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Apesar da crise entre Lula e Milei, Brasil e Argentina avançam em ferrovia estratégica na fronteira por onde passam 600 caminhões por dia

Enquanto Brasília e Buenos Aires atravessam uma forte crise diplomática, obras avançam para recuperar uma ligação ferroviária interrompida desde 2017. Do lado brasileiro, um corredor de R$ 4,8 bilhões chega justamente a Uruguaiana, diante da Argentina.

Apesar da crise entre Lula e Milei, Brasil e Argentina avançam em ferrovia estratégica na fronteira por onde passam 600 caminhões por dia
Ponte Internacional Agustín P. Justo–Getúlio Vargas conecta Uruguaiana, no Brasil, a Paso de los Libres, na Argentina, em um dos principais eixos logísticos da fronteira entre os dois países.

Brasil e Argentina avançam na recuperação de uma ligação ferroviária estratégica entre Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, e Paso de los Libres, na Argentina, apesar da crise entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei. A ferrovia chega a uma fronteira que abriga o maior porto seco da América Latina, por onde passam cerca de 600 caminhões por dia.

Obras argentinas chegam à fronteira com Brasil

Entre 4 e 6 de agosto, técnicos do Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (FOCEM) inspecionaram as obras de recuperação da Linha Urquiza.

A visita incluiu Paso de los Libres e o trecho que conduz à Ponte Internacional Agustín Pedro Justo–Getúlio Vargas, ligação direta com Uruguaiana.

Segundo o FOCEM, que confirmou o avanço das obras em 11 de agosto, o projeto prevê recuperar 210 quilômetros de vias férreas e duas pontes. O fundo financia US$ 29,8 milhões e a contrapartida argentina soma US$ 14,6 milhões.

A intervenção alcança uma conexão internacional que não recebe trens de cargas entre Paso de los Libres e Uruguaiana desde 2017.

Maior porto seco recebe 600 caminhões por dia

Vista aérea do Porto Seco de Uruguaiana com dezenas de caminhões e carretas estacionados no terminal de cargas
Vista aérea do Porto Seco de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul. Segundo a Receita Federal, o terminal é o maior porto seco da América Latina e recebe aproximadamente 600 caminhões por dia. Crédito da imagem: Multilog

A escala do corredor aparece do lado brasileiro.

Uruguaiana possui o maior Porto Seco da América Latina, segundo a Receita Federal, que registra aproximadamente 600 caminhões passando pelo local todos os dias.

O FOCEM identifica potencial ferroviário para cargas de papel, plásticos, produtos químicos, laticínios, bebidas e da indústria automotiva. A recuperação acrescentaria capacidade ferroviária a um eixo comercial que hoje registra intenso movimento rodoviário.

Brasil prepara corredor de R$ 4,8 bilhões

A movimentação não ocorre apenas na Argentina.

A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) estrutura uma nova concessão da Malha Sul que inclui oficialmente o Corredor Mercosul.

O projeto possui 1.865,78 quilômetros. No Sul, passa por Mafra, Passo Fundo, Porto Alegre, Santa Maria e Cacequi antes de chegar a Uruguaiana, na fronteira argentina.

A ANTT prevê R$ 4,8 bilhões em investimentos no Corredor Mercosul, incluindo cerca de R$ 3 bilhões para reconstruir infraestrutura ferroviária gaúcha afetada por eventos climáticos.

Ainda há obstáculos antes da retomada internacional. O FOCEM aponta a necessidade de reabilitar o trecho Cacequi–Uruguaiana e construir o contorno ferroviário de Uruguaiana para aproveitar plenamente a conexão.

Cooperação avança apesar da crise política

A ferrovia expõe um contraste que também aparece na área de defesa.

Mesmo com a deterioração da relação entre Lula e Milei, estruturas permanentes de cooperação entre os dois países continuam funcionando.

Em agosto, a RSM mostrou que Milei autorizou a entrada do submarino Humaitá e de outros meios da Marinha do Brasil na Argentina em plena crise diplomática. Os dois países mantiveram o exercício naval Fraterno XXXIX apesar das divergências políticas.

Na infraestrutura, ocorre movimento semelhante. A Argentina recupera sua ligação ferroviária até a fronteira enquanto o Brasil estrutura um corredor de R$ 4,8 bilhões que termina no mesmo ponto.

Isso ainda não significa a volta imediata dos trens entre Uruguaiana e Paso de los Libres. Não há, até o momento, uma data oficial para a retomada do tráfego ferroviário internacional.

Mas o avanço nos dois lados mostra que, apesar da crise entre Lula e Milei, a integração logística entre Brasil e Argentina continua em movimento.

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Miguel Ángel Scovenna Rivero y Hornos

Miguel Ángel Scovenna Rivero y Hornos

Analista em defesa, geopolítica e segurança internacional, com foco em assuntos militares, indústria de defesa e relações estratégicas na América Latina e no cenário global. Atua como colaborador da Revista Sociedade Militar, onde publica análises sobre política de defesa, capacidades militares e impactos geopolíticos de decisões estratégicas internacionais.