A Fundação Nacional dos Povos Indígenas informou que não possui conhecimento técnico suficiente para elaborar uma análise sobre os objetos voadores não identificados relatados por indígenas no interior do Acre. Os episódios envolveriam luzes misteriosas, uma esfera próxima ao solo e feixes luminosos que teriam atingido moradores.
A declaração foi apresentada em resposta a um pedido protocolado por meio da Lei de Acesso à Informação. Embora tenha liberado documentos antigos, a Funai afirmou que conhece apenas as denúncias feitas pelos indígenas e indicou que a investigação dos fenômenos ficou sob responsabilidade de outros órgãos, especialmente da Polícia Federal.
Os registros oficiais não comprovam que os objetos possuíam origem extraterrestre. Eles demonstram, entretanto, que os relatos foram formalizados, provocaram mobilização de autoridades e chegaram a motivar uma missão de agentes federais à Terra Indígena Kampa do Amônia.
Funai afirma que não pode produzir análise técnica
O pedido de acesso à informação, registrado sob o protocolo nº 08198.011010/2026-60, procurava documentos produzidos entre 2013 e 2016 sobre ocorrências na Aldeia Apiwtxa, no município de Marechal Thaumaturgo.

Na resposta, encaminhada em 15 de abril de 2026, a Coordenação Regional do Juruá declarou:
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“Não detém conhecimento técnico suficiente para a elaboração de relatório analítico sobre os fatos relatados, tendo ciência apenas das denúncias apresentadas pelos indígenas à época.”
A fundação acrescentou que “a apuração e investigação dos referidos eventos foram atribuídas aos órgãos competentes”. Segundo a resposta, a Superintendência da Polícia Federal no Acre teria sido responsável pelas diligências e pela eventual produção de um relatório.
A Funai reconheceu, porém, que não localizou documentos detalhados sobre o resultado da investigação. Para reconstruir o encaminhamento do caso, o órgão informou ter consultado inclusive fontes públicas, entre elas uma reportagem do portal AC24Horas.
Carta indígena descreveu esfera e feixes de luz
O caso entrou formalmente nos arquivos da Funai em 31 de julho de 2014. A capa do processo nº 08197.000008/2014-31 registra um “pedido de investigação” sobre objetos não identificados, luzes e “bolas de fogo” observados sobre a Aldeia Apiwtxa.
Em uma carta-denúncia, lideranças Ashaninka afirmaram que o objeto havia sido visto várias vezes desde 24 de julho daquele ano. O documento descreve uma esfera com aproximadamente quatro metros de diâmetro, capaz de disparar feixes de luz geralmente azuis.
Os indígenas também disseram que equipamentos fotográficos deixavam de funcionar quando o objeto se aproximava do solo. Segundo a carta, três pessoas teriam sido atingidas pelos feixes e apresentaram dores de cabeça, desequilíbrio sensorial e sensação de choque. Uma mulher teria sofrido um aborto após o episódio.
A comunidade solicitou que a Funai buscasse apoio da Polícia Federal e do Exército para identificar o objeto, afirmando encontrar-se em “estado de insegurança”.
Missão da Polícia Federal durou dois dias
A Informação Técnica nº 15, produzida pela Coordenação Regional do Juruá em agosto de 2014, registrou que a Polícia Federal organizou uma “missão emergencial” e enviou dois agentes à aldeia.
A permanência teria durado somente dois dias. Conforme relato atribuído a um dos policiais, não teria sido possível “ver nada, somente apurar algumas informações”. A Funai declarou naquele momento que não recebera o relatório escrito da operação.
O documento também reuniu depoimentos sobre um objeto silencioso que percorreria o céu entre 18h e 22h, em trajetos vindos da direção do Peru. Um indígena teria atirado contra a luz, que teria mudado de direção, reduzido a velocidade e desaparecido rapidamente.
Documento levantou hipótese de drone
Apesar das referências a OVNIs, a própria informação técnica considerou explicações terrestres. Um dos entrevistados avaliou que o objeto poderia ser um drone.
A Funai registrou que havia uma base do Exército peruano a oeste da terra indígena e levantou ainda, sem apresentar provas, a possibilidade de ligação com narcotraficantes. A orientação era trabalhar com a hipótese de um “veículo aéreo remotamente pilotado”.
Em 2015, a Coordenação Regional do Juruá informou ao Ministério Público Federal que não havia recebido novas ocorrências de “bolas de fogo” nos três meses anteriores. Mesmo assim, recomendou que Exército e Aeronáutica assumissem a investigação por possuírem melhores condições técnicas e logísticas.
O Exército se interessou pelo caso
Um informação técnica oficial, emitida pela FUNAI em 20 de agosto de 2014, menciona o Exército Brasileiro.

“No dia 31 de julho de 2014 o indígena Benky Piyanko Ashaninka se fez presente na sede da CR Juruá relatando e apresentando denúncia (em anexo) quanto a estranhos fenômenos que vinham ocorrendo em sua comunidade. Tratava-se de luzes, objetos luminosos, bolas de fogo que estavam assustando a população local e que, numa destas aparições, haviam atacado alguns moradores tendo levado, inclusive, ao aborto espontâneo de uma jovem que, segundo Benky, foi acertada por um “feixe luz que saiu do objeto”.
“No mesmo dia, o Assessor Indígena do Governo do Acre, o secretário de Justiça do Estado, o comando do 61º Batalhão de Infantaria de Selva (61 BIS) e a Superintendência da Polícia Federal entraram em contato à procura de mais informações, uma vez que Francisco Piyanko, irmão de Benky Ashaninka e assessor especial do governo (lotado na Secretaria de Planejamento do Estado) haviam-nos alertado sobre o ocorrido. Destes, somente o Exército não interessou-se pelo caso, uma vez que, segundo a tenente que telefonou para a coordenação, “o comando precisa de mais informações sobre o que poderia ser, pois a informação que havia chegado era de que se tratava de um conflito entre tribos…”
O relatório que poderia esclarecer o caso não apareceu
Mais de uma década depois, a resposta da Funai mantém aberta a principal dúvida: o que a Polícia Federal concluiu após enviar agentes à aldeia?
Os documentos confirmam a existência das denúncias, o medo provocado entre os moradores e a movimentação de diferentes instituições. Não demonstram, contudo, a natureza dos objetos nem confirmam qualquer origem extraterrestre.
Ao declarar que não dispõe de conhecimento técnico para analisar os episódios e que não possui o relatório detalhado da investigação, a Funai devolve o mistério ao órgão que realizou as diligências. Sem a divulgação das conclusões da Polícia Federal, o caso dos OVNIs do Acre permanece oficialmente documentado, mas tecnicamente sem resposta.