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A armadilha do F-35: por que os aliados dos EUA temem depender do caça da Lockheed Martin

A armadilha do F-35: por que os aliados dos EUA temem depender do caça da Lockheed Martin
Caças F35 em operação da marinah dos Estados Unifdos Fonte: Lockheed Martin
Robson Augusto
Robson Augusto
Publicado 30/07/2026 às 18:28h

Reportagem da L’Express, livro de Joseph Henrotin e relatório do Parlamento francês reacendem o debate sobre o controle americano sobre o caça mais vendido do momento.

Os Estados Unidos são o maior exportador de armas do mundo, e o F-35, fabricado pela Lockheed Martin, é hoje o item mais cobiçado desse catálogo. Uma reportagem interessante da revista francesa L’Express, somada ao livro do politólogo Joseph Henrotin e a um relatório do Parlamento francês, reacendeu um debate incômodo: comprar o caça americano deixou de ser apenas garantia de qualidade e passou a ser tratado, pelos próprios aliados, como uma vulnerabilidade estratégica.

O argumento não é contra a aeronave em si, e sim contra o grau de dependência que ela impõe. Sucessor do F-16, o avião mais vendido da história, com mais de 4.600 unidades produzidas, o F-35 caminha para repetir o feito. A lista de compradores europeus é extensa e cresceu depois da invasão russa da Ucrânia, em 2022.

Um sucesso comercial que virou dependência

Entre os clientes europeus estão Reino Unido, Itália, Países Baixos, Noruega e Dinamarca, envolvidos no programa desde o início. Somam-se Bélgica, Polônia e Finlândia, que trocaram em massa suas frotas de F-16, além de Alemanha, Suíça, República Tcheca, Romênia e Grécia, que aceleraram as encomendas após 2022.

Segundo o livro de Henrotin, o caça deve equipar treze forças aéreas europeias até 2035.

Concebido nos anos 1990 e produzido a partir da década de 2000, o F-35 foi pensado como plataforma polivalente: caça, ataque ao solo e combate antinavio num único modelo. Isso permite que forças aéreas menores operem um só tipo de aeronave, com sistemas totalmente integrados. A contrapartida é conhecida entre militares: um sistema que faz tudo dificilmente é o melhor em cada missão isolada.

O controle remoto do software e da nuvem

O primeiro ponto sensível é digital. O F-35 opera permanentemente conectado a uma nuvem sob controle americano. Dados captados por radar, sensores ópticos e sistemas de guerra eletrônica são processados e exibidos no capacete do piloto, numa espécie de mapa em tempo real com aliados, inimigos e alvos neutros.

Essas informações dependem das chamadas bibliotecas de ameaças, atualizadas de forma recorrente para manter a guerra eletrônica eficaz. Segundo os especialistas ouvidos pela L’Express, os principais servidores dessa arquitetura, de dados a logística, ficam nos Estados Unidos.

A conclusão apontada é direta e muito preocupante: Washington dificilmente impediria a decolagem de um F-35 aliado, mas poderia, em tese, deixá-lo cego durante uma operação.

O cenário Dinamarca–Groenlândia

O debate ganhou contornos concretos com a Dinamarca, país fundador do programa e responsável pela soberania sobre a Groenlândia. Donald Trump afirmou repetidas vezes que pretende incorporar o território, se preciso pela força, o que levanta uma pergunta desconfortável: o que fariam os F-35 dinamarqueses diante de uma incursão de F-35 americanos?

Henrotin lembra um precedente citado com frequência: caças F-16 vendidos ao Egito teriam limitações de software capazes de apagar as telas do cockpit caso a aeronave se aproximasse demais de Israel. O relato, difícil de confirmar de forma independente, ilustra o temor de fundo, o de que restrições invisíveis venham embutidas no próprio equipamento.

