A Polícia Federal mobilizou 450 agentes em sete estados nesta quarta-feira (4 de novembro) e iniciou uma operação de 102 mandados contra um grupo que, segundo as investigações, usava blindados, drones e homens armados para manter o controle de áreas próximas à fronteira do Brasil com o Paraguai. A ofensiva também mira a estrutura financeira da organização, suspeita de movimentar mais de R$ 500 milhões em aproximadamente dois anos.
Batizada de Operação Ifrit, a ação é realizada em conjunto com a Receita Federal e foi autorizada pela Justiça Federal de Campo Grande (MS). Além dos policiais federais, a Receita informou a participação de 22 auditores-fiscais e sete analistas-tributários. As diligências atingem sete estados brasileiros e incluem o afastamento de policiais civis investigados.
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O principal foco da apuração fica entre Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, e Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Nessa região, os investigadores identificaram uma organização comandada por integrantes de uma mesma família, com ramificações em diferentes partes do Brasil e ligações internacionais.
450 policiais federais e 29 servidores da Receita participam da operação em sete estados
As ordens judiciais incluem 76 mandados de busca e apreensão, 25 de prisão preventiva e um de prisão temporária. Também foram determinadas três medidas de monitoração eletrônica e o afastamento de três policiais civis de suas funções. A soma de 102 corresponde aos mandados de busca e de prisão autorizados, não ao número de pessoas presas.
Os alvos estão em Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Rondônia. A quantidade de equipes mobilizadas foi informada em comunicado da Receita Federal divulgado no dia da ação, enquanto a Polícia Federal detalhou a distribuição das ordens judiciais.
A comunicação oficial da Polícia Federal, reproduzida pela imprensa regional, descreve uma investigação sobre tráfico internacional de armas, circulação de entorpecentes, lavagem de dinheiro e crimes violentos. A estrutura da organização teria funcionado com divisão de tarefas entre lideranças, operadores financeiros e responsáveis pela segurança armada.
Blindados, drones e homens armados eram utilizados para manter controle da fronteira
Os investigadores relatam o emprego de veículos blindados, equipamentos de comunicação, drones e armamento de elevado poder ofensivo por integrantes do grupo. Também foram identificados locais preparados para abrigar pessoas armadas e estruturas destinadas a proteger as lideranças.
De acordo com os órgãos federais, esse conjunto era utilizado para intimidar organizações rivais e exercer influência territorial em partes da faixa de fronteira. A investigação descreve uma rede que combinava força armada, monitoramento e movimentação de cargas por diferentes rotas.
As autoridades ainda não apresentaram um inventário público com os modelos ou a quantidade de blindados utilizados pela organização. O uso dos veículos integra o conjunto de indícios reunidos ao longo da investigação e não deve ser confundido com o emprego de viaturas militares brasileiras na operação.
A área de Ponta Porã e Pedro Juan Caballero é um corredor urbano internacional. A proximidade das duas cidades permite circulação intensa de pessoas e mercadorias, o que exige fiscalização permanente e cooperação entre instituições brasileiras e paraguaias.
Policiais civis, militares e integrante da PRF são investigados por possível colaboração
Parte da ofensiva tem como alvo a suposta participação de agentes das próprias instituições de segurança. A Polícia Federal informou que investiga policiais civis e militares de Mato Grosso do Sul e um policial rodoviário federal por possível vínculo com a organização.
Segundo a investigação, agentes públicos teriam fornecido informações estratégicas, protegido integrantes do grupo e ajudado a preservar atividades ilícitas. A Justiça determinou o afastamento de três policiais civis, além das medidas de monitoração eletrônica aplicadas a outros investigados.

O afastamento é uma medida cautelar destinada a preservar a investigação. A participação e a responsabilidade individual dos agentes ainda dependem da apuração e das decisões judiciais posteriores.
O UOL informou, com base em investigadores, que policiais são suspeitos de prestar informações sigilosas e proteção ao grupo. A apuração aponta conexões com facções que atuam em diferentes estados, incluindo o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Primeiro Grupo Catarinense (PGC).
Receita rastreou mais de R$ 500 milhões e Justiça atingiu imóveis, veículos e contas
As análises bancárias, fiscais, patrimoniais e de comunicações indicaram movimentação superior a R$ 500 milhões em cerca de dois anos. Os valores teriam passado por contas ligadas aos investigados, operadores financeiros, empresas de fachada e negócios simulados.
