O risco de facções criminosas e milícias conquistarem representação no Congresso Nacional entrou no debate sobre a reforma eleitoral brasileira. O deputado federal João Carlos Bacelar (PV-BA) advertiu que a adoção do voto distrital misto, defendida pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), pode favorecer a eleição de candidatos ligados a organizações criminosas. A preocupação é que grupos armados transformem o controle de comunidades em influência direta sobre a escolha de parlamentares.
A denúncia, divulgada em 3 de novembro de 2026, ocorre enquanto lideranças partidárias articulam mudanças nas regras eleitorais. Segundo Bacelar, a criação de distritos em regiões dominadas pelo crime organizado poderia favorecer a intimidação de eleitores, impedir campanhas adversárias e beneficiar candidatos alinhados aos interesses dessas organizações.
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O alerta ganha relevância diante de um relatório oficial da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), que já identificou mecanismos de interferência de facções e milícias nas eleições brasileiras.
Facções podem transformar domínio territorial em cadeiras no Congresso
Em declarações divulgadas pelo MundoBA em 3 de novembro, João Carlos Bacelar questionou os efeitos que a mudança eleitoral poderia provocar em regiões onde organizações criminosas armadas exercem controle territorial.
“Quem controla o território pode tentar controlar o voto”, afirmou o parlamentar.

O mecanismo apontado pelo deputado envolve uma situação concreta: se uma comunidade submetida ao domínio de facções ou milícias integrar um distrito eleitoral, o grupo criminoso poderá tentar utilizar seu poder sobre os moradores para favorecer determinados candidatos.
A influência poderia ocorrer por meio de ameaças, restrições à circulação de adversários políticos e pressão sobre eleitores, comprometendo a liberdade de escolha da população.
Bacelar reconhece que a divisão do território em distritos menores pode aproximar representantes e cidadãos, além de facilitar a fiscalização dos mandatos. Entretanto, questiona como essa fiscalização funcionaria em comunidades onde moradores têm medo de denunciar irregularidades ou contrariar grupos armados.
Para o deputado, uma reforma eleitoral não pode desconsiderar a existência de territórios submetidos ao poder de organizações criminosas. A preocupação ultrapassa a interferência nas campanhas: envolve a possibilidade de essas estruturas ampliarem sua influência sobre as decisões do Estado.
Nesse cenário, o controle armado de comunidades poderia se transformar em uma vantagem eleitoral para candidatos favorecidos pelo crime organizado.
A advertência não significa que a reforma já tenha produzido esse resultado. Trata-se de um risco apontado por Bacelar diante de uma proposta ainda em discussão no Congresso.
ABIN identifica financiamento de campanhas, coação de eleitores e candidatos indicados pelo crime organizado
A preocupação apresentada pelo deputado encontra respaldo em uma avaliação oficial sobre a interferência de organizações criminosas no processo eleitoral brasileiro.
No relatório Desafios de Inteligência — Edição 2026, página 70, publicado em dezembro de 2025, a ABIN descreve como facções e milícias podem exercer influência política em regiões onde mantêm estruturas de poder paralelo.
O documento identifica financiamento de campanhas eleitorais, coação de eleitores e indicação de candidatos próprios entre os mecanismos utilizados por essas organizações.

A agência também alerta que essa interferência pode chegar, em situações extremas, à eliminação de adversários políticos.
Segundo a avaliação de inteligência, a penetração da criminalidade na política compromete a representação democrática e ameaça as instituições ao permitir que interesses criminosos alcancem estruturas do Estado.
O relatório não analisa especificamente o voto distrital misto defendido por Hugo Motta. Entretanto, documenta mecanismos de influência eleitoral que ajudam a contextualizar o risco apontado por Bacelar.
A ameaça também levou o Ministério Público Eleitoral a adotar medidas preventivas durante as eleições de 2026.
Em orientação nacional divulgada em 26 de junho, o órgão recomendou que partidos políticos estabelecessem procedimentos para identificar possíveis vínculos entre filiados, pré-candidatos e organizações criminosas.
