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Facções e milícias podem ganhar cadeiras no Congresso, alerta deputado federal

Reforma eleitoral defendida por Hugo Motta provoca alerta sobre avanço do crime organizado na política; ABIN já identificou coação de eleitores.

Facções e milícias podem ganhar cadeiras no Congresso, alerta deputado federal
Blindado do CORE diante de barricadas em chamas durante a Operação Contenção, no Rio de Janeiro, em 2025. Foto: CanalGov Foto: CanalGov

O risco de facções criminosas e milícias conquistarem representação no Congresso Nacional entrou no debate sobre a reforma eleitoral brasileira. O deputado federal João Carlos Bacelar (PV-BA) advertiu que a adoção do voto distrital misto, defendida pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), pode favorecer a eleição de candidatos ligados a organizações criminosas. A preocupação é que grupos armados transformem o controle de comunidades em influência direta sobre a escolha de parlamentares.

A denúncia, divulgada em 3 de novembro de 2026, ocorre enquanto lideranças partidárias articulam mudanças nas regras eleitorais. Segundo Bacelar, a criação de distritos em regiões dominadas pelo crime organizado poderia favorecer a intimidação de eleitores, impedir campanhas adversárias e beneficiar candidatos alinhados aos interesses dessas organizações.

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O alerta ganha relevância diante de um relatório oficial da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), que já identificou mecanismos de interferência de facções e milícias nas eleições brasileiras.

Facções podem transformar domínio territorial em cadeiras no Congresso

Em declarações divulgadas pelo MundoBA em 3 de novembro, João Carlos Bacelar questionou os efeitos que a mudança eleitoral poderia provocar em regiões onde organizações criminosas armadas exercem controle territorial.

“Quem controla o território pode tentar controlar o voto”, afirmou o parlamentar.

Deputado federal João Carlos Bacelar (PV-BA) durante pronunciamento em comissão da Câmara dos Deputados
Deputado federal João Carlos Bacelar (PV-BA) durante reunião na Câmara dos Deputados. Foto: Vinicius Loures / Câmara dos Deputados

O mecanismo apontado pelo deputado envolve uma situação concreta: se uma comunidade submetida ao domínio de facções ou milícias integrar um distrito eleitoral, o grupo criminoso poderá tentar utilizar seu poder sobre os moradores para favorecer determinados candidatos.

A influência poderia ocorrer por meio de ameaças, restrições à circulação de adversários políticos e pressão sobre eleitores, comprometendo a liberdade de escolha da população.

Bacelar reconhece que a divisão do território em distritos menores pode aproximar representantes e cidadãos, além de facilitar a fiscalização dos mandatos. Entretanto, questiona como essa fiscalização funcionaria em comunidades onde moradores têm medo de denunciar irregularidades ou contrariar grupos armados.

Para o deputado, uma reforma eleitoral não pode desconsiderar a existência de territórios submetidos ao poder de organizações criminosas. A preocupação ultrapassa a interferência nas campanhas: envolve a possibilidade de essas estruturas ampliarem sua influência sobre as decisões do Estado.

Nesse cenário, o controle armado de comunidades poderia se transformar em uma vantagem eleitoral para candidatos favorecidos pelo crime organizado.

A advertência não significa que a reforma já tenha produzido esse resultado. Trata-se de um risco apontado por Bacelar diante de uma proposta ainda em discussão no Congresso.

ABIN identifica financiamento de campanhas, coação de eleitores e candidatos indicados pelo crime organizado

A preocupação apresentada pelo deputado encontra respaldo em uma avaliação oficial sobre a interferência de organizações criminosas no processo eleitoral brasileiro.

No relatório Desafios de Inteligência — Edição 2026, página 70, publicado em dezembro de 2025, a ABIN descreve como facções e milícias podem exercer influência política em regiões onde mantêm estruturas de poder paralelo.

O documento identifica financiamento de campanhas eleitorais, coação de eleitores e indicação de candidatos próprios entre os mecanismos utilizados por essas organizações.

Maços de dinheiro em espécie apreendidos pela Polícia Federal durante ações relacionadas às eleições de 2026 no Ceará
Dinheiro apreendido pela Polícia Federal durante ações de combate a crimes eleitorais no Ceará, em outubro de 2026. As operações resultaram na apreensão de R$ 1,09 milhão em espécie. Foto: Polícia Federal / Divulgação

A agência também alerta que essa interferência pode chegar, em situações extremas, à eliminação de adversários políticos.

Segundo a avaliação de inteligência, a penetração da criminalidade na política compromete a representação democrática e ameaça as instituições ao permitir que interesses criminosos alcancem estruturas do Estado.

