Uma embarcação de apenas 18 metros pode passar despercebida entre fragatas e porta-aviões, mas a novidade apresentada pela sueca Saab em 2 de novembro não se limita ao tamanho. O Combat Boat 90 CX, ou CB90 CX, foi concebido para navegar com até dez pessoas a bordo, ou sem nenhuma, e receber equipamentos capazes de localizar alvos aéreos, atacar navios além do horizonte e enfrentar drones. A Suécia já contratou 36 unidades da nova família, segundo a imprensa especializada, e a primeira embarcação está passando por testes finais de aceitação antes da entrega.
O salto em relação à versão anterior está no espaço disponível para sensores e armas, apresentado em três configurações: reconhecimento, ataque antinavio e defesa antiaérea. A base do projeto é uma lancha antes utilizada principalmente para transportar tropas rapidamente. O anúncio feito antes da feira Euronaval, em Paris, coincide com um período em que pequenas embarcações, drones e sensores distribuídos passaram a ocupar mais espaço nas operações marítimas. Para o leitor brasileiro, a notícia tem ainda uma ligação industrial: a Saab é a empresa responsável pelo Gripen adquirido pela Força Aérea Brasileira, embora não tenha anunciado nenhuma venda do CB90 CX à Marinha do Brasil.
Uma lancha de 18 metros que supera 40 nós e leva mais de cinco toneladas de carga útil
O CB90 CX mede 18 metros de comprimento e quatro de largura, com calado de 1,1 metro, de acordo com as especificações publicadas pela fabricante. Dois motores de 1.100 cavalos cada acionam propulsores por jato d’água, sem hélices convencionais expostas. A velocidade máxima anunciada ultrapassa 40 nós, aproximadamente 74 quilômetros por hora. São números associados a um tipo de embarcação pensado para mudar rapidamente de posição em águas costeiras e regiões repletas de ilhas.
A comparação com a família que lhe deu origem ajuda a revelar o que mudou. Segundo a cobertura técnica do Naval News, o novo casco é 1,4 metro mais comprido e 30 centímetros mais largo do que o CB90 Next Generation. O ganho mais relevante é a carga útil: de cerca de três toneladas para mais de cinco, segundo os dados divulgados aos jornalistas, um aumento superior a 50%. Esse espaço adicional pode acomodar sensores, munições e sistemas que não cabiam nas versões voltadas principalmente a levar militares até a praia.
A tripulação prevista varia de zero a dez pessoas. Isso não significa que ela seja automaticamente independente em todas as fases de uma missão. A estrutura digital denominada Combat Core reúne comandos de navegação, monitoramento da plataforma e controle dos equipamentos. O software Autonomous Ocean Core acrescenta a possibilidade de controle remoto e funções autônomas, com operadores humanos ainda responsáveis por decisões conforme a missão.
O casco maior também foi projetado para suportar condições de mar diferentes. A fabricante afirma que manteve o perfil baixo e a possibilidade de transportar o barco por vias terrestres, enquanto a classificação adotada prevê limites de distância a um ponto de abrigo que variam conforme a estação. O objetivo não é disputar travessias oceânicas com navios de grande porte. Trata-se de levar capacidades de combate a lugares em que uma embarcação maior teria mais dificuldade de entrar ou manobrar.
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O radar sobe a 11 metros para olhar por cima das ilhas
Uma das três configurações anunciadas é dedicada a inteligência, vigilância e reconhecimento. Nela, o radar tridimensional Sea Giraffe 1X pode ser elevado sobre um mastro de até 11 metros. Recolhido, o conjunto fica a aproximadamente quatro metros, solução apresentada para permitir deslocamento em alta velocidade e, quando necessário, ganhar altura para ampliar a linha de visada sobre ilhas e obstáculos costeiros.
De acordo com os dados fornecidos no lançamento à imprensa especializada, o radar gira a 60 rotações por minuto, observa o espaço em 360 graus e pode detectar alvos aéreos a mais de 100 quilômetros em determinadas condições. A distância efetiva depende do tipo e da altura do alvo, da interferência do ambiente e de outros fatores. A função do barco não é apenas encontrar um contato no radar: os dados precisam ser compartilhados com unidades capazes de confirmar a ameaça ou empregar um armamento.
Uma estação de armas Trackfire, de operação remota, pode receber metralhadora de 12,7 milímetros ou canhão de 30 milímetros. Na configuração de vigilância, ela oferece uma forma de defesa contra ameaças próximas, incluindo aeronaves não tripuladas. É um arranjo diferente do radar de um navio de grande porte, porque aposta na mobilidade de pequenas plataformas espalhadas pelo litoral.
O barco antinavio pode receber míssil Marte ER, mas a Suécia escolheu outro sistema
A segunda configuração é de ataque a alvos de superfície. A Saab apresentou uma proposta com mísseis Marte ER, da MBDA, capazes de atingir alvos além da linha do horizonte visual do barco. Para isso, precisam receber informações de localização de sensores externos: uma embarcação baixa não consegue enxergar, sozinha, tudo o que um míssil de longo alcance é capaz de alcançar.
