Drones que identificam alvos, embarcações capazes de navegar sem tripulação e veículos terrestres controlados a distância deixaram de ocupar apenas demonstrações tecnológicas e passaram a influenciar diretamente o planejamento militar de diferentes países.
No Brasil, Ministério da Defesa, Exército, Marinha e Força Aérea estudam como ampliar e integrar o emprego desses sistemas, ao mesmo tempo em que procuram reduzir a dependência estrangeira em tecnologias consideradas críticas para operações futuras.
Segundo a Agência Marinha de Notícias, especialistas das três Forças reuniram-se nos dias 13 e 14 de agosto, na Escola Superior de Defesa, em Brasília, para apresentar capacidades já existentes, projetos em desenvolvimento e alternativas para aumentar a cooperação entre Exército, Marinha e Aeronáutica.
O movimento ocorre enquanto conflitos recentes demonstram que plataformas não tripuladas podem atuar no ar, em terra, na superfície do mar e debaixo d’água, realizando desde reconhecimento e vigilância até transporte, guerra eletrônica e missões de ataque.
Marinha desenvolve veículos sem tripulação para a Amazônia Azul
No ambiente marítimo, uma das prioridades brasileiras é ampliar a capacidade de monitoramento da chamada Amazônia Azul, extensa área de interesse estratégico que concentra rotas comerciais, recursos naturais, infraestrutura energética e diferentes atividades econômicas.
A Marinha utiliza o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul, o SisGAAz, para integrar informações provenientes de sensores e diferentes fontes e ampliar a consciência situacional sobre as águas de interesse do País.
Os sistemas autônomos aparecem como uma das tecnologias capazes de complementar essa estrutura.
A própria Marinha desenvolve desde 2021 veículos de superfície não tripulados e já possui plataformas experimentais destinadas a missões como vigilância, reconhecimento, inteligência, proteção de infraestrutura e contramedidas de minagem.
Um dos projetos mais importantes nessa área é o PRISMA, Plataforma Remota de Interface para Sistemas Marítimos Autônomos, desenvolvido pelo Centro de Análises de Sistemas Navais (CASNAV).
O sistema permite transformar embarcações convencionais em veículos controlados remotamente ou com diferentes graus de autonomia.
Durante a DroneShow Robotics 2026, a Marinha demonstrou a tecnologia controlando, a partir de São Paulo, uma embarcação localizada no Rio de Janeiro. Segundo a Força, o sistema pode ser empregado em vigilância, reconhecimento, inteligência, busca e salvamento, guerra de minas e proteção de infraestruturas críticas.
De acordo com a Agência Marinha de Notícias, tecnologias dessa natureza também são analisadas como forma de preencher lacunas de cobertura do SisGAAz e ampliar a presença da Marinha sem exigir que todo sensor ou veículo tenha uma tripulação embarcada.
Exército estuda drones armados e robôs terrestres
Em terra, o Exército Brasileiro também acelerou seus estudos sobre sistemas não tripulados.
A Força já emprega diferentes categorias de drones para reconhecimento e vigilância, incluindo equipamentos da XMobots, e vem estudando plataformas com maior autonomia, alcance e capacidade de transportar armamentos.
O Nauru 1000C, por exemplo, já aparece em estudos doutrinários do próprio Exército relacionados ao emprego de sistemas aéreos remotamente pilotados em apoio às tropas blindadas.
O interesse vai além dos veículos aéreos.
Segundo a Agência Marinha de Notícias, o Exército mantém iniciativas envolvendo veículos terrestres não tripulados e acompanha soluções apresentadas por empresas brasileiras e estrangeiras, incluindo Taurus e companhias ligadas à indústria turca e ao grupo EDGE.
A movimentação coincide com uma discussão mais ampla dentro da Força Terrestre.
