O Almirantado, alto comando da Marinha, já avisou ao governo federal por meio do Ministério da Defesa que os recursos previstos para 2027 são insuficientes para a continuidade do desenvolvimento do 1º submarino nuclear convencionalmente armado (SNCA) do país.
A informação foi divulgada primeiramente pelos jornalistas Vera Rosa e Marcelo Godoy, ambos do Estadão, em reportagem publicada em 30 de outubro.
Receba nossas notícias independentemente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
Segundo o PLOA 2027 (Projeto de Lei Orçamentária Anual), enviado pelo governo para o Congresso, o Comando da Marinha terá ao menos R$ 3,78 bilhões. O PLOA ainda precisa de aval dos deputados e senadores.
Do total previsto, R$ 388,77 milhões devem ir para a construção do submarino de propulsão nuclear e R$ 1,43 bilhão para o desenvolvimento de sistemas de tecnologia nuclear da Marinha, que tem ligação direta com o projeto.
Além disso, R$ 4,46 milhões estão previstos para o desenvolvimento do míssil nacional antinavio, R$ 247,98 milhões para a construção de submarinos convencionais e R$ 215,75 milhões para ações relacionadas à implantação de estaleiro e base naval para construção e manutenção de submarinos convencionais e nucleares.
De acordo com o Estadão, os Almirantes argumentaram que os recursos são insuficientes “para atender às necessidades associadas ao seu desenvolvimento, conforme planejado”, se referindo particularmente ao SNCA Álvaro Alberto.
Submarino nuclear consumiu R$ 649 milhões em 2025 e já é esperado há quase 50 anos
Com deslocamento 3 vezes superior aos convencionais, alcance extra de profundidade, maior capacidade de comportar tripulação e autonomia energética praticamente ilimitada, o submarino nuclear brasileiro é esperado há pelo menos 47 anos e, só em 2025, consumiu mais de R$ 649 milhões.
Quando o lançamento do submarino nuclear acontecer, o que estava previsto para 2025 mas já foi adiado para 2038, o Brasil poderá se tornar o 1º país sem armas nucleares a desenvolver um submarino nuclear por contra própria.
A possibilidade do feito inédito coloca o Brasil sob pressão política das potências nucleares (Rússia, China, EUA, França e Reino Unido), algo admitido recentemente – e sob reserva – por militares das Forças Armadas.
A preocupação do regime internacional de não proliferação é evitar que materiais nucleares originalmente destinados à propulsão naval sejam desviados para a fabricação de armas. Nesse sentido, as potências querem tornar a inspeção internacional mais rígida.
O Brasil, no entanto, resiste a esse protocolo pelo fato de ele colocar em risco os segredos industriais nacionais relacionados à tecnologia das centrífugas a gás da Marinha do Brasil.
Apesar de desenvolver o programa do submarino nuclear brasileiro em parceria com a França, por meio da Naval Group, o Brasil mantém sob controle nacional a tecnologia nuclear que dará propulsão ao submarino.
O acordo de transferência de tecnologia com os franceses não incluiu o reator nuclear nem o ciclo do combustível, desenvolvidos pela Marinha brasileira.
Diferentemente de países como Austrália e Coreia do Sul, o Brasil não tem nenhuma grande potência por trás do projeto. A Austrália tem apoio dos EUA e do Reino Unido. Já a República da Coreia tem apoio dos EUA.
Submarino nuclear parado, submarinos convencionais lançados
Enquanto o 1º submarino nuclear brasileiro engatinha, o lançamento dos submarinos convencionais, com propulsão diesel-elétrica, segue a todo vapor.
A Marinha já lançou ao mar os 4 submarinos convencionais da classe Riachuelo frutos do acodo com a França. O último deles, Almirante Karam (S43), foi lançado ao mar em novembro de 2025 e tem previsão de entrar em operação no 2º semestre de 2027. Os outros 3 (Richuelo, Tonelero e Humaitá) já foram incorporados à frota.
Sabendo que 4 submarinos convencionais não serão suficientes para vigiar 100% das águas jurisdicionais brasileiras, a Marinha tem planos de construir 2 submarinos convencionais extras ao fim do contrato com a Naval Group.
De acordo com o IISS, um dos centros de estudos estratégicos em defesa mais respeitados do mundo, entre 2021 e 2025 o Brasil lançou 4.400 toneladas combinadas de submarinos (soma do “peso” de todos os submarinos que um país lançou ao mar num período), sendo nenhuma nuclear.
No mesmo período, a China lançou 79 mil toneladas e os EUA mais de 55 mil. O Brasil segue como a maior potência naval da América do Sul.