A carreira militar brasileira voltou ao centro do debate em julho de 2026, e dois comandantes de Força ofereceram, na prática, respostas diferentes ao mesmo desafio. De um lado, o Almirante de Esquadra Marcos Sampaio Olsen, comandante da Marinha, reconheceu publicamente a dificuldade de atrair e reter pessoal. De outro, o General de Exército Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, comandante do Exército, passou a manhã do dia 29 de julho tentando se aproximar da tropa em formação, o general correu 6 quilômetros ao lado de futuros sargentos de logística no Rio de Janeiro.
O contraste não é apenas de agenda. Ele ilustra dois modos de lidar com uma questão que preocupa as três Forças: a evasão de quadros qualificados e a queda de interesse pela farda entre os jovens.
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O que o Almirante Olsen admitiu
Em entrevista ao diretor editorial da CNN em Brasília, Daniel Rittner, Olsen admitiu que as Forças enfrentam dificuldade para recrutar e reter pessoal e associou o problema à baixa atratividade da carreira. A frase que resumiu o diagnóstico foi direta: “Hoje a Força se ressente da captação e permanência de pessoal”, disse o almirante, citando a evasão de oficiais e praças nos postos iniciais.
O reconhecimento veio acompanhado de um movimento administrativo que reforça o quadro. Pela Portaria nº 181/MB/MD, de 21 de julho, publicada no Diário Oficial da União de 24 de julho, a distribuição do efetivo de oficiais da ativa passou a prever 90 capitães de corveta temporários, ante os 61 fixados para 2025. É o único posto de oficial superior ocupado por temporários na Marinha, e o número se aproxima da casa das cem vagas.
Em entrevista à CNN Brasil, o oficial reconheceu que o problema afeta as instituições e exige atenção. Entre os fatores citados no debate público estão os salários considerados menos competitivos em relação ao mercado civil, além do regime de dedicação exclusiva, as escalas de serviço e as limitações para exercer outras atividades profissionais.
Os números por trás da evasão
A conta salarial ajuda a entender por que a permanência virou problema. Em 2026, o soldado-recruta e o marinheiro-recruta recebem R$ 1.177 de soldo, valor que subiu dos R$ 1.078 anteriores. Esse piso fica abaixo do salário mínimo nacional.
O reajuste que elevou os soldos foi de 9%, dividido em duas parcelas de 4,5%, aplicadas em abril de 2025 e janeiro de 2026, encerrando cerca de cinco anos de congelamento. Segundo o Ministério da Defesa, o impacto orçamentário estimado ultrapassa R$ 5 bilhões neste ano, beneficiando cerca de 740 mil pessoas, incluindo militares da ativa, da reserva e pensionistas. Diário do ComércioDiário do Comércio
Na ponta que interessa à EsSLog, um sargento formado pela Escola de Sargentos das Armas (ESA) passou a receber R$ 4.177 em 2026. É contra esse patamar que o mercado civil compete, oferecendo, na avaliação de quem deixa a carreira, remuneração maior e menos restrições de disponibilidade. Diário do Comércio
O comandante do Exército na Vila Militar
Enquanto o debate salarial corria solto, o comandante do Exército escolheu o contato direto com a tropa. No dia 29 de julho, o General Tomás Paiva visitou a Escola de Sargentos de Logística (EsSLog), na Vila Militar, no Rio de Janeiro. O dia começou com uma sessão de Treinamento Físico Militar ao lado do Curso de Formação e Graduação de Sargentos (CFGS), marcada por uma corrida de seis quilômetros pela Avenida Duque de Caxias.
Na sequência, o general ministrou palestra aos futuros sargentos de logística, abordando aspectos da carreira militar e destacando responsabilidades e expectativas em relação aos futuros líderes de pequenas frações. A atividade proporcionou contato direto com os alunos, ocasião em que o comandante transmitiu orientações, compartilhou experiências e reforçou valores da formação militar.
A EsSLog é peça-chave nesse processo. Criada em 2010, a escola unificou a formação de sargentos especialistas em qualificações como Material Bélico, Intendência, Topografia, Manutenção de Comunicações, Saúde e Música. Desde 2023, funciona sob comando único com o Colégio Militar da Vila Militar, com a sigla EsSLog/CMVM, atualmente comandada pelo Coronel Nelson Mendonça Júnior.
Publicação no Eblog sobre valorização da Família Militar
A visita à EsSLog não é um gesto isolado. Dois dias antes, em 27 de julho, o portal do Exército publicou o artigo “Valorização da Família Militar: pilar de sustentação da Prontidão Operacional“, assinado pelo 2º Tenente H. das G. Teixeira. O texto defende que amparar a família do militar é estratégia de fortalecimento da coesão e da permanência na tropa, e não apenas um gesto de reconhecimento.
Vista em conjunto, a sequência sugere uma linha de comunicação coordenada: enquanto o comandante aparece fisicamente ao lado da tropa em formação, a publicação institucional reforça o discurso de que a Força quer valorizar quem veste a farda. É um movimento voltado a alimentar, entre os quadros, a percepção de que as condições tendem a melhorar, um contraponto de tom ao diagnóstico mais cru apresentado por Olsen na Marinha.
Dois comandos, um só desafio
O ponto que une as duas cenas é o momento. Ambas se dão em um julho em que a carreira militar está sob escrutínio, com salários iniciais abaixo do mínimo e uma leva de temporários preenchendo postos que o quadro de carreira já não sustenta com a mesma folga.
A presença física do comandante do Exército em uma escola de formação, correndo com quem ainda vai receber as divisas, comunica algo à tropa que nenhuma portaria comunica: proximidade da alta cúpula com a base. Olsen, por sua vez, optou pela franqueza do diagnóstico, expondo em rede nacional um problema que costuma ficar restrito aos corredores de Brasília.
Nenhum dos dois gestos, isoladamente, resolve a equação de fundo, que passa por remuneração, previdência e condições de serviço dos militares das Forças Armadas, principalmente aqueles da base, que sofrem com os menores salários e escalas de serviço cada vez mais apertadas, consequenci da evasão. Contudo, os dois sinalizam que a crise de atração e retenção deixou de ser um assunto de bastidores para ocupar, ao mesmo tempo, a agenda pública e o pátio das escolas de formação.
O Comandante do EB como sempre, se esquivando da realidade da vida militar. A realidade é só uma: As praças militares estão passando muitas dificuldades financeiras, o dinheiro mal dá para pagar os boletos mensais. É um descaso total…
Brasil acima de tudo!
O CMT do EB, não está nem aí para tropa, recebe dois salários, fora o valor das diárias destas visitas desculpas para encher mais o bolso dele.