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Mesmo com militares virando Uber e cortes na manutenção, Argentina compra até 235 blindados Stryker dos EUA

A nova frota poderá chegar a 243 veículos 8x8 e exigirá recursos para recuperação, treinamento e sustentação por décadas. No mesmo dia do acordo, a histórica Base Aeronaval Punta Indio perdeu capacidades, enquanto o Guarani brasileiro, antes negociado com transferência de tecnologia, ficou para trás.

Mesmo com militares virando Uber e cortes na manutenção, Argentina compra até 235 blindados Stryker dos EUA
Blindados Stryker 8x8 do Exército Argentino durante exercício militar. A Argentina assinou uma LOA com os Estados Unidos para incorporar até 235 veículos adicionais e poderá formar uma frota de 243 Stryker. Imagem: Exército Argentino

A Argentina assinou em 21 de agosto a carta que abre caminho para adquirir até 235 blindados Stryker 8×8 dos Estados Unidos. A decisão ocorre enquanto as Forças Armadas enfrentam cortes em manutenção, redução de estruturas e uma crise salarial que levou militares a buscar renda extra até como motoristas de Uber. Com oito veículos já incorporados, o Exército Argentino poderá operar uma frota de 243 Stryker.

Argentina poderá reunir 243 blindados Stryker

O ministro da Defesa, Carlos Alberto Presti, assinou a Letter of Offer and Acceptance (LOA) que formaliza a aceitação da oferta americana.

O Ministério da Defesa da Argentina confirmou oficialmente a incorporação de até 235 Stryker em versões para transporte de infantaria, comando, evacuação médica e apoio de fogo. Os novos veículos se somarão aos oito Stryker já incorporados.

O Exército pretende usar essa família para ampliar sua capacidade mecanizada sobre rodas e equipar a Força de Desdobramento Rápido.

Segundo o comunicado oficial do Exército Argentino sobre o projeto Stryker, Washington também deu ao país acesso prioritário ao programa Excess Defense Articles (EDA).

É justamente esse mecanismo que torna a operação incomum.

EUA oferecem excedentes; Argentina paga a sustentação

O programa EDA permite aos Estados Unidos transferir equipamentos militares excedentes a países parceiros por valores muito inferiores aos de uma compra convencional.

Isso pode tornar a chegada dos 235 Stryker excepcionalmente barata. Mas receber os veículos não significa ter 235 blindados prontos para operar.

As regras americanas para transferência de equipamentos excedentes deixam custos como transporte, recuperação e determinados serviços de suporte a cargo do país receptor, conforme a modalidade utilizada.

Uma comissão argentina já viajou a Fort Hood, no Texas, para inspecionar os veículos disponíveis.

Fileiras de veículos blindados Stryker dos Estados Unidos avaliados pelo Exército Argentino para futura incorporação
Fileiras de blindados Stryker disponíveis nos Estados Unidos durante a missão técnica do Exército Argentino para avaliar veículos do programa EDA. A Argentina poderá incorporar até 235 unidades adicionais e elevar sua frota a 243 Stryker. Imagem: Exército Argentino

O desafio começa quando eles deixam os depósitos americanos.

O Exército precisará recuperar e configurar os blindados, formar tripulações e mecânicos, adquirir peças, criar estoques e manter a frota disponível durante anos.

O próprio histórico do Stryker mostra a diferença entre receber um veículo barato e sustentar uma capacidade militar.

Em 2023, cada Stryker do Exército dos Estados Unidos gerou aproximadamente US$ 62 mil em custos médios de manutenção, segundo dados do Government Accountability Office. O número não inclui sozinho todo o custo de operar uma unidade militar.

Mais recentemente, o GAO identificou forte crescimento nos custos projetados de operação e sustentação do programa Stryker, impulsionado por fatores como peças, combustível, munição de treinamento e revisões.

A experiência americana não permite calcular diretamente quanto a Argentina gastará. Salários, intensidade de uso, contratos e condições dos veículos são diferentes.

Mas deixa uma questão concreta: o baixo custo de transferência não elimina a conta de manter 243 blindados operacionais.

A própria RSM já mostrou esse problema quando os Estados Unidos negociaram centenas de Stryker por valor simbólico com a Polônia. Os veículos baratos também exigiam reparos e uma nova cadeia de suporte.

Na Argentina, essa obrigação chega em um momento de forte disputa por recursos dentro das próprias Forças Armadas.

Cortes atingiram manutenção e alistamento militar

Em maio, o governo de Javier Milei reduziu em aproximadamente 59,6 bilhões de pesos as previsões orçamentárias destinadas às Forças Armadas.

Segundo levantamento do La Nación baseado na Decisão Administrativa 20/2026, o Exército perdeu cerca de $ 12,6 bilhões e a Força Aérea, $ 16,5 bilhões. O Estado-Maior Conjunto perdeu outros $ 3,76 bilhões.

A Armada Argentina sofreu o maior corte: cerca de $ 27 bilhões.

A redução alcançou áreas diretamente ligadas ao funcionamento das forças. O governo retirou aproximadamente $ 2,3 bilhões de serviços de manutenção da Armada e cerca de $ 2,5 bilhões da manutenção da Força Aérea.

Os cortes também atingiram alistamento operacional, equipamentos e outras despesas.

É nesse ambiente que o Exército se prepara para incorporar centenas de veículos que exigirão manutenção permanente.

O orçamento enfrenta ainda outro problema: pessoal.

Militares recorrem a Uber para completar renda

A crise salarial ganhou uma expressão incomum na Argentina: a “uberização” das Forças Armadas.