O relatório não analisa especificamente o voto distrital misto defendido por Hugo Motta. Entretanto, documenta mecanismos de influência eleitoral que ajudam a contextualizar o risco apontado por Bacelar.

A ameaça também levou o Ministério Público Eleitoral a adotar medidas preventivas durante as eleições de 2026.

Em orientação nacional divulgada em 26 de junho, o órgão recomendou que partidos políticos estabelecessem procedimentos para identificar possíveis vínculos entre filiados, pré-candidatos e organizações criminosas.

Entre as medidas sugeridas estão a apresentação de certidões criminais, a análise de vínculos territoriais e a verificação da compatibilidade patrimonial de pré-candidatos. O Ministério Público também orientou as legendas a comunicar suspeitas de financiamento ilícito ou interferência de facções.

A preocupação, portanto, não está restrita ao debate parlamentar. A possibilidade de organizações criminosas influenciarem candidaturas já mobiliza órgãos responsáveis pela fiscalização eleitoral.

Um exemplo concreto surgiu no Ceará. Em 28 de julho de 2026, a Polícia Federal deflagrou a Operação Coactio, com seis mandados de busca e apreensão, para investigar a possível utilização de integrantes de uma organização criminosa na coação de eleitores durante as eleições municipais de 2024, em Ocara.

A investigação apura suspeitas de corrupção eleitoral, coação de votantes e associação criminosa. Os procedimentos investigativos não representam condenação dos envolvidos.

O envolvimento de pessoas investigadas por narcotráfico com a política também provocou repercussão na Argentina. Em 2025, o empresário Federico “Fred” Machado, então acusado nos Estados Unidos de crimes relacionados ao tráfico de drogas e à lavagem de dinheiro, reconheceu ter financiado atividades da campanha presidencial de José Luis Espert em 2019. Separadamente, Espert admitiu ter recebido US$ 200 mil de uma empresa vinculada ao empresário, alegando que o pagamento correspondia a serviços profissionais. Uma investigação do jornal La Nación revelou a existência de um contrato de assessoria no valor de US$ 1 milhão, firmado em junho de 2019. O episódio, distinto do controle territorial exercido por facções brasileiras, ilustra como relações financeiras com pessoas investigadas por narcotráfico podem alcançar campanhas e figuras da política nacional.

Hugo Motta quer votar reforma eleitoral enquanto Congresso discute criação de distritos

A denúncia de Bacelar ocorre em meio às negociações para modificar o sistema de eleição de deputados e vereadores no Brasil.

Em 28 de outubro, Hugo Motta anunciou que pretende discutir e votar ainda em 2026 a adoção do voto distrital misto, conforme comunicado oficial da Câmara dos Deputados.

O modelo combina a eleição de representantes por distritos territoriais com uma parcela de cadeiras preenchida por meio de listas ou votos partidários. A proposta abrange deputados federais, deputados estaduais e vereadores, sem alterar a eleição de senadores.

Pelo calendário apresentado por Motta, a transição começaria em 2030, com implementação integral do sistema prevista para 2034.

Entretanto, as regras ainda estão sendo negociadas.

Uma reportagem da CNN Brasil publicada em 4 de novembro revelou que lideranças do Centrão estudam utilizar inicialmente os próprios estados como distritos eleitorais em 2030, deixando a divisão em distritos menores para 2034.

A alternativa busca superar resistências parlamentares, mas ainda não representa uma decisão definitiva.

Os defensores do voto distrital misto argumentam que a mudança pode aproximar eleitores e representantes, fortalecer a identificação dos parlamentares com determinadas regiões e combinar representação territorial com participação partidária.

Bacelar, porém, aponta uma vulnerabilidade específica: o risco de que organizações criminosas com domínio sobre comunidades utilizem essa influência territorial para favorecer a eleição de representantes políticos.

Até o momento, não há demonstração de que a reforma produzirá esse resultado. A definição dos distritos, os mecanismos de fiscalização e as garantias de liberdade eleitoral serão elementos importantes para avaliar as preocupações levantadas.

O debate, portanto, ultrapassa a escolha de um novo sistema de votação. A questão apresentada pelo deputado é se o Brasil conseguirá impedir que facções e milícias transformem a intimidação de comunidades em influência sobre a composição do Poder Legislativo.

Bacelar resumiu a ameaça que, segundo ele, precisa ser considerada antes de qualquer mudança nas regras eleitorais:

“Seria permitir que o poder das armas avançasse sobre o poder das urnas.”

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