É a Turquia, com a classe Milden, e o contraste com o Prosub é de natureza e não de prazo: o Brasil já pôs quatro cascos na água, mas o projeto continua sendo francês
O país é a Turquia, e o submarino é o Milden, primeiro casco de projeto e fabricação plenamente nacionais da história do país.
O contrato da primeira fase foi assinado em 20 de dezembro de 2025 e a entrega está prevista para 2032, segundo o Infodefensa.
No mesmo intervalo, o Brasil terá quatro submarinos convencionais entregues pelo Prosub, mas nenhum deles de projeto brasileiro.
O submarino nuclear Álvaro Alberto, que é a peça original do programa, teve o lançamento reprogramado para 2038.
As três seções do primeiro casco brasileiro precisaram ser levadas por cinco quilômetros de estrada até o estaleiro, num deslocamento que exigiu interditar a BR-493.
É o tipo de detalhe que mostra a escala física do que se está construindo em Itaguaí.
O que a Turquia está construindo
O Milden terá mais de 80 metros de comprimento, cerca de 2.700 toneladas de deslocamento, 7 metros de boca e tripulação de 40 pessoas.
São oito tubos lança-torpedos de 533 milímetros, com torpedo Akya, míssil antinavio Sub-Atmaca e míssil de cruzeiro Gezgin, todos de desenvolvimento turco.
A propulsão independente do ar usa pilhas de combustível de membrana polimérica, em seis módulos de 60 quilowatts.
Propulsão independente do ar é o que permite ao submarino convencional permanecer submerso por semanas sem subir para carregar bateria.
É a fronteira entre o submarino diesel-elétrico clássico e o que se aproxima do desempenho de um nuclear em permanência.
O que significa projeto plenamente nacional
Construir o casco em casa é uma coisa.
Desenhar o submarino é outra, e é a segunda que a Turquia está perseguindo.
A lista de sistemas nacionais anunciada inclui o sonar, os radares, os equipamentos de guerra eletrônica, o controle autônomo de navegação e o sistema de gestão de combate, este último da Havelsan.
Até o aço entra na conta, com chapas de grau HY-80 e HY-100 fornecidas pela siderúrgica Erdemir.
A construção é no estaleiro de Gölcük, com a Asfat como contratante principal.
Onde o Brasil está
O Prosub entregou o Riachuelo em setembro de 2022 e o Humaitá em janeiro de 2024.
O Tonelero foi passado ao setor operativo da Marinha em 26 de novembro de 2025.
Na mesma data, o Almirante Karam foi lançado ao mar, com entrega prevista para este ano.
É o quarto e último da série convencional.
O relatório de gestão da Marinha registrou esse avanço em 2025, junto com o alerta sobre restrição orçamentária.
A diferença que o título não mostra
Os quatro submarinos brasileiros são da classe Riachuelo, derivada do Scorpène francês, construídos em Itaguaí com transferência de tecnologia da Naval Group.
O casco é montado no Brasil, o operário é brasileiro, a soldagem é brasileira e boa parte da cadeia de fornecimento é nacional.
O desenho, não.
É a distinção entre nacionalizar a fabricação e nacionalizar o projeto, e é exatamente ela que separa o programa brasileiro do turco neste momento.
O que o Brasil está fazendo que a Turquia não está
A comparação não é desfavorável ao Brasil em tudo.
O Álvaro Alberto é um submarino de propulsão nuclear, categoria que a Turquia não persegue e que apenas um punhado de países domina.
O reator é de projeto brasileiro, desenvolvido pela Marinha ao longo de décadas em Aramar, e é o item de maior barreira tecnológica de todo o programa.
O casco leva armamento convencional, o que mantém o país fora do clube nuclear militar, mas dentro do grupo que domina propulsão nuclear embarcada.
Hoje esse grupo tem seis países, e o Brasil trabalha para ser o sétimo.
A Turquia, que constrói fragata e corveta para exportação e já armou corvetas para a Malásia, não entrou nessa disputa.
O que empurrou 2038
O plano original, fechado em 2008, previa a entrega do Álvaro Alberto em 2025.
A data foi para 2034, depois para 2038.
A causa apontada é orçamentária, com indisponibilidade de recursos e ausência de previsibilidade ano a ano.
O orçamento anual do programa se estabilizou em torno de R$ 2 bilhões, valor que oficiais da Marinha consideram insuficiente.
A Marinha chegou a pedir R$ 1 bilhão para evitar a paralisação do projeto.
A cadeia industrial que ficou
O Prosub envolveu contato e intercâmbio com cerca de 400 empresas nacionais no processo de nacionalização.
Esse é o ativo que sobra de um programa desse porte independentemente do cronograma do casco, porque é o que permite manter, reparar e eventualmente projetar o próximo.
Foi essa cadeia que colocou o país na posição de discutir venda de submarino a vizinhos, ainda que com a ressalva de manter protegida a tecnologia sensível.
O complexo naval de Itaguaí é a estrutura física desse esforço, e recebeu visita presidencial em agosto, com promessa de recursos.
O Scorpène segue rendendo
O projeto francês que originou a classe brasileira continua se espalhando.
A Indonésia iniciou este mês, em Surabaya, a construção de dois Scorpène Evolved.
Cada país que entra nesse arranjo repete o mesmo dilema, que é ganhar capacidade de construção sem ganhar propriedade do desenho.
Nenhum dos dois países terá, em 2032, um submarino que reúna as duas coisas ao mesmo tempo.
A Turquia terá projeto próprio com propulsão convencional, e o Brasil terá propulsão nuclear com projeto de casco herdado.
O bloco de teste do submarino turco foi soldado em 16 de dezembro de 2024.
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