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EUA negociam presença militar prolongada na Venezuela, país com 2.199 km de fronteira com o Brasil, enquanto Washington amplia contatos com Caracas e afasta discussão sobre bases permanentes

EUA e Venezuela negociam acordo que pode abrir caminho para presença militar americana de longo prazo. Brasil compartilha 2.199 km de fronteira com o país, e Washington afirma que bases militares ainda não estão em discussão.

Marcos
Por Marcos 04/11/2026 às 20:51
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EUA negociam presença militar prolongada na Venezuela, país com 2.199 km de fronteira com o Brasil, enquanto Washington amplia contatos com Caracas e afasta discussão sobre bases permanentes

Os Estados Unidos negociam um acordo militar com a Venezuela que poderá abrir caminho para a presença de tropas americanas por um período prolongado no país. A iniciativa envolve um vizinho que compartilha 2.199 quilômetros de fronteira com o Brasil e surge dez meses depois da operação americana que capturou Nicolás Maduro em Caracas.

As conversas são conduzidas pelo Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio, e foram reveladas pelo jornal The New York Times em reportagem de 3 de novembro. O objetivo imediato é definir as regras para atividades de militares dos EUA em território venezuelano. Quantidade de soldados, locais de atuação e duração de possíveis missões dependeriam de outros entendimentos.

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A informação surge em um momento de aproximação inesperada entre Washington e Caracas. O governo interino de Delcy Rodríguez, que assumiu após a captura de Maduro em 3 de janeiro, mantém negociações políticas e econômicas com os americanos, enquanto o Comando Sul procura ampliar suas atividades de cooperação na América do Sul.

Acordo discutido por Washington poderia permitir militares americanos em território venezuelano

O instrumento em negociação é conhecido como acordo sobre o estatuto das forças, ou SOFA, na sigla em inglês. Esse tipo de pacto define as condições jurídicas para a presença temporária ou prolongada de militares estrangeiros em um país parceiro, incluindo regras de entrada, permanência e realização de missões autorizadas.

Aeronave militar MV-22B Osprey, do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, sobrevoa Caracas, na Venezuela, em 23 de maio de 2026, durante operação de treinamento e resposta a emergências na Embaixada americana. O modelo possui rotores basculantes que permitem decolagens verticais como um helicóptero e voo em alta velocidade como um avião. Fonte: US Marine Corps

Segundo a reportagem, autoridades americanas afirmaram que o documento poderia facilitar visitas de navios militares, treinamentos, exercícios combinados e ações de assistência humanitária. O Departamento de Estado informou que os EUA já negociaram acordos dessa natureza com mais de 100 países, embora a dimensão da presença militar varie muito de um parceiro para outro.

A negociação ocorre enquanto ambos os governos ainda discutem o futuro das relações bilaterais. Um funcionário americano de alto escalão afirmou ao jornal que não há conversas em andamento para instalar bases militares dos EUA na Venezuela. A eventual distribuição de tropas em instalações venezuelanas também continua sem definição pública.

Brasil divide 2.199 quilômetros de fronteira com a Venezuela e tem passagem terrestre em Pacaraima

A dimensão brasileira aparece no mapa. De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, a Venezuela compartilha com o Brasil a terceira maior fronteira terrestre do país: são 2.199 quilômetros, distribuídos entre Roraima e Amazonas.

A principal ligação rodoviária internacional passa pelas cidades de Pacaraima, em Roraima, e Santa Elena de Uairén, na Venezuela. Outro ponto de conexão fica em Cucuí, no Amazonas, próximo à tríplice fronteira com a Colômbia, com acesso por vias fluviais. Boa parte dessa divisa atravessa áreas remotas de floresta e serras, distantes das maiores cidades.

Os detalhes de um possível acordo militar entre EUA e Venezuela são relevantes para o acompanhamento da segurança regional, mas até 4 de novembro não havia anúncio de tropas americanas sendo deslocadas para a região próxima a Roraima. O texto em negociação estabelece possibilidades jurídicas; seus efeitos concretos dependerão das missões e dos lugares que vierem a ser autorizados.

