Revista Sociedade Militar, todos os direitos reservados.

Marinha recebe dois navios fabricados no Brasil em um ano, impulsiona retomada bilionária na indústria naval militar e moderniza capacidades de defesa com tecnologias inéditas na América do Sul

A retomada da indústria naval de defesa no país vai entregar quatro fragatas de grande porte e inaugurar a era nuclear na Marinha com projeto inédito de submarino

Fernando B.
Por Fernando B. Atualizado em 04/11/2026 às 19:05·publicado em 04/11/2026
Compartilhar
Marinha recebe dois navios fabricados no Brasil em um ano, impulsiona retomada bilionária na indústria naval militar e moderniza capacidades de defesa com tecnologias inéditas na América do Sul
Navio-Patrulha Mangaratiba (P-73) vai reforçar a presença naval na defesa especialemente da Região da foz do Rio Amazonas e da Margem Equatorial. Foto: Marinha do Brasil

O ano de 2026 se tornou o marco de uma nova era de recomposição do poder naval brasileiro, com a incorporação à Marinha do Brasil de dois novos navios, avanço do Programa de Fragatas da Classe Tamandaré (PFCT) com investimento bilionário e consolidação da retomada da indústria naval de defesa com novos projetos previstos em instalações estratégicas como o Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ).

Com as incorporações do Navio-Patrulha Mangaratiba (P-73) e da Fragata Tamandaré (F200), a Marinha avançou em duas frentes de defesa distintas, embora complementares: a proteção da Região da foz do Rio Amazonas e da Margem Equatorial, e o avanço da capacidade de guerra de superfície, antiaérea, e antissubmarino na Amazônia Azul, as águas sob jurisdição brasileira no litoral.

Receba nossas notícias independentemente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora

Entrar no grupo agora

A Marinha do Brasil também estuda a revitalização e modernização do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ) para recuperar a capacidade de construção de embarcações maiores, como navios-patrulha de apoio oceânico (NPaOc) de até 2.000 toneladas e outros meios estratégicos.

Enquanto mais dois navios de grande porte da classe Tamandaré, o quinto navio-patrulha da classe Macaé e um submarino nuclear seguem em construção no país, a indústria naval de defesa do Brasil vive um momento de forte retomada. O Programa Classe Tamandaré (PFCT), sozinho, prevê investimentos de R$ 13,9 bilhões até 2030.

O Governo do Brasil e a Marinha também avançam na intenção de ampliar o PFCT com a contratação de um segundo lote de mais quatro navios, dobrando o total de unidades previstas para oito fragatas. Durante a cerimônia de incporação da fragata Tamandaré, em abri, Marinha, Ministério da Defesa, Embraer e a alemã TKMS (ThyssenKrupp Marine Systems) assinaram um Memorando de Entendimento (MoU) para avaliar a construção do segundo lote.

O avanço em diversas frentes da recomposição naval brasileira demonstram a manutenção da capacidade nacional de construir embarcações militares de diferentes portes e ampliar sua presença em áreas marítimas estratégicas, além de impulsionar a indústria local com transferência de tecnologia e forte participação de emrpesas brasileiras.

Mangaratiba: patrulha prolongada e mais autonomia

O Navio-Patrulha Mangaratiba (P-73), construído no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ), tem 54 metros e deslocamento de 500 toneladas, e vai reforçar a presença naval na defesa especialemente da Região da foz do Rio Amazonas e da Margem Equatorial, região marítima entre os estados do Amapá e Rio Grande do Norte.

Seu alcance de aproximadamente 2.500 milhas náuticas equivale a cerca de 4.630 quilômetros, permitindo patrulhas prolongadas de cerca de seis dias de autonomia sem necessidade de reabastecimento imediato. O navio é o quarto de um lote de cinco navios-patrulha da classe Macaé, que tiveram a construção iniciada em 2006.

A embarcação foi projetada para desempenhar diferentes funções operacionais em águas marítimas ou fluviais, e deverá atuar em missões de busca e salvamento, apoio à população em áreas isoladas e patrulhamento e proteção de plataformas de petróleo e gás, segundo a Marinha.

