tentassem interceptar o cargueiro.

O temor possui um antecedente concreto.

Em abril de 2024, o guardacostas argentino Prefecto Derbes, da Prefectura Naval, interceptou o rebocador chileno Beagle durante uma operação relacionada às Malvinas. A intervenção provocou questionamentos diplomáticos sobre seus fundamentos e sobre a jurisdição marítima.

A importância militar da região também aparece nos investimentos argentinos. Em outubro, o governo Milei autorizou uma licitação de aproximadamente R$ 622 milhões para ampliar a infraestrutura naval em Ushuaia.

A instalação ocupa uma posição estratégica próxima às rotas do Atlântico Sul e da Antártida. Contudo, a obra não foi anunciada como resposta à operação do Danstar.

Embaixada britânica participou de contatos comerciais, mas Chile descarta escolta militar

Fragata Almirante Williams (FF-19), da Armada do Chile, navegando em alto-mar, com número 19 visível no casco.
Fragata Almirante Williams (FF-19), da Armada do Chile, durante navegação. O governo chileno descartou a necessidade de escolta militar ao navio Danstar, que prepara uma rota comercial para as Malvinas. Foto: Renato Rocha Miranda / Marinha do Brasil / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).

A origem da rota também envolve interesses britânicos.

Uma investigação do jornal chileno Diario Financiero revelou que contatos promovidos com participação da Embaixada britânica ajudaram empresários a identificar oportunidades para restabelecer o abastecimento marítimo das Malvinas.

Posteriormente, representantes da empresa viajaram ao arquipélago para avaliar a viabilidade comercial da ligação. Não há comprovação de financiamento militar britânico à operação.

A presença britânica também aparece nas rotas aéreas da região. Em outubro, dois aviões militares A400M da Royal Air Force utilizaram o Rio de Janeiro em viagens relacionadas à base de Mount Pleasant, nas Malvinas.

Esse movimento evidencia a importância logística do Atlântico Sul para as forças britânicas, embora não exista ligação operacional demonstrada entre os voos e o Danstar.

Apesar das críticas argentinas ao abastecimento das ilhas, o chanceler Pablo Quirno defendeu a liberdade de navegação em uma manifestação pública divulgada em 30 de outubro, durante uma reunião de ministros das Relações Exteriores do G20.

No Chile, o ministro da Defesa, Fernando Barros, declarou em 2 de novembro que considera desnecessário enviar navios militares para escoltar o Danstar. Segundo ele, tratados internacionais já protegem a navegação.

A própria Armada Argentina havia divulgado, em 16 de outubro, um comunicado desmentindo declarações atribuídas a militares da ativa sobre o cargueiro e a política externa do país.

Não existe ordem oficial confirmada para interceptar o Danstar, e o projeto de Propato ainda precisa avançar no Congresso.

Com a primeira viagem prevista para dezembro, a disputa entra em uma etapa decisiva. A Argentina discute ampliar o poder de intervenção de suas autoridades navais, enquanto o Chile insiste na liberdade de navegação. O desafio será impedir que essa divergência transforme uma rota comercial em um novo incidente no Atlântico Sul.

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