A Receita Federal identificou indícios de que essas estruturas eram usadas para esconder a origem dos recursos e transferi-los entre pessoas e empresas. As apurações financeiras foram combinadas com diligências de campo, interceptações autorizadas e apreensões de armas e outros materiais.
O UOL revelou que a Justiça também determinou o sequestro de aproximadamente 160 imóveis e mais de 150 veículos, além de bloqueio bancário de até R$ 300 milhões. Essas são medidas de indisponibilidade ou apreensão patrimonial; o valor efetivamente recuperado depende do cumprimento das decisões.
Segundo a mesma apuração, a Justiça determinou medidas para encaminhar 11 suspeitos apontados como lideranças a unidades prisionais federais. O objetivo é separar investigados considerados de alta periculosidade das redes de apoio que operariam fora dos presídios.
Investigações alcançam Bolívia, Peru, Paraguai e rotas internacionais até a Europa
Os órgãos federais identificaram uma rede de abastecimento que, segundo a apuração, obtinha drogas e armamentos na Bolívia, no Peru e no Paraguai e utilizava a fronteira de Mato Grosso do Sul para a entrada das cargas em território brasileiro.
Após atravessar a fronteira, os carregamentos eram distribuídos para cidades brasileiras, especialmente em São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Uma parte das remessas também seria destinada ao mercado europeu, principalmente Espanha e Portugal.
As movimentações teriam ocorrido desde pelo menos 2018, com participação de um núcleo familiar formado por três irmãos, filhos e outros parentes, além de colaboradores com funções financeiras, logísticas e de segurança. A Receita descreveu uma estrutura com ramificações nacionais e internacionais e capacidade de reorganização das operações.
Delegado investigado teria desviado cerca de duas toneladas de droga apreendida
Entre os investigados está o delegado afastado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, que recebeu uma nova ordem de prisão durante a Operação Ifrit. Ele já estava detido desde setembro por causa de outra investigação em Mato Grosso do Sul.
Segundo a apuração publicada pelo UOL em 4 de novembro, a Polícia Federal suspeita que cerca de duas toneladas de cocaína apreendida tenham sido desviadas de uma delegacia especializada. A droga teria sido substituída por uma mistura adulterada antes do envio para destruição. O valor obtido com a suposta venda é estimado em R$ 15 milhões.
Os advogados do delegado afirmaram que ainda não tiveram acesso integral à decisão e às provas relacionadas à nova ordem de prisão. A defesa informou que se manifestará após examinar os autos e ressaltou que as medidas cautelares não representam condenação.
A investigação do delegado corre paralelamente a outras diligências sobre suspeitas de desvio de drogas já apreendidas por agentes públicos. O cumprimento da nova ordem de prisão amplia o alcance da operação sobre a possível colaboração interna com a organização investigada.
Carros de coleção foram recolhidos durante buscas em Campo Grande
As diligências produziram cenas incomuns na capital de Mato Grosso do Sul. Em um galpão de funilaria na Rua São Borja, equipes da Polícia Federal apreenderam veículos que precisaram ser transportados por guinchos. Entre eles, estavam um automóvel Ford da década de 1920 e um jipe Willys/Overland de 1958.
Conforme relato do Campo Grande News, cinco guinchos participaram da retirada dos automóveis depois de cerca de quatro horas de movimentação no local. Os veículos foram encaminhados à sede da Polícia Federal. O registro de carros de coleção apreendidos é distinto da informação sobre blindados utilizados pelo grupo para proteger suas atividades.
Operação Ifrit se soma a outras ações de vigilância na fronteira Brasil-Paraguai
A ação desta quarta-feira ocorre enquanto autoridades brasileiras e paraguaias mantêm outra operação conjunta na região de fronteira. A 59ª fase da Nova Aliança, iniciada em 2 de novembro, tem foco na erradicação de plantações clandestinas em território paraguaio, com atuação da Polícia Federal brasileira e da Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai.
As duas ofensivas possuem objetivos diferentes. A Ifrit é uma investigação judicial sobre uma organização transnacional, agentes públicos e patrimônio suspeito; a Nova Aliança atua diretamente sobre cultivos e instalações de produção clandestina.
Com os mandados executados em sete estados, a próxima etapa da Ifrit será a análise dos documentos, dispositivos eletrônicos e bens recolhidos, além do andamento das medidas contra os suspeitos. O valor final dos bloqueios e a quantidade de prisões efetivadas dependerão dos balanços oficiais posteriores.
O envolvimento investigado de policiais e o uso de blindados por organizações criminosas representam um desafio especial para o controle das fronteiras? Deixe sua opinião nos comentários.