Entre as medidas sugeridas estão a apresentação de certidões criminais, a análise de vínculos territoriais e a verificação da compatibilidade patrimonial de pré-candidatos. O Ministério Público também orientou as legendas a comunicar suspeitas de financiamento ilícito ou interferência de facções.
A preocupação, portanto, não está restrita ao debate parlamentar. A possibilidade de organizações criminosas influenciarem candidaturas já mobiliza órgãos responsáveis pela fiscalização eleitoral.
Um exemplo concreto surgiu no Ceará. Em 28 de julho de 2026, a Polícia Federal deflagrou a Operação Coactio, com seis mandados de busca e apreensão, para investigar a possível utilização de integrantes de uma organização criminosa na coação de eleitores durante as eleições municipais de 2024, em Ocara.
A investigação apura suspeitas de corrupção eleitoral, coação de votantes e associação criminosa. Os procedimentos investigativos não representam condenação dos envolvidos.
O envolvimento de pessoas investigadas por narcotráfico com a política também provocou repercussão na Argentina. Em 2025, o empresário Federico “Fred” Machado, então acusado nos Estados Unidos de crimes relacionados ao tráfico de drogas e à lavagem de dinheiro, reconheceu ter financiado atividades da campanha presidencial de José Luis Espert em 2019. Separadamente, Espert admitiu ter recebido US$ 200 mil de uma empresa vinculada ao empresário, alegando que o pagamento correspondia a serviços profissionais. Uma investigação do jornal La Nación revelou a existência de um contrato de assessoria no valor de US$ 1 milhão, firmado em junho de 2019. O episódio, distinto do controle territorial exercido por facções brasileiras, ilustra como relações financeiras com pessoas investigadas por narcotráfico podem alcançar campanhas e figuras da política nacional.
Hugo Motta quer votar reforma eleitoral enquanto Congresso discute criação de distritos
A denúncia de Bacelar ocorre em meio às negociações para modificar o sistema de eleição de deputados e vereadores no Brasil.
Em 28 de outubro, Hugo Motta anunciou que pretende discutir e votar ainda em 2026 a adoção do voto distrital misto, conforme comunicado oficial da Câmara dos Deputados.
O modelo combina a eleição de representantes por distritos territoriais com uma parcela de cadeiras preenchida por meio de listas ou votos partidários. A proposta abrange deputados federais, deputados estaduais e vereadores, sem alterar a eleição de senadores.
Pelo calendário apresentado por Motta, a transição começaria em 2030, com implementação integral do sistema prevista para 2034.
Entretanto, as regras ainda estão sendo negociadas.
Uma reportagem da CNN Brasil publicada em 4 de novembro revelou que lideranças do Centrão estudam utilizar inicialmente os próprios estados como distritos eleitorais em 2030, deixando a divisão em distritos menores para 2034.
A alternativa busca superar resistências parlamentares, mas ainda não representa uma decisão definitiva.
Os defensores do voto distrital misto argumentam que a mudança pode aproximar eleitores e representantes, fortalecer a identificação dos parlamentares com determinadas regiões e combinar representação territorial com participação partidária.
Bacelar, porém, aponta uma vulnerabilidade específica: o risco de que organizações criminosas com domínio sobre comunidades utilizem essa influência territorial para favorecer a eleição de representantes políticos.
Até o momento, não há demonstração de que a reforma produzirá esse resultado. A definição dos distritos, os mecanismos de fiscalização e as garantias de liberdade eleitoral serão elementos importantes para avaliar as preocupações levantadas.
O debate, portanto, ultrapassa a escolha de um novo sistema de votação. A questão apresentada pelo deputado é se o Brasil conseguirá impedir que facções e milícias transformem a intimidação de comunidades em influência sobre a composição do Poder Legislativo.
Bacelar resumiu a ameaça que, segundo ele, precisa ser considerada antes de qualquer mudança nas regras eleitorais:
“Seria permitir que o poder das armas avançasse sobre o poder das urnas.”