Em junho, uma reportagem do Clarín investigou a “uberização” das Forças Armadas e encontrou militares trabalhando com Uber e Rappi para complementar a renda. Outros integrantes também recorrem a atividades privadas fora dos quartéis.

O tema provocou uma controvérsia quando diferentes veículos noticiaram que o governo permitiria formalmente segundos empregos. O Executivo posteriormente negou ter editado uma resolução com essa autorização.

Essa desmentida, porém, dizia respeito à suposta autorização oficial. Os casos de militares recorrendo a aplicativos para complementar a renda já existiam e foram documentados pela imprensa argentina.

A situação também alimenta preocupações com a retenção de pessoal treinado.

O contraste é especialmente relevante para uma força que pretende colocar centenas de novos blindados em operação.

Cada Stryker exige tripulação, mecânicos, treinamento e uma estrutura logística capaz de mantê-lo disponível.

Sem pessoal e manutenção, quantidade não se transforma automaticamente em capacidade militar.

Punta Indio perde status após 101 anos

A falta de recursos também aparece na infraestrutura existente.

E uma coincidência de datas tornou esse contraste particularmente visível.

No mesmo 21 de agosto em que a Argentina formalizou o avanço dos Stryker, tornou-se pública a redução da histórica Base Aeronaval Punta Indio, na província de Buenos Aires.

Com 101 anos, Punta Indio deixará a categoria de Base Aeronaval e passará a funcionar como Estação Aeronaval.

A reestruturação de Punta Indio prevê concentrar capacidades na Base Aeronaval Comandante Espora, em Bahía Blanca.

A Armada transferirá a Escola de Aviação Naval e outras estruturas. A manutenção também será concentrada em Espora.

Punta Indio não fechará.

A Armada busca adequar uma instalação construída para uma Aviação Naval muito maior à quantidade de meios que possui hoje. A reorganização concentra pessoal, aeronaves e manutenção para reduzir estruturas duplicadas.

Esse argumento torna a comparação com os Stryker ainda mais relevante.

Enquanto a Armada reduz uma estrutura que já existe para adequá-la aos recursos disponíveis, o Exército assume a obrigação de sustentar uma frota que poderá chegar a 243 Stryker.

Guarani brasileiro chegou perto de ocupar esse espaço

Blindado VBTP-MR Guarani 6x6 do Exército Brasileiro acompanhado por militares durante exercício
VBTP-MR Guarani 6×6 do Exército Brasileiro durante atividade operacional. O veículo chegou a ser negociado com a Argentina, que assinou em 2023 uma carta de intenção para adquirir 156 unidades antes de avançar com a opção pelos Stryker dos Estados Unidos.

A escolha americana também encerra uma trajetória que chegou a colocar o Guarani 6×6 brasileiro no centro da futura força mecanizada argentina.

Em janeiro de 2023, Argentina e Brasil assinaram uma carta de intenção para avançar na aquisição de 156 VBTP-MR Guarani.

O projeto ia além da entrega dos blindados.

Segundo o acordo divulgado pelo próprio governo argentino, a proposta incluía transferência de tecnologia, fabricação progressiva de componentes na Argentina, suporte logístico e treinamento.

A Iveco já fabricava componentes ligados ao veículo em Córdoba. A proximidade entre os dois países também favorecia manutenção, logística e interoperabilidade.

O Guarani, porém, não chegou ao contrato definitivo.

A oferta americana mudou a equação. Washington pode transferir grandes quantidades de Stryker retirados de seus estoques por um custo inicial que uma plataforma nova dificilmente consegue igualar.

Isso não torna os dois projetos equivalentes.

O Guarani oferecia integração industrial entre Brasil e Argentina e transferência tecnológica. O Stryker oferece escala e baixo custo inicial, mas vincula a futura frota a uma cadeia de peças, recuperação e suporte americana.

Os dois veículos já chegaram a operar lado a lado. A RSM mostrou em maio que Stryker argentinos e Guarani do Exército Brasileiro participaram do Exercício Arandú 2026, no Sul do Brasil.

Agora, Buenos Aires escolheu qual família pretende levar para uma escala muito maior.

A decisão também reforça a aproximação militar entre Javier Milei e Washington. O próprio Ministério da Defesa argentino relacionou o acordo ao aumento do intercâmbio, treinamento e aquisição de equipamentos americanos.

Esse movimento não começou com o Stryker.

Em maio, a RSM mostrou que os Estados Unidos ampliavam sua presença militar na Argentina enquanto o Brasil levava KC-390, drones e blindados Guarani a Buenos Aires.

Os 235 veículos dão agora uma dimensão material a essa aproximação.

Para o Exército Argentino, a oportunidade é clara: receber uma grande quantidade de blindados de uma plataforma consolidada e padronizar sua força média sobre rodas.

A dúvida está no que acontece depois.

A Argentina tenta modernizar suas Forças Armadas ao mesmo tempo em que corta recursos de manutenção, reduz instalações existentes e enfrenta militares buscando renda fora dos quartéis.

Com o Stryker, o desafio não termina quando os veículos chegam.

Receber os blindados pode ser a parte barata. Mantê-los operacionais será o teste real.

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Miguel Ángel Scovenna Rivero y Hornos

Miguel Ángel Scovenna Rivero y Hornos

Analista em defesa, geopolítica e segurança internacional, com foco em assuntos militares, indústria de defesa e relações estratégicas na América Latina e no cenário global. Atua como colaborador da Revista Sociedade Militar, onde publica análises sobre política de defesa, capacidades militares e impactos geopolíticos de decisões estratégicas internacionais.