Peças de reposição sob controle americano

O segundo ponto é mais prosaico, mas igualmente sensível: a cadeia de manutenção. Reparos e peças de reposição do F-35 passam pela Lockheed Martin, e mesmo um dano pequeno no para-brisa exige a substituição pelo fabricante. Normalmente, quem compra um caça adquire lotes de peças que passam a lhe pertencer.

No caso do F-35, segundo a reportagem, as peças compradas só se tornam propriedade do país quando montadas na aeronave. Na prática, os Estados Unidos poderiam realocar estoques que estão em território aliado para atender outro parceiro considerado prioritário, Israel é o exemplo citado. Isso cria tensão evidente para quem tem operações em curso e depende desse fluxo.

O alerta do relatório francês

A discussão chegou à Assembleia Nacional francesa. Em 1º de abril de 2026, os deputados François Cormier-Bouligeon (Ensemble pour la République) e Aurélien Saintoul (La France Insoumise) apresentaram um relatório de 157 páginas sobre as dependências militares da França em relação ao estrangeiro. O texto alerta para a dependência crescente de infraestruturas operadas por atores privados, em grande parte americanos.

A França escapa do problema na aviação de caça, por ter optado pelo Rafale, da Dassault. Mas o relatório aponta lacunas em outras áreas, como o setor espacial, a produção de munição de pequeno calibre, que o país deixou de fabricar, e uma tecnologia crítica para porta-aviões.

Catapultas, terras raras e o “France libre”

Em entrevista, Cormier-Bouligeon sustenta que nenhum exército é totalmente soberano, nem o americano, nem o russo, nem o chinês. A razão que ele destaca são as terras raras, extraídas e processadas majoritariamente na China. Muitos países ficariam, assim, espremidos entre o catálogo americano e o controle chinês sobre matérias-primas essenciais.

O relatório também mira as catapultas dos porta-aviões, fabricadas nos Estados Unidos e necessárias tanto ao Charles de Gaulle quanto ao futuro porta-aviões francês. Batizado de “France libre” por Emmanuel Macron em março de 2026, o navio deve substituir o Charles de Gaulle em 2038. Pela primeira vez, Paris admitiu publicamente buscar alternativas nacionais a essa tecnologia, com a entrada em serviço prevista para o fim da próxima década.

O Gripen e a saída brasileira e o acesso ao código fonte

O Brasil trilhou um caminho oposto ao dos compradores do F-35. No programa FX-2, a Força Aérea Brasileira escolheu o Gripen, da sueca Saab, à frente do F/A-18 da Boeing e do próprio Rafale, da Dassault, que se recusou a ceder o código-fonte da aeronave.

O contrato, assinado em 2014, prevê 36 caças (28 F-39E monopostos e oito F-39F bipostos), com ampla transferência de tecnologia e acesso aos códigos-fonte, o que permite à FAB integrar sensores, armamentos e sistemas nacionais sem passar pelo fabricante.

Esse nível de acesso é uma conquista realmente rara em contratos internacionais de defesa e atinge justamente os dois pontos que preocupam os aliados dos Estados Unidos que adquiriram o F-35: a trava de software e a manutenção presa ao fornecedor.

Parte da produção ocorre em solo brasileiro, a Embraer apresentou, em março de 2026, o primeiro F-39E inteiramente montado em Gavião Peixoto (SP), e empresas como a AEL Sistemas desenvolvem sistemas embarcados no país.

Na prática, o Brasil pode atualizar, manter e rearmar sua frota com maior autonomia, reduzindo a dependência externa que o relatório francês descreve.

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Jorge Emerson
Jorge Emerson
30/07/2026 18:36

Essa estrela na fuzilagem do caça lembra a estrela de Israel….

Robson Augusto

Robson Augusto

Editor da Revista Sociedade Militar - Militar da reserva remunerada, jornalista e cientista social. Especialista em inteligência e marketing. Escreve sobre militares, geopolítica, tecnologia militar, forças armadas, polícia militar, segurança pública em geral e artes marciais, como Jiu-jitsu e MMA. Análises sobre geopolítica e política brasileira. Autor do livro Militares pela Cidadania