O Brasil estuda investir R$ 1 bilhão na produção nacional de helicópteros da família H145, começando pela versão militar H145M, mas um alerta vindo da Alemanha acrescenta uma preocupação ao projeto. Uma auditoria identificou problemas nos armamentos das aeronaves adquiridas pelas Forças Armadas alemãs e recomendou suspender novas compras de um programa que já reúne 82 unidades.
O relatório confidencial do Tribunal Federal de Contas da Alemanha foi revelado pela revista Der Spiegel e detalhado pelo portal especializado Infodefensa em 3 de novembro.
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Os auditores identificaram falhas no planejamento e dificuldades na integração de munições e mísseis aos helicópteros, fabricados pela Airbus Helicopters.
O Ministério da Defesa alemão reconheceu os atrasos e confirmou que a indústria ainda precisa entregar parte das capacidades previstas.
A notícia surge enquanto a Helibras, subsidiária da Airbus no Brasil, prepara a possibilidade de produzir o H145 em Itajubá, Minas Gerais, após o encerramento do programa de fabricação dos helicópteros militares H225M.
O projeto brasileiro prevê até 200 aeronaves em 15 anos, destinadas aos mercados nacional e internacional, incluindo possíveis encomendas das Forças Armadas.
Alemanha investe cerca de € 2,5 bilhões em helicópteros H145M, mas auditoria recomenda suspender mais 33 unidades
O programa alemão começou em dezembro de 2023, quando o governo assinou contrato para adquirir 62 helicópteros H145M, com opção de ampliar a encomenda.
Em dezembro de 2025, a Alemanha confirmou outras 20 aeronaves, elevando o total contratado para 82 helicópteros, sendo 72 destinados ao Exército e dez às forças especiais da Aeronáutica.
O investimento no programa é estimado em aproximadamente € 2,5 bilhões.
Parte das aeronaves será empregada em missões de reconhecimento, treinamento, transporte de forças especiais e ataque leve, enquanto o país prepara a retirada dos helicópteros de combate Tiger.
Os problemas identificados pela auditoria atingem justamente a capacidade de utilizar o H145M como plataforma de ataque.
Segundo as informações divulgadas pelo Infodefensa, os auditores concluíram que o Ministério da Defesa subestimou a complexidade de adaptar um helicóptero derivado de um modelo civil para operações militares armadas.
O relatório recomenda adiar a compra de outras 33 aeronaves, além das 82 já contratadas, até que os equipamentos atendam às exigências operacionais previstas.
A avaliação também aponta que parte dos helicópteros está sendo entregue em configuração provisória, adequada ao treinamento, mas ainda sem todas as capacidades de combate planejadas.
Problemas com munições de 20 mm e mísseis podem atrasar capacidade de combate
Uma das principais dificuldades envolve a munição destinada aos canhões de 20 milímetros dos helicópteros.
De acordo com o relatório citado pela imprensa alemã, os projéteis previstos ainda não haviam concluído os testes de qualificação exigidos pelas Forças Armadas.
As munições disponíveis também apresentavam preocupações de segurança relacionadas à sensibilidade eletrostática das espoletas.
Outro problema envolve os mísseis guiados destinados às missões anticarro.
O cronograma prevê entregas a partir do final de 2027, mas os auditores consideram elevado o risco de novos atrasos.
Em maio de 2025, testes de disparo previstos para esses armamentos foram interrompidos por dificuldades técnicas.
Há ainda uma negociação envolvendo € 384 milhões em mísseis, cuja contratação foi questionada pelos auditores diante da ausência de testes operacionais concluídos.
As dificuldades podem afetar compromissos militares assumidos pela Alemanha com a OTAN.
Berlim pretende disponibilizar inicialmente 12 helicópteros de combate até 2029 e ampliar esse contingente para 72 unidades até 2032.
O Ministério da Defesa alemão, embora tenha reconhecido os problemas, contestou a possibilidade de não cumprir essas metas.
