A Justiça chilena decretou a prisão preventiva de dois militares bolivianos detidos em Colchane, na fronteira entre os países. A decisão, tomada na sexta-feira (6), trouxe uma revelação que amplia o caso: conversas recuperadas de celulares citam o deslocamento de 56 veículos pequenos e três caminhões por passagens não autorizadas entre Chile e Bolívia.
O episódio ocorreu na mesma comuna onde o Exército chileno concluiu 11,9 quilômetros de valas para dificultar travessias clandestinas. A detenção já havia sido noticiada, mas a nova decisão judicial acrescentou detalhes das mensagens, apresentou as acusações formais e fixou 120 dias para a investigação.
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Justiça revela mensagens sobre 56 veículos e três caminhões
O Poder Judicial do Chile informou que os dois militares trocaram mensagens pelo WhatsApp com pessoas ainda não identificadas entre 29 de outubro e 2 de novembro. Os contatos tratavam de horários, características dos veículos, condições do terreno e presença de luzes nos caminhos próximos à fronteira.
No dia 31 de outubro, um interlocutor mencionou a intenção de atravessar com três veículos grandes. Na conversa, um dos militares teria informado que dois já haviam passado e, por volta das 3h55, orientado o avanço dos demais.
A análise dos telefones apontou referências ao deslocamento de 56 veículos menores e três caminhões. As mensagens também continham orientações para desligar os faróis durante as travessias. São elementos apresentados pela acusação, ainda sujeitos à apuração e ao contraditório.
Caminhão roubado e armas levaram à investigação
Os militares foram detidos na noite de 2 de novembro no Salar de Coipasa, em território chileno, a mais de dois quilômetros da divisa. Carabineros vigiavam um caminhão basculante abandonado quando perceberam a aproximação de um jipe vindo da direção da Bolívia.
Ao receber ordem de fiscalização, o veículo fugiu. Dois ocupantes uniformizados tentaram escapar a pé, mas foram interceptados. A polícia encontrou uma pistola semiautomática, uma submetralhadora, munições e uma granada lacrimogênea.
O caminhão havia sido furtado de uma instalação na região de Camiña. Conforme a investigação, um dos suspeitos discutiu por mensagem a possibilidade de enviar um guincho ou trator para removê-lo em direção à Bolívia. O outro guardava no telefone uma fotografia georreferenciada do veículo.
Bolívia sustenta que militares cumpriam missão oficial
O relato das autoridades bolivianas é diferente. O comandante das Forças Armadas, general Víctor Hugo Balderrama, afirmou que os dois integravam uma força-tarefa de combate ao contrabando e estavam em missão respaldada por uma ordem de operações.
O ministro boliviano da Defesa, Ernesto Justiniano, procurou seu homólogo chileno, Fernando Barros, para tratar da detenção. A versão apresentada por La Paz consta de reportagens do Emol e do veículo boliviano Visión 360.
A justificativa boliviana não encerrou o processo no Chile, onde a Fiscalía apura suspeitas de contrabando, receptação de veículo e porte ilegal de armamento de uso bélico.
Fronteira já recebeu quase 12 quilômetros de valas
Colchane ganhou destaque em outubro depois que o governo chileno anunciou a conclusão de 11.900 metros de valas abertas pelo Exército. As escavações procuram dificultar o trânsito de veículos fora das passagens autorizadas, enquanto militares e policiais monitoram os acessos.

A obra e os resultados divulgados pelas autoridades foram detalhados em reportagem anterior da Sociedade Militar. Não há informação oficial de que os dois militares tenham atravessado os trechos escavados ou de que a prisão tenha relação direta com a eficácia dessas estruturas.
Prisão preventiva não representa condenação
O juiz Carlos Perasso Adunce determinou a prisão preventiva por considerar que a liberdade dos investigados representava risco à segurança da sociedade. O prazo de 120 dias foi estabelecido para a investigação, não como pena definitiva.
A primeira notícia sobre a detenção, publicada em 4 de novembro, registrava que a audiência decisiva ainda estava pendente. Agora, o processo avança com as mensagens telefônicas sob análise e duas versões conflitantes sobre a presença dos militares em solo chileno.