A rejeição do Brasil ao Escudo das Américas, projeto personalista de Donald Trump de combate ao crime organizado na América Latina e Caribe, significa a imposição de um limite à presença militar dos EUA na região. A avaliação é de Mônica Herz, professora do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio.
“O sucesso eleitoral do atual presidente [Lula] representa uma ameaça ao projeto de construção de uma zona de influência dos EUA na América Latina e, mais particularmente, na América do Sul”, argumentou Herz, ainda antes da derrota massacrante de Trump nas midterms (as eleições de meio de mandato dos EUA que resultarão em um Congresso dominado pelos democratas, em oposição a Trump).
Receba nossas notícias independentemente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
Junto com outros 3 especialistas em Relações Internacionais, segurança e política, Herz participou em 29 de outubro de um seminário promovido pelo IISS, um dos centros de estudos estratégicos em defesa mais respeitados do mundo, para comentar as implicações estratégicas e geopolíticas do resultado das eleições brasileiras.
Militares brasileiros poderiam resistir à entrada de Brasil na coalizão
Segundo a professora da PUC-Rio, os EUA têm atualmente uma tendência ampla de definir sua zona de influência com uso da violência, da presença militar e do uso de recursos militares não apenas contra criminosos, mas também contra a soberania de países latino-americanos.
Irene Mia, editora do Armed Conflict Survey e pesquisadora sênior para a América Latina, publicou no próprio IISS em 12 de outubro uma análise sobre as consequências de uma eventual participação do Brasil no Escudo das Américas e apontou riscos ocultos nos termos de adesão à coalizão.
De um lado, o Brasil poderia estar mais equipado com ferramentas e recursos adicionais para combater o crime organizado, como os drones gigantes armados enviados à Colômbia e o Equador, e facilitar a relação diplomática com governos regionais da extrema direita. Por outro, os termos da cooperação poderiam limitar a capacidade de Brasília de manter autonomia estratégica e preservar parcerias diversificadas.
“É improvável que os EUA intervenham em território brasileiro, especialmente considerando a longa cooperação em inteligência e aplicação da lei, que se manteve durante o governo Lula. Contudo, se a experiência passada serve de indicação para a política futura, Washington provavelmente exigirá um alinhamento mais estreito do Brasil com sua agenda geopolítica, notadamente em relação às relações com potências externas, o Sul Global e os membros do BRICS, bem como na gestão de seus vastos recursos minerais críticos”.
Irene Mia argumentou na ocasião que grupos influentes do Brasil, incluindo setores das Forças Armadas, provavelmente resistiriam a medidas que permitam interferência externa ou prejudiquem a autonomia estratégica de Brasília.
Mônica Herz também citou o real pano de fundo para a existência do Escudo das Américas.
“É claro que isso [Escudo das Américas] faz parte de uma disputa por influência na região, particularmente pela influência que foi adquirida pelo governo chinês. E, naturalmente, essa disputa continuará sendo um elemento central da geopolítica da região”.
As falas de Mônica Herz e de Irene Mia encontram respaldo na própria Estratégia de Defesa dos EUA. O documento, divulgado em novembro de 2025, diz expressamente que o país considera todo o Hemisfério Ocidental zona de influência norte-americana e que vai negar acesso (econômico, político e militar) de potências extrarregionais, notadamente a China, a países da América Latina, Caribe e partes da África e Europa.
Rejeição ao Escudo das Américas é benéfica para o Brasil
Para Mônica Herz, a rejeição ao Escudo das Américas é, em geral, benéfica ao Brasil. O governo Lula não pretende aderir ao grupo, diferentemente de Flávio Bolsonaro, que tinha como promessa de campanha se aliar ao bloco que tem nações como Paraguai, Bolívia, Argentina, Chile e Equador entre os membros.
“Isso [a rejeição ao Escudo das Américas] permite que o governo brasileiro tenha uma postura mais autônoma e criativa em relação a essa disputa, em vez de aceitar uma forma hierárquica de relacionamento com o governo americano”.
Herz lembra que o Brasil tem uma concepção de defesa diferente da adotada pelos países governados atualmente pela extrema direita na região latino-americana.
“[A rejeição ao Escudo das Américas] permite a continuação de um tipo diferente de cooperação internacional, baseada em normas mutuamente acordadas, no respeito pela soberania dos Estados e pelas escolhas dos diferentes governos”.
Apesar do Escudo das Américas ter 19 membros (incluindo os norte-americanos), apenas 5 deles aceitaram a presença de militares dos EUA em seu território: Equador, Colômbia, Jamaica, Honduras e Guatemala.
O tema é polêmico e encontra bastante resistência em países mais nacionalistas, como o próprio Brasil.
Tanto que, após o governo dos EUA anunciar que a Guatemala havia concordado com ataques conjuntos contra organizações criminosas em seu território, o presidente do país negou que tivesse autorizado operações militares americanas e afirmou que a Constituição do país sequer permite esse tipo de ação.
Em entrevista à Folha de São Paulo, a General de Divisão da reserva do Exército dos EUA, Dustin Shultz, disse que, caso o Brasil venha a aderir ao Escudo das Américas, o movimento terá que ser acompanhado de princípios claros que preservem sua autonomia.
“O Brasil deve poder dizer: Sim, vamos fazer isso, mas, ao aderir, não estamos abrindo mão da nossa soberania nacional para tomar decisões sobre o que acontece dentro do nosso país”, aconselhou a General, cujo último cargo militar foi o de diretora de inteligência do Comando Sul dos EUA (Southcom), justamente a unidade militar responsável pela relação com a América Latina e o Caribe.
O que Brasil vai fazer fora do Escudo das Américas?
Ainda que esteja fora, por ora, do Escudo das Américas de Donald Trump, o governo brasileiro já caminhava para uma maior cooperação na área de segurança, de acordo com os especialistas presentes no seminário do IISS.
Mônica Herz citou, por exemplo, o Ministério da Segurança Pública, que será criado para lidar com o crime organizado em nível federal.
Segundo a professora da PUC-Rio, a cooperação internacional na área da segurança é “absolutamente crucial”, por mais que, na prática, costume ser mais difícil, já que os países tendem a proteger sua soberania na esfera de segurança.
Ela não acredita, por fim, que a ausência do Brasil no Escudo das Américas será facilmente contornável e defendeu mais recursos para o combate às facções e outros grupos que cometem crimes transnacionais, como extração ilegal de minério e madeira e tráfico de armas e drogas.
“É claro que um investimento muito maior precisa ser feito e existem desafios relacionados ao fato de governos de extrema direita estarem no poder em muitos países da América Latina”.