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Um país entrega em 2032 o primeiro submarino de projeto inteiramente próprio, e o brasileiro de propulsão nuclear foi empurrado para 2038

Um país entrega em 2032 o primeiro submarino de projeto inteiramente próprio, e o brasileiro de propulsão nuclear foi empurrado para 2038
O submarino Humaitá (S41), segundo da classe Riachuelo, navegando na superfície. Os quatro cascos brasileiros são construídos em Itaguaí, mas derivam do projeto francês Scorpène. Foto: Marinha do Brasil, CC BY-SA 2.0.

É a Turquia, com a classe Milden, e o contraste com o Prosub é de natureza e não de prazo: o Brasil já pôs quatro cascos na água, mas o projeto continua sendo francês

O país é a Turquia, e o submarino é o Milden, primeiro casco de projeto e fabricação plenamente nacionais da história do país.

O contrato da primeira fase foi assinado em 20 de dezembro de 2025 e a entrega está prevista para 2032, segundo o Infodefensa.

No mesmo intervalo, o Brasil terá quatro submarinos convencionais entregues pelo Prosub, mas nenhum deles de projeto brasileiro.

O submarino nuclear Álvaro Alberto, que é a peça original do programa, teve o lançamento reprogramado para 2038.

As três seções do primeiro casco brasileiro precisaram ser levadas por cinco quilômetros de estrada até o estaleiro, num deslocamento que exigiu interditar a BR-493.

É o tipo de detalhe que mostra a escala física do que se está construindo em Itaguaí.

O que a Turquia está construindo

O Milden terá mais de 80 metros de comprimento, cerca de 2.700 toneladas de deslocamento, 7 metros de boca e tripulação de 40 pessoas.

São oito tubos lança-torpedos de 533 milímetros, com torpedo Akya, míssil antinavio Sub-Atmaca e míssil de cruzeiro Gezgin, todos de desenvolvimento turco.

A propulsão independente do ar usa pilhas de combustível de membrana polimérica, em seis módulos de 60 quilowatts.

Propulsão independente do ar é o que permite ao submarino convencional permanecer submerso por semanas sem subir para carregar bateria.

É a fronteira entre o submarino diesel-elétrico clássico e o que se aproxima do desempenho de um nuclear em permanência.

O que significa projeto plenamente nacional

Construir o casco em casa é uma coisa.

Desenhar o submarino é outra, e é a segunda que a Turquia está perseguindo.

A lista de sistemas nacionais anunciada inclui o sonar, os radares, os equipamentos de guerra eletrônica, o controle autônomo de navegação e o sistema de gestão de combate, este último da Havelsan.

Até o aço entra na conta, com chapas de grau HY-80 e HY-100 fornecidas pela siderúrgica Erdemir.

A construção é no estaleiro de Gölcük, com a Asfat como contratante principal.

Onde o Brasil está

O Prosub entregou o Riachuelo em setembro de 2022 e o Humaitá em janeiro de 2024.

O Tonelero foi passado ao setor operativo da Marinha em 26 de novembro de 2025.

Na mesma data, o Almirante Karam foi lançado ao mar, com entrega prevista para este ano.

É o quarto e último da série convencional.

O relatório de gestão da Marinha registrou esse avanço em 2025, junto com o alerta sobre restrição orçamentária.

A diferença que o título não mostra

Os quatro submarinos brasileiros são da classe Riachuelo, derivada do Scorpène francês, construídos em Itaguaí com transferência de tecnologia da Naval Group.

O casco é montado no Brasil, o operário é brasileiro, a soldagem é brasileira e boa parte da cadeia de fornecimento é nacional.

O desenho, não.

É a distinção entre nacionalizar a fabricação e nacionalizar o projeto, e é exatamente ela que separa o programa brasileiro do turco neste momento.

O que o Brasil está fazendo que a Turquia não está

A comparação não é desfavorável ao Brasil em tudo.

O Álvaro Alberto é um submarino de propulsão nuclear, categoria que a Turquia não persegue e que apenas um punhado de países domina.

O reator é de projeto brasileiro, desenvolvido pela Marinha ao longo de décadas em Aramar, e é o item de maior barreira tecnológica de todo o programa.

O casco leva armamento convencional, o que mantém o país fora do clube nuclear militar, mas dentro do grupo que domina propulsão nuclear embarcada.

Hoje esse grupo tem seis países, e o Brasil trabalha para ser o sétimo.

A Turquia, que constrói fragata e corveta para exportação e já armou corvetas para a Malásia, não entrou nessa disputa.

O que empurrou 2038

O plano original, fechado em 2008, previa a entrega do Álvaro Alberto em 2025.

A data foi para 2034, depois para 2038.

A causa apontada é orçamentária, com indisponibilidade de recursos e ausência de previsibilidade ano a ano.

O orçamento anual do programa se estabilizou em torno de R$ 2 bilhões, valor que oficiais da Marinha consideram insuficiente.

A Marinha chegou a pedir R$ 1 bilhão para evitar a paralisação do projeto.

A cadeia industrial que ficou

O Prosub envolveu contato e intercâmbio com cerca de 400 empresas nacionais no processo de nacionalização.

Esse é o ativo que sobra de um programa desse porte independentemente do cronograma do casco, porque é o que permite manter, reparar e eventualmente projetar o próximo.

Foi essa cadeia que colocou o país na posição de discutir venda de submarino a vizinhos, ainda que com a ressalva de manter protegida a tecnologia sensível.

O complexo naval de Itaguaí é a estrutura física desse esforço, e recebeu visita presidencial em agosto, com promessa de recursos.

O Scorpène segue rendendo

O projeto francês que originou a classe brasileira continua se espalhando.

A Indonésia iniciou este mês, em Surabaya, a construção de dois Scorpène Evolved.

Cada país que entra nesse arranjo repete o mesmo dilema, que é ganhar capacidade de construção sem ganhar propriedade do desenho.

Nenhum dos dois países terá, em 2032, um submarino que reúna as duas coisas ao mesmo tempo.

A Turquia terá projeto próprio com propulsão convencional, e o Brasil terá propulsão nuclear com projeto de casco herdado.

O bloco de teste do submarino turco foi soldado em 16 de dezembro de 2024.

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Jefferson Silva

Jefferson Silva

Atuo na Sociedade Militar trazendo análises e conteúdos relacionados a Geopolítica, Tecnologia militar, Industria de Defesa e Inteligência Artificial.