Na faixa de fronteira, o Brasil mantém presença permanente do Exército e estruturas de fiscalização, além da Operação Acolhida, voltada ao atendimento humanitário de migrantes. O reforço do monitoramento militar brasileiro em Roraima já havia sido registrado depois da captura de Maduro. Dados divulgados pelo governo federal apontaram que, nos 13 primeiros dias de janeiro de 2026, as entradas de venezuelanos por Pacaraima caíram de 2.121, em 2025, para 1.014, em 2026, no mesmo intervalo.

Estados Unidos já enviaram cerca de 2 mil militares durante terremotos e reativaram destacamento em Caracas

As discussões atuais têm antecedentes concretos. Segundo informações apresentadas pelo comandante do Comando Sul ao New York Times, os Estados Unidos mobilizaram aproximadamente 2 mil militares para a Venezuela e seus arredores em junho, durante a resposta aos terremotos que devastaram o país. Os soldados que entraram em território venezuelano participaram daquela missão e já saíram.

Em 16 de outubro, a embaixada americana em Caracas reativou oficialmente um destacamento de segurança do Corpo de Fuzileiros Navais, responsável pela proteção da representação diplomática. A medida foi noticiada pelo portal especializado Infodefensa, que destacou a diferença entre uma equipe de segurança diplomática e uma força de combate mobilizada para operações externas.

A aproximação militar também começou meses antes da discussão sobre o SOFA. Em 3 de junho, o general Dan Caine, presidente do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, visitou oficialmente Caracas e manteve reuniões com integrantes do governo interino. O próprio Estado-Maior americano confirmou que ele passou pela embaixada e conheceu a unidade de segurança dos marines.

General Dan Caine, de uniforme azul, conversa com fuzileiros navais responsáveis pela segurança da embaixada dos Estados Unidos em Caracas.
O general Dan Caine, presidente do Estado-Maior Conjunto dos EUA, conversa com fuzileiros navais na embaixada americana em Caracas durante visita oficial em 3 de junho de 2026. Foto: Chief Petty Officer James Mullen/Departamento de Defesa dos EUA (domínio público).

Rubio recebe novo chanceler venezuelano após quase dez meses de reviravolta diplomática

Em 2 de novembro, Marco Rubio recebeu em Washington o novo ministro das Relações Exteriores venezuelano, Oliver Blanco. Na nota oficial divulgada após o encontro, o Departamento de Estado descreveu discussões sobre reconciliação política, reformas institucionais, futuras eleições e libertação de presos políticos. A reunião foi uma das principais demonstrações públicas do restabelecimento das relações diplomáticas.

A agenda militar ocorre em paralelo a essas negociações. O governo Rodríguez, que anteriormente integrava a administração de Nicolás Maduro, passou a manter contatos frequentes com representantes do governo Donald Trump. A possibilidade de uma presença duradoura de militares estrangeiros, porém, permanece sensível dentro das Forças Armadas venezuelanas e entre setores que criticam a influência americana no país.

O encontro de Rubio e Blanco aconteceu um dia antes de a nova negociação militar ganhar repercussão internacional. As conversas sobre regras de atuação das tropas devem passar por novas etapas, incluindo a definição de quais atividades seriam autorizadas e que organismos dos dois países teriam responsabilidade sobre sua execução.

Próximo passo será definir que tipo de missão poderá ocorrer perto ou longe das fronteiras

A Venezuela possui saída para o mar do Caribe e faz fronteira com Brasil, Colômbia e Guiana. Essa posição permite diferentes possibilidades logísticas para operações de treinamento, assistência, deslocamento naval e cooperação com governos vizinhos. A escolha de qualquer local para futuras missões, entretanto, ainda depende de decisões que não foram anunciadas.

A movimentação militar americana no entorno do Brasil já vinha sendo acompanhada em outubro, com voos na Venezuela e atividades de cooperação em outros países da região. Os governos também enfrentariam obstáculos operacionais. A reportagem do New York Times aponta limitações de infraestrutura e o longo período de distanciamento entre as forças militares americanas e venezuelanas. O pacto jurídico, caso seja concluído, seria apenas uma das etapas necessárias para estabelecer presença regular de pessoal militar.

Para o Brasil, o acompanhamento das negociações interessa sobretudo à vigilância da fronteira amazônica de 2.199 quilômetros e aos contatos diplomáticos com países vizinhos. O próximo fato decisivo será a eventual assinatura do acordo e a divulgação das missões e localidades autorizadas. Até agora, o governo americano informou que as discussões sobre bases militares permanentes permanecem fora da pauta imediata.

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