Sob responsabilidade do 4º Distrito Naval, com sede em Belém (PA), o Mangaratiba vai atuar também na região da Margem Equatorial, a “nova fronteira” do petróleo e gás brasileiros, que vai receber pesados investimentos da Petrobras nos próximos anos. A cerimônia de incorporação à Armada foi realizada no dia 30 de outubro, no Rio de Janeiro.

A estatal prevê investir US$ 2,5 bilhões para a perfuração de 15 novos poços exploratórios na região até 2030, o que representa 37,5% de todo o investimento previsto para exploração em cinco anos.

Neste cenário, a ampliação da presença da Marinha do Brasil na Margem Equatorial se torna estratégica para garantir os interesses econômicos e a soberania do Brasil, exigindo novos recursos, embarcações e reforço na patrulha naval. Nos próximos anos, o NPa Miramar (P-74), programado para 2028, vai completar a classe Macaé, reforçando as atribuições de patrulha nas águas brasileiras.

O Navio-Patrulha Mangaratiba no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ). Foto: Redes Sociais

Fragatas Tamandaré modernizam capacidade de combate

Em abril, a Marinha atingiu outro marco histótico no ano de 2026 com a incorporação da Fragata Tamandaré (F200) à Esquadra brasileira, a primeira de quatro embarcaçõs do Programa de Fragatas da Clase Tamandaré (PFCT), todas construídas no TKMS Estaleiro Brasil Sul, em Itajaí (SC), com um investimento de cerca de R$ 13 bilhões.

Diferentemente do Navio-Patrulha Mangaratiba, destinado principalmente à fiscalização, vigilância e presença estatal, a Tamandaré é um navio de combate de primeira linha, projetado para operar em três frentes: guerra antiaérea, guerra antissubmarino e guerra de superfície.

A Tamandaré (F200) foi o primeiro navio da classe totalmente construído no país, com transferência de tecnologia internacional a partir do projeto alemão MEKO A-100 (desenvolvido pela Thyssenkrupp Marine Systems – TKMS), considerada o navio militar mais moderno da América do Sul.

O segundo navio da classe Tamandaré, Jerônimo Albuquerque (F-201) já foi lançado ao mar em agosto de 2026, e atualmente passa por testes de mar, etapa anterior à sua incorporação à Armada brasileira, prevista para acontecer em 2027. As outras duas fragatas do primeiro lote do PFCT estão em construção no estaleiro TKMS Brasil Sul.

Com cerca de 3.500 toneladas e pouco mais de 100 metros de comprimento, a Tamandaré conta com convoo e hangar para helicópteros, sensores avançados, sistemas integrados de combate, armamentos de precisão e tecnologia para reduzir sua detecção por radar.

O armamento inclui canhões, mísseis, torpedos e metralhadoras. A Atech, subsidiária da Embraer, desenvolveu o sistema integrado de combate, o que mantém parte do “cérebro” do navio sob domínio nacional, demonstrando a capacidade brasileira de avançar em sistemas complexos destinados ao combate.

Fragata Tamandaré F200 fotografada de lado no Rio de Janeiro em março de 2026
Fragata Tamandaré (F200) no Rio de Janeiro em março de 2026, antes da entrada em serviço. Foto: Marinha do Brasil / Wikimedia Commons. Licença CC BY-SA 4.0.

Primeiro navio da classe em 46 anos

A entrega da fragata Tamandaré, inaugural de sua classe, marcou a retomada da produção nacional desse tipo de embarcação em um grande programa industrial após 46 anos de intervalo. Desde a classe Niterói e fragatas o Brasil não desenvolvia um projeto do tipo inteiramente no país voltado a navios de guerra de superfície.

A classe Niterói foi baseada no projeto inglês Type 21 (Classe Amazon) da Marinha Real Britânica, e teve suas duas últimas unidades, a Independência e a União, construídas totalmente no Brasil, no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ), e incorporadas em 1979 e 1980.

Após a classe Niterói, a Marinha construiu outros navios, como a corveta Barroso (V-34), que foi a única de sua classe, também no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ). O navio foi lançado ao mar em 2002. A corveta Barroso foi uma exceção importante em um período no qual o Brasil praticamente deixou de construir grandes navios de combate de superfície.

