Aos 48 anos de idade, o Suboficial da Reserva da Marinha do Brasil Ricardo Dias dos Santos, o FROGMAN, tornou-se o 2º brasileiro da história e o primeiro militar das Forças Armadas Brasileiras a concluir o Double Deca Ironman, considerada a prova oficial de resistência mais dura já criada pelo homem.
No dia 27 de maio de 2026, ele fechou uma conta que assusta até atletas de elite: São nada menos que 76 km de natação, 3.600 km de ciclismo e 844 km de corrida. São 4.520 km percorridos de forma contínua, dentro do limite máximo de 28 dias.
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É considerada a prova mais dura do planeta
O Double Deca Ironman equivale a vinte provas de Ironman emendadas, sem interrupção entre as etapas. Enquanto milhões de pessoas treinam anos apenas para completar um único Ironman, Ricardo Dias completou vinte de forma consecutiva.
A dimensão do feito aparece nos números. Até esta edição, apenas 36 atletas em todo o mundo, nove deles mulheres, haviam cruzado a linha de chegada de um Double Deca. Ao terminar, o baiano se tornou o 37º finisher da história da modalidade, entrando em um grupo com menos de 40 pessoas no planeta.
A competição aconteceu entre 1º e 28 de maio de 2026, nas instalações do Clube Aretê, em Armação dos Búzios (RJ). Foi organizada pela Brasil UltraTri, em estrutura homologada pela IUTA – International Ultra Triathlon Association, entidade que regula a modalidade no mundo. A direção de prova no Brasil coube a Daniel de Oliveira, primeiro brasileiro a concluir um Double Deca Ironman.
Durante quase um mês, os competidores enfrentaram uma rotina de desgaste físico, privação de sono, dores musculares e esgotamento mental — um cerco permanente aos próprios limites.
O recorde: 76 km nadados apenas no estilo peito
A etapa de natação foi disputada em piscina olímpica de 50 metros. Foram 1.520 voltas para completar os 76 km da prova.
Foi nesse ponto que Ricardo Dias rompeu um paradigma técnico. Praticamente todos os ultratriatletas usam o nado crawl nas longas distâncias, por ser mais rápido e econômico em termos de gasto energético. O suboficial da Marinha optou pelo caminho inverso: nadou os 76 km exclusivamente no estilo peito.
Foram 55 horas, 20 minutos e 13 segundos dentro d’água. A marca é reconhecida como a maior distância já registrada em nado peito em águas confinadas, um resultado sem precedentes no ultratriatlo mundial.
A escolha não é detalhe menor. O nado peito exige mais tempo e um padrão de esforço diferente ao longo de mais de dois dias ininterruptos de água, o que transforma a etapa em um capítulo à parte da própria prova.
3.600 km de bicicleta e 844 km de corrida

Encerrada a natação, começou a verdadeira maratona sobre a bicicleta. Em um circuito fechado de aproximadamente 7,5 km, os competidores pedalaram por dias seguidos até somar 3.600 km, sob vento, calor e fadiga acumulada.
Cada volta aproximava os atletas da chegada e, ao mesmo tempo, do próprio esgotamento físico e psicológico.
A etapa final foi a corrida, considerada a mais cruel. Em um circuito de apenas 1,5 km, cada competidor precisou completar 563 voltas para atingir os 844 km. É o equivalente a mais de vinte maratonas, com o corpo já castigado por milhares de quilômetros percorridos nas fases anteriores. Foram dias de dores intensas, lesões, frio, calor, chuva e privação de sono somados ao desgaste que vinha da água e da bicicleta.
5º no Mundial e único militar finisher
Na classificação geral do Campeonato Mundial de Ultratriatlo da IUTA, Ricardo Dias terminou em 5º lugar, atrás apenas de atletas de Malta, República Tcheca, França e Polônia.
O resultado coloca o Brasil entre as principais forças da modalidade no mundo e faz do suboficial o único militar das Forças Armadas brasileiras a integrar a lista de finishers do Double Deca Ironman.
Já na reserva, ele fez questão de cruzar a chegada carregando as bandeiras do Brasil e do Grupamento de Mergulhadores de Combate — referência direta à origem que moldou sua disciplina.
Da Marinha ao pódio mundial
A trajetória militar de Ricardo Dias antecede o esporte de alto rendimento e ajuda a explicar o preparo. Quem serviu na BACS, na Ilha de Mocanguê conhece bem esse militar e atleta. Natural de Salvador (BA), atuou como Nadador de Salvamento e se especializou em Escafandria, o mergulho militar, chegando a Supervisor de Mergulho Saturado e Desativador de Artefatos Explosivos, uma das formações mais exigentes das Forças Armadas.
Em 2004, ao lado dos Suboficiais Miranda e Rodnei, integrou o grupo dos primeiros e únicos marinheiros da história a concluir o Curso de Operações Especiais do Corpo de Fuzileiros Navais, ficando em primeiro lugar da turma.
Em 2014, aos 36 anos e 11 meses, tornou-se o aluno mais velho a concluir o Curso de Mergulhador de Combate da Marinha do Brasil. No ano seguinte, formou-se Paraquedista Militar pelo Exército Brasileiro e passou a integrar a equipe de Segurança Presidencial, onde permaneceu por seis anos e oito meses na proteção de chefes de Estado.
A reportagem da Revista Sociedade Militar conversou com o Frogman, o suboficial Dias, e ouviu do próprio atleta o que o move para além das provas. “Vivi coisas na Marinha que me deixaram pra baixo e decidi fazer diferença por onde eu passo”, conta.
Hoje atleta, instrutor e escritor, ele explica por que continua levantando a bandeira da Força: “Faço isso pra motivar outros jovens que vieram de onde eu vim, e mostrar que a vida não é sentar na janela, que dá pra escalar todos os degraus e viver cada etapa da melhor maneira possível.”
Dias faz questão de reforçar que nunca buscou facilidades. “Eu nunca procurei atalhos. Eu não queria dar serviço… fui ser mergulhador”, diz. “Eu nunca tive vida fácil. Eu era coordenador do ESP MG e troquei o cajado pra virar aluno do MEC. Já tinha os cursos da escafandria e não tinha por que abandonar tudo, mas fui pro GRUMEC com 36 anos de idade.”
O desfecho dessa escolha o levou ao mais alto nível de responsabilidade dentro das Forças Armadas. “Terminei o curso e, em seguida, me mandaram pra Presidência da República”, relata. No período, atuou na segurança de três presidentes, Dilma, Temer e Bolsonaro.
“O limite está na mente”
Foi aos 42 anos que Ricardo Dias entrou no esporte de alto rendimento. Seis anos depois, aos 48, virou recordista mundial.
Autor do método Mentalidade Blindada e do livro Women’s Protected, ele resume a própria filosofia em uma ideia que serve tanto ao quartel quanto à raia: para quem decide vencer, o limite não está no corpo, e sim na mente.
O lema que carrega é o mesmo do mergulhador de combate: Fortuna Audaces Sequitur — a sorte acompanha os audazes.
Gratidão a todo editorial, fico muito honrado com a reportagem e a deferência a minha pessoal, quero compartilhar este feito com todos que passaram pela minha vida.