Brasil prevê R$ 1 bilhão e até 200 helicópteros H145 produzidos em Minas Gerais
No Brasil, os planos envolvendo o H145 ganharam força em julho de 2025, quando representantes dos governos brasileiro e francês assinaram uma carta de intenções para transformar a Helibras em um polo de produção e exportação do modelo.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços estimou o investimento necessário em R$ 1 bilhão, com possibilidade de fabricar até 200 helicópteros ao longo de 15 anos.
A linha seria instalada em Itajubá, aproveitando parte da estrutura utilizada na fabricação dos 47 helicópteros H225M adquiridos pelo Ministério da Defesa.
Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo em agosto de 2026, a intenção da Airbus é iniciar a nova produção pela versão militar H145M.
O modelo pode receber o sistema HForce, desenvolvido para integrar metralhadoras, canhões, foguetes e mísseis guiados.
A viabilidade da linha brasileira, entretanto, depende de encomendas em quantidade suficiente.
A fabricante trabalha com a perspectiva de um contrato inicial envolvendo aproximadamente 40 a 50 aeronaves, capaz de justificar a implantação da produção nacional.
Em setembro, o Sociedade Militar já havia noticiado discussões envolvendo a participação da indústria brasileira, a transferência de tecnologia e a nacionalização de componentes em uma eventual aquisição militar.
Na ocasião, o investimento bilionário também levantava questionamentos sobre o volume de conhecimento e produção que permaneceria efetivamente no Brasil.
Ministério da Defesa estuda compra conjunta de helicópteros para Exército, Marinha e FAB
A possível produção do H145M ocorre em um momento de renovação planejada da frota de helicópteros das Forças Armadas brasileiras.
Em 17 de agosto de 2026, o Ministério da Defesa publicou a Portaria EMCFA-MD nº 4.249, criando um grupo de trabalho para elaborar o conceito de operações conjunto de um futuro helicóptero multimissão.
A equipe reúne representantes do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.
O objetivo é estudar requisitos operacionais que possam atender às necessidades das três instituições.
Em manifestação à Folha, a FAB confirmou a existência desses estudos, mas informou que os modelos, as quantidades e os parâmetros de uma eventual aquisição ainda não haviam sido definidos.
O H145M aparece entre as possibilidades industriais estudadas para o país, embora não exista uma escolha oficial pelo equipamento.
A experiência alemã acrescenta um elemento às avaliações técnicas, especialmente nas configurações destinadas a operações armadas.
Os problemas relatados envolvem armamentos e requisitos específicos da encomenda alemã, mas mostram a complexidade de integrar uma aeronave multimissão a sistemas de ataque.
Para o Brasil, o debate também envolve a necessidade de definir quais equipamentos serão fabricados no país, quais sistemas poderão ser integrados pela indústria nacional e quais capacidades serão exigidas em uma eventual contratação.
Nova linha brasileira depende de encomendas enquanto Alemanha tenta superar atrasos
A Helibras se aproxima do encerramento de um dos principais programas de produção de helicópteros militares já realizados no Brasil.
O último H225M do contrato de 47 aeronaves tem entrega prevista entre o final de 2026 e o início de 2027, quando a fábrica de Itajubá deverá concluir o ciclo iniciado com o programa H-XBR.
A Airbus pretende aproveitar a estrutura industrial e os profissionais envolvidos na fabricação dessas aeronaves para iniciar uma nova etapa com a família H145.
A empresa também considera mercados civis, policiais e de atendimento aeromédico, além das possíveis encomendas militares.
Na Alemanha, a próxima etapa será superar as dificuldades de integração dos armamentos e avançar nos testes dos mísseis previstos para entrega a partir do final de 2027.
Já no Brasil, a futura linha de fabricação continua sem data oficial para começar, dependendo da definição dos contratos que poderão assegurar a produção das primeiras aeronaves.