A pressão dos Estados Unidos por mais gastos militares na América Latina ganha destaque após a derrota eleitoral de Donald Trump, que deixará de contar com maiorias republicanas nas duas casas do Congresso a partir de janeiro de 2027. Enquanto Washington busca ampliar os compromissos de segurança de seus aliados, o Brasil permanece fora da coalizão regional liderada pelos norte-americanos e aposta na fabricação de caças, fragatas e aeronaves militares para fortalecer sua soberania. Entretanto, restrições orçamentárias e dependência tecnológica colocam limites às ambições brasileiras.
Trump perde controle do Congresso e EUA pressionam aliados por mais gastos militares
As eleições legislativas de 3 de novembro de 2026 mudaram o cenário político dos Estados Unidos. Os democratas conquistaram pelo menos 54 cadeiras no Senado e ganharam ao menos 30 cadeiras na Câmara dos Representantes, assegurando o controle das duas casas a partir de janeiro.
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Segundo a Reuters, o descontentamento com a guerra contra o Irã, o aumento do custo de vida e as políticas econômicas do governo contribuíram para a derrota republicana. O resultado amplia a capacidade da oposição de fiscalizar a administração Trump e negociar gastos públicos, incluindo recursos destinados à defesa.
Foi nesse contexto que o Center for Strategic and International Studies (CSIS), centro de estudos sediado em Washington, promoveu, em 4 de novembro, um debate sobre a modernização das Forças Armadas sul-americanas.
Na apresentação oficial, o instituto destacou que os Estados Unidos pressionam integrantes do Shield of the Americas a aumentar seus gastos militares, principalmente para enfrentar organizações criminosas no continente.
A iniciativa, lançada em março, ganhou novo impulso em setembro, quando Washington divulgou uma declaração conjunta com 14 países latino-americanos e caribenhos, incluindo Argentina, Chile, Colômbia, Paraguai e Peru.
O Brasil não aparece entre os signatários, embora mantenha relações de cooperação militar com os Estados Unidos. A ausência não significa, por si só, uma ruptura diplomática ou uma recusa formal às exigências de Washington.
A pressão norte-americana antecede as eleições. Entretanto, o novo equilíbrio de forças no Congresso poderá trazer disputas sobre financiamento e prioridades estratégicas, justamente quando os EUA procuram ampliar sua influência militar regional.
Brasil fica fora da coalizão e aposta na fabricação de caças, fragatas e aeronaves militares

Enquanto Washington busca maiores compromissos de seus parceiros, o Brasil desenvolve projetos para ampliar sua capacidade industrial e reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros.
Na Força Aérea Brasileira, o principal exemplo é o F-39 Gripen. Em 6 de outubro, o primeiro caça produzido no país realizou seu voo inaugural em Gavião Peixoto, São Paulo. A parceria entre Saab e Embraer prevê a fabricação de 15 aeronaves em território brasileiro, dentro do contrato de 36 unidades.
Na Marinha, o Programa Fragatas Classe Tamandaré contempla quatro navios de guerra construídos em Itajaí, Santa Catarina, com participação da indústria nacional, transferência de tecnologia e conteúdo local crescente.
Os resultados começam a aparecer. A segunda fragata da classe, Jerônimo de Albuquerque (F201), iniciou uma campanha de 46 dias de testes no Atlântico, conforme noticiado em 4 de novembro.
Outro exemplo é o KC-390 Millennium, aeronave de transporte militar desenvolvida pela Embraer e comercializada internacionalmente.
Esses programas demonstram capacidade industrial brasileira, mas não representam independência tecnológica completa. Motores, sistemas eletrônicos e componentes especializados ainda podem depender de fabricantes estrangeiros.
Portanto, fortalecer a soberania exige não apenas produzir equipamentos no Brasil, mas também dominar tecnologias essenciais e garantir a continuidade dos investimentos.
Brasil concentra 42,5% dos gastos militares sul-americanos, mas enfrenta limites financeiros e tecnológicos
O contraste aparece nos números do Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI).
Em 2025, o Brasil gastou US$ 23,9 bilhões com defesa, aumento de 13% em relação ao ano anterior. O montante equivale a aproximadamente 42,5% dos US$ 56,3 bilhões destinados a despesas militares por toda a América do Sul.
Entretanto, gasto elevado não significa disponibilidade equivalente para modernização. Despesas obrigatórias com pessoal, inativos e pensionistas comprometem uma parcela expressiva do orçamento, limitando os recursos para novos equipamentos, treinamento e manutenção.
A dependência tecnológica amplia o desafio. Em 2025, o governo brasileiro informou que o país dominava aproximadamente 42% das tecnologias consideradas essenciais à defesa e à soberania, indicador da política industrial Nova Indústria Brasil.
A iniciativa estabeleceu metas de 55% até 2026 e 75% até 2033, abrangendo áreas estratégicas como radares, satélites e foguetes. O percentual mede o domínio tecnológico previsto pelo programa, não a proporção de equipamentos militares fabricados nacionalmente.
Há também uma vulnerabilidade diretamente relacionada aos Estados Unidos.
Em setembro, uma análise do Ministério da Defesa alertou que eventuais retaliações comerciais poderiam encarecer componentes utilizados no KC-390 e em embarcações da Marinha, além de dificultar o acesso a tecnologias sensíveis.
Isso significa que o Brasil pode fabricar sistemas militares avançados e, simultaneamente, continuar exposto a decisões comerciais e tecnológicas tomadas no exterior.
A estratégia brasileira também exige continuidade financeira. Sem recursos previsíveis para produção, manutenção e desenvolvimento, programas industriais podem enfrentar atrasos e dificuldades para entregar as capacidades previstas às Forças Armadas.
Assim, enquanto Washington pressiona seus aliados regionais a ampliar os investimentos militares em um momento de mudanças políticas internas, o Brasil enfrenta um desafio próprio: transformar sua indústria de defesa em autonomia estratégica efetiva, sem permitir que restrições financeiras e dependências tecnológicas comprometam seus projetos militares.