É aqui que a expressão “combate distribuído” ganha um significado concreto. Uma embarcação pode identificar uma presença suspeita, compartilhar a posição por rede e permitir que outra unidade execute a ação. A separação entre o sensor e o armamento dificulta a tarefa de neutralizar a força inteira de uma vez. Essa lógica, porém, depende de comunicações resistentes e de identificação precisa do alvo; não basta instalar um míssil no convés.
A exibição com o Marte ER não significa que esse armamento já esteja embarcado em todas as unidades suecas. Na apresentação acompanhada pelo Naval News, o responsável pela unidade Docksta da Saab, Anders Hellman, explicou que o batalhão anfíbio sueco está adquirindo um míssil diferente. O arranjo com o Marte ER foi apresentado para demonstrar que o projeto aceita diferentes armas conforme a decisão do comprador.
Na terceira configuração, um canhão de 30 milímetros enfrenta ameaças vindas do céu
A opção de defesa antiaérea de curto alcance, conhecida pela sigla SHORAD, utiliza um canhão automático para proteger unidades costeiras e embarcações próximas contra ameaças aéreas. A publicação especializada Janes identificou, entre as configurações apresentadas, o Rheinmetall SeaSnake 30, que emprega munição de 30 milímetros e possui cadência nominal anunciada de até 1.100 disparos por minuto. Isso é uma especificação do sistema, não uma demonstração de disparos realizados pelo novo barco.
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Seu emprego previsto está ligado à proliferação de drones no mar. Contra pequenos aparelhos, gastar um míssil caro a cada tentativa de ataque pode ser pouco sustentável. Um canhão oferece outra relação entre custo, munição disponível e tempo de reação, embora seu alcance seja muito menor e a eficácia dependa da direção de tiro, do radar e das características do alvo. O CB90 CX procura acrescentar essa camada sem se transformar em uma fragata.

As três versões podem operar separadamente ou como uma pequena formação: uma observa, outra oferece capacidade de ataque e outra protege contra ameaças aéreas de menor alcance. O conceito não elimina vulnerabilidades. Barcos desse tamanho continuam limitados por combustível, mar agitado, manutenção e quantidade de munição. Uma força que os empregue precisa protegê-los e coordená-los com navios, aeronaves ou sistemas de terra.
A Suécia é a primeira compradora; o novo CB90 ainda precisa completar a entrega
A Suécia é o cliente de lançamento, com contrato para 36 embarcações, segundo a Janes. A cobertura do Naval News informa que a primeira unidade está em testes finais de aceitação. Essa condição distingue o programa de uma simples maquete apresentada em feira, mas também impede dizer que toda a capacidade das três configurações já foi demonstrada em serviço. A Saab afirma que a nova geração coexistirá com o CB90 NG, menor, que continua em utilização.
A família CB90 possui uma história operacional relativamente ampla. A fabricante informa que embarcações desse tipo servem a nove marinhas e circulam pela Europa, pelo Oriente Médio, pela África, pela Ásia-Pacífico e pelas Américas. Seu desenho surgiu para transportar rapidamente forças anfíbias, patrulhar águas rasas e desembarcar tropas em costas recortadas. O CX mantém essa herança, mas abre espaço para radar, armas e operação sem tripulantes a bordo.
O que isso tem a ver com o Brasil além do nome Saab
No Brasil, a Saab é conhecida pela parceria com a Embraer e a Força Aérea Brasileira no programa F-39 Gripen. Em outubro de 2026, a própria FAB divulgou atividades de integração de equipamentos de reconhecimento e designação de alvos no caça. É uma relação industrial e tecnológica comprovada, mas diferente de uma encomenda naval: não há anúncio oficial de compra de CB90 CX pelo Brasil, de produção local dessa lancha ou de integração do modelo a algum programa da Marinha.
O interesse brasileiro está na pergunta que a novidade levanta sobre o emprego de meios menores no litoral e em ambientes de difícil acesso. A costa, os estuários e os rios usados por militares brasileiros apresentam desafios próprios, que não são iguais aos arquipélagos da Suécia. Um barco de alta velocidade e calado reduzido oferece certas vantagens, mas só uma análise operacional específica poderia estabelecer se o CB90 CX atenderia a necessidades nacionais. Tampouco substituiria, por si só, navios de patrulha ou escoltas oceânicas.
A primeira unidade sueca ainda está nos testes finais de aceitação, etapa que antecede a entrega efetiva. Os sistemas de vigilância, ataque e defesa antiaérea foram apresentados como configurações para o novo barco, mas seus desempenhos em operação naval ainda precisarão ser medidos. A Suécia será o primeiro país a testar, na própria rotina de sua Marinha, até onde esse conjunto de sensores, armas e comando remoto pode chegar.