O ano de 2026 se tornou o marco de uma nova era de recomposição do poder naval brasileiro, com a incorporação à Marinha do Brasil de dois novos navios, avanço do Programa de Fragatas da Classe Tamandaré (PFCT) com investimento bilionário e consolidação da retomada da indústria naval de defesa com novos projetos previstos em instalações estratégicas como o Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ).
Com as incorporações do Navio-Patrulha Mangaratiba (P-73) e da Fragata Tamandaré (F200), a Marinha avançou em duas frentes de defesa distintas, embora complementares: a proteção da Região da foz do Rio Amazonas e da Margem Equatorial, e o avanço da capacidade de guerra de superfície, antiaérea, e antissubmarino na Amazônia Azul, as águas sob jurisdição brasileira no litoral.
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A Marinha do Brasil também estuda a revitalização e modernização do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ) para recuperar a capacidade de construção de embarcações maiores, como navios-patrulha de apoio oceânico (NPaOc) de até 2.000 toneladas e outros meios estratégicos.
Enquanto mais dois navios de grande porte da classe Tamandaré, o quinto navio-patrulha da classe Macaé e um submarino nuclear seguem em construção no país, a indústria naval de defesa do Brasil vive um momento de forte retomada. O Programa Classe Tamandaré (PFCT), sozinho, prevê investimentos de R$ 13,9 bilhões até 2030.
O Governo do Brasil e a Marinha também avançam na intenção de ampliar o PFCT com a contratação de um segundo lote de mais quatro navios, dobrando o total de unidades previstas para oito fragatas. Durante a cerimônia de incporação da fragata Tamandaré, em abri, Marinha, Ministério da Defesa, Embraer e a alemã TKMS (ThyssenKrupp Marine Systems) assinaram um Memorando de Entendimento (MoU) para avaliar a construção do segundo lote.
O avanço em diversas frentes da recomposição naval brasileira demonstram a manutenção da capacidade nacional de construir embarcações militares de diferentes portes e ampliar sua presença em áreas marítimas estratégicas, além de impulsionar a indústria local com transferência de tecnologia e forte participação de emrpesas brasileiras.
Mangaratiba: patrulha prolongada e mais autonomia
O Navio-Patrulha Mangaratiba (P-73), construído no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ), tem 54 metros e deslocamento de 500 toneladas, e vai reforçar a presença naval na defesa especialemente da Região da foz do Rio Amazonas e da Margem Equatorial, região marítima entre os estados do Amapá e Rio Grande do Norte.
Seu alcance de aproximadamente 2.500 milhas náuticas equivale a cerca de 4.630 quilômetros, permitindo patrulhas prolongadas de cerca de seis dias de autonomia sem necessidade de reabastecimento imediato. O navio é o quarto de um lote de cinco navios-patrulha da classe Macaé, que tiveram a construção iniciada em 2006.
A embarcação foi projetada para desempenhar diferentes funções operacionais em águas marítimas ou fluviais, e deverá atuar em missões de busca e salvamento, apoio à população em áreas isoladas e patrulhamento e proteção de plataformas de petróleo e gás, segundo a Marinha.
Sob responsabilidade do 4º Distrito Naval, com sede em Belém (PA), o Mangaratiba vai atuar também na região da Margem Equatorial, a “nova fronteira” do petróleo e gás brasileiros, que vai receber pesados investimentos da Petrobras nos próximos anos. A cerimônia de incorporação à Armada foi realizada no dia 30 de outubro, no Rio de Janeiro.
A estatal prevê investir US$ 2,5 bilhões para a perfuração de 15 novos poços exploratórios na região até 2030, o que representa 37,5% de todo o investimento previsto para exploração em cinco anos.
Neste cenário, a ampliação da presença da Marinha do Brasil na Margem Equatorial se torna estratégica para garantir os interesses econômicos e a soberania do Brasil, exigindo novos recursos, embarcações e reforço na patrulha naval. Nos próximos anos, o NPa Miramar (P-74), programado para 2028, vai completar a classe Macaé, reforçando as atribuições de patrulha nas águas brasileiras.

Fragatas Tamandaré modernizam capacidade de combate
Em abril, a Marinha atingiu outro marco histótico no ano de 2026 com a incorporação da Fragata Tamandaré (F200) à Esquadra brasileira, a primeira de quatro embarcaçõs do Programa de Fragatas da Clase Tamandaré (PFCT), todas construídas no TKMS Estaleiro Brasil Sul, em Itajaí (SC), com um investimento de cerca de R$ 13 bilhões.
Diferentemente do Navio-Patrulha Mangaratiba, destinado principalmente à fiscalização, vigilância e presença estatal, a Tamandaré é um navio de combate de primeira linha, projetado para operar em três frentes: guerra antiaérea, guerra antissubmarino e guerra de superfície.
A Tamandaré (F200) foi o primeiro navio da classe totalmente construído no país, com transferência de tecnologia internacional a partir do projeto alemão MEKO A-100 (desenvolvido pela Thyssenkrupp Marine Systems – TKMS), considerada o navio militar mais moderno da América do Sul.
O segundo navio da classe Tamandaré, Jerônimo Albuquerque (F-201) já foi lançado ao mar em agosto de 2026, e atualmente passa por testes de mar, etapa anterior à sua incorporação à Armada brasileira, prevista para acontecer em 2027. As outras duas fragatas do primeiro lote do PFCT estão em construção no estaleiro TKMS Brasil Sul.
Com cerca de 3.500 toneladas e pouco mais de 100 metros de comprimento, a Tamandaré conta com convoo e hangar para helicópteros, sensores avançados, sistemas integrados de combate, armamentos de precisão e tecnologia para reduzir sua detecção por radar.
O armamento inclui canhões, mísseis, torpedos e metralhadoras. A Atech, subsidiária da Embraer, desenvolveu o sistema integrado de combate, o que mantém parte do “cérebro” do navio sob domínio nacional, demonstrando a capacidade brasileira de avançar em sistemas complexos destinados ao combate.