O cenário somente comecaria a mudar em 2020, com a asinatura do contrato principal do Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT), envolvendo a EMGEPRON (Empresa Gerencial de Projetos Navais) e o Consórcio Águas Azuis (formado pela thyssenkrupp Marine Systems, Embraer Defesa & Segurança e Atech).

Programa de submarinos também avança

Nos últimos anos a Marinha do Brasil também avançou em outra frente estratégica para a modernização da capacidade naval de defesa. O PROSUB (Programa de Desenvolvimento de Submarinos) é o maior programa de submarinos da história da Força, com quatro submarinos convencionais diesel-elétricos da classe Riachuelo e o desenvolvimento primeiro submarino brasileiro com propulsão nuclear.

Desde 2008, o PROSUB já recebeu investimentos orçados em cerca de R$ 40 bilhões, a partir de um acordo de transferência de tecnologia entre Brasil e França. Incorporado em setembro de 2022, o Submarino Riachuelo (S40) foi o primeiro a ser entregue pelo programa, que já conta também com o Humaitá (S-41) e o Tonelero (S-42) incorporados à Marinha.

O quarto submarino da classe, Almirante Karam (S-43), também já avança nos testes de mar e imersão realizados ao longo de 2026 rumo à entrada no setor operacional, encerrando a fase convencional do PROSUB.

Os submarinos da classe Riachuelo foram projetados pelo grupo industrial francês Naval Group, com participação de engenheiros e técnicos brasileiros, e construídos pela Itaguaí Construções Navais (ICN). A série substitui as antigas classes de submarinos Tupi e Tikuna, ambas baseadas no projeto alemão Type 209.

Agora, o PROSUB avança em direção àquele que será considerado a “joia da coroa” do programa: o primeiro submarino nuclear brasileiro, batizado de Álvaro Alberto (SN-10). O Brasil não terá armas nucleares, em linha com a Constituição e com compromissos internacionais. O investimento é para a propulsão nuclear, que permite ganho de autonomia, velocidade e capacidade de ficar submerso por muito mais tempo em relação aos submarinos tradicionais.

A Marinha também espera dominar todo o ciclo de produção do combustível nuclear, por meio do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE), com ganhos para a ciência e para a indústria nacional. A previsão de entrega do SN-10 Álvaro Alberto mudou ao longo dos anos, devido a reajustes orçamentários e à complexidade do projeto de uma embarcação inédita no país.

Mas, quando entregue, o Álvaro Alberto será o único submarino nuclear da América do Sul, com o Brasil ingressando em um seleto grupo de nações atualmente composto por apenas seis países no mundo todo capazez de operar esse tipo de embarcação.

Submarino Riachuelo, da Marinha do Brasil, inaugurou nova classe e abriu caminho para o primeiro submarino nuclear do país. Foto: Marinha do Brasil

Defesa da Amazônia Azul é principal desafio

No cenário de defesa, o PROSUB, as fragatas Tamandaré e a retomada da capacidade de construção naval do Brasil se complementam. Os submarinos dão dissuasão e negação de área no Atlântico Sul, e as fragatas fazem escolta, defesa antiaérea e controle de superfície.

Esses programas existem para proteger uma área enorme e vital para a economia brasileira. Os números da Amazônia Azul mostram por quê: o Brasil tem jurisdição sobre uma área oceânica de cerca de 5,7 milhões de km², mais da metade da massa terrestre do país.

Além disso, mais de 95% do comércio exterior brasileiro escoa por rotas marítima, e dos mares saem cerca de 95% do petróleo e 80% do gás natural produzidos no país. Isso inclui o pré-sal, na Bacia de Santos, a maior área de produção nacional.

Os desafios ainda são enormes, especialmente quanto ao financiamento para a ampliação desses programas. Mas apesar disso, o Brasil avança para se tornar destaque no cenário de defesa na América do Sul com iniciativas estratégicas de modernização e cooperação tecnológica que lançam as bases para uma nova era do seu poderio militar na região.

guest
0 Comentários