Primeiro navio da classe em 46 anos
A entrega da fragata Tamandaré, inaugural de sua classe, marcou a retomada da produção nacional desse tipo de embarcação em um grande programa industrial após 46 anos de intervalo. Desde a classe Niterói e fragatas o Brasil não desenvolvia um projeto do tipo inteiramente no país voltado a navios de guerra de superfície.
A classe Niterói foi baseada no projeto inglês Type 21 (Classe Amazon) da Marinha Real Britânica, e teve suas duas últimas unidades, a Independência e a União, construídas totalmente no Brasil, no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ), e incorporadas em 1979 e 1980.
Após a classe Niterói, a Marinha construiu outros navios, como a corveta Barroso (V-34), que foi a única de sua classe, também no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ). O navio foi lançado ao mar em 2002. A corveta Barroso foi uma exceção importante em um período no qual o Brasil praticamente deixou de construir grandes navios de combate de superfície.
O cenário somente comecaria a mudar em 2020, com a asinatura do contrato principal do Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT), envolvendo a EMGEPRON (Empresa Gerencial de Projetos Navais) e o Consórcio Águas Azuis (formado pela thyssenkrupp Marine Systems, Embraer Defesa & Segurança e Atech).
Programa de submarinos também avança
Nos últimos anos a Marinha do Brasil também avançou em outra frente estratégica para a modernização da capacidade naval de defesa. O PROSUB (Programa de Desenvolvimento de Submarinos) é o maior programa de submarinos da história da Força, com quatro submarinos convencionais diesel-elétricos da classe Riachuelo e o desenvolvimento primeiro submarino brasileiro com propulsão nuclear.
Desde 2008, o PROSUB já recebeu investimentos orçados em cerca de R$ 40 bilhões, a partir de um acordo de transferência de tecnologia entre Brasil e França. Incorporado em setembro de 2022, o Submarino Riachuelo (S40) foi o primeiro a ser entregue pelo programa, que já conta também com o Humaitá (S-41) e o Tonelero (S-42) incorporados à Marinha.
O quarto submarino da classe, Almirante Karam (S-43), também já avança nos testes de mar e imersão realizados ao longo de 2026 rumo à entrada no setor operacional, encerrando a fase convencional do PROSUB.
Os submarinos da classe Riachuelo foram projetados pelo grupo industrial francês Naval Group, com participação de engenheiros e técnicos brasileiros, e construídos pela Itaguaí Construções Navais (ICN). A série substitui as antigas classes de submarinos Tupi e Tikuna, ambas baseadas no projeto alemão Type 209.
Agora, o PROSUB avança em direção àquele que será considerado a “joia da coroa” do programa: o primeiro submarino nuclear brasileiro, batizado de Álvaro Alberto (SN-10). O Brasil não terá armas nucleares, em linha com a Constituição e com compromissos internacionais. O investimento é para a propulsão nuclear, que permite ganho de autonomia, velocidade e capacidade de ficar submerso por muito mais tempo em relação aos submarinos tradicionais.
A Marinha também espera dominar todo o ciclo de produção do combustível nuclear, por meio do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE), com ganhos para a ciência e para a indústria nacional. A previsão de entrega do SN-10 Álvaro Alberto mudou ao longo dos anos, devido a reajustes orçamentários e à complexidade do projeto de uma embarcação inédita no país.
Mas, quando entregue, o Álvaro Alberto será o único submarino nuclear da América do Sul, com o Brasil ingressando em um seleto grupo de nações atualmente composto por apenas seis países no mundo todo capazez de operar esse tipo de embarcação.

Defesa da Amazônia Azul é principal desafio
No cenário de defesa, o PROSUB, as fragatas Tamandaré e a retomada da capacidade de construção naval do Brasil se complementam. Os submarinos dão dissuasão e negação de área no Atlântico Sul, e as fragatas fazem escolta, defesa antiaérea e controle de superfície.
Esses programas existem para proteger uma área enorme e vital para a economia brasileira. Os números da Amazônia Azul mostram por quê: o Brasil tem jurisdição sobre uma área oceânica de cerca de 5,7 milhões de km², mais da metade da massa terrestre do país.
Além disso, mais de 95% do comércio exterior brasileiro escoa por rotas marítima, e dos mares saem cerca de 95% do petróleo e 80% do gás natural produzidos no país. Isso inclui o pré-sal, na Bacia de Santos, a maior área de produção nacional.
Os desafios ainda são enormes, especialmente quanto ao financiamento para a ampliação desses programas. Mas apesar disso, o Brasil avança para se tornar destaque no cenário de defesa na América do Sul com iniciativas estratégicas de modernização e cooperação tecnológica que lançam as bases para uma nova era do seu poderio militar na região.