Em maio, o Quartel-General do Exército recebeu o 1º Simpósio de Sistemas Não Tripulados da Força Terrestre, reunindo fabricantes, especialistas e integrantes do Alto-Comando para acompanhar tecnologias aéreas e terrestres, inclusive plataformas capazes de receber armamentos.
O Exército também reconhece oficialmente que sistemas não tripulados, inteligência artificial, guerra eletrônica e comunicações resistentes a interferências estão transformando o campo de batalha e deverão ganhar espaço no processo de modernização da Força.
FAB procura caminho para um drone nacional
A Força Aérea Brasileira possui uma experiência de mais de uma década com aeronaves remotamente pilotadas de maior porte.
O Hermes RQ-900, de origem israelense, é operado pela FAB desde 2014 e permanece entre as aeronaves de inteligência, vigilância e reconhecimento da instituição.
A aeronave pode executar missões prolongadas de vigilância. Em publicação oficial de março de 2026, a FAB informou que o RQ-900 consegue permanecer aproximadamente 30 horas em voo contínuo, permitindo acompanhar grandes regiões por longos períodos.
Agora, porém, a Aeronáutica busca desenvolver uma capacidade nacional.
Em maio, a FAB abriu uma consulta à indústria brasileira para identificar empresas capazes de desenvolver Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas no País.
O levantamento faz parte do Projeto RQ-XBR, conduzido com participação da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate, a COPAC. A consulta foi direcionada a empresas brasileiras com capacidade de desenvolver uma futura plataforma nacional.
Durante o encontro promovido pelo Ministério da Defesa, o Major-Brigadeiro do Ar Frederico Casarino destacou justamente a intenção de ampliar a autonomia brasileira nesse segmento.
Segundo ele, a FAB considera estrategicamente relevante que o País seja capaz de desenvolver seus próprios sistemas remotamente pilotados, reduzindo a dependência de fornecedores estrangeiros.
Dependência estrangeira preocupa militares
O desafio brasileiro não está apenas em comprar drones.
Para integrantes das Forças Armadas, uma questão central está em dominar sensores, enlaces de comunicação, inteligência artificial, navegação, sistemas de controle, armamentos e outros componentes necessários para manter uma plataforma operacional durante anos.
O General de Brigada Gelson de Souza, do Estado-Maior do Exército, afirmou no encontro que tecnologias militares críticas normalmente enfrentam restrições de transferência entre países.
Por esse motivo, o Exército procura associar determinadas aquisições internacionais à transferência de tecnologia e ao desenvolvimento de capacidade industrial dentro do Brasil.
A preocupação ganhou peso após conflitos recentes demonstrarem como embargos, sanções e interrupções nas cadeias internacionais de fornecimento podem comprometer a disponibilidade de equipamentos militares.
A própria Marinha vem defendendo que uma Base Industrial de Defesa capaz de fabricar, integrar, manter e modernizar sensores, munições e sistemas não tripulados é elemento necessário para aumentar a autonomia estratégica brasileira.
Defesa tenta aproximar projetos das três Forças
Um dos problemas identificados pelo Ministério da Defesa é que Exército, Marinha e Aeronáutica desenvolveram necessidades e projetos próprios ao longo dos últimos anos.
O encontro em Brasília procurou discutir justamente possibilidades de padronização, compartilhamento de conhecimento, formação conjunta e ganho de escala.
O Chefe de Operações Conjuntas do Ministério da Defesa, Almirante de Esquadra Paulo César Bittencourt Ferreira, apontou a velocidade da transformação tecnológica como uma preocupação para o planejamento militar.
Atualmente, Bittencourt Ferreira ocupa oficialmente a Chefia de Operações Conjuntas do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, estrutura responsável pela coordenação de diferentes atividades operacionais envolvendo as três Forças.
Segundo o almirante, inteligência artificial e novos sistemas robóticos tornam necessária uma maior integração de especialistas, recursos e objetivos para impedir que equipamentos adquiridos hoje se tornem rapidamente ultrapassados.
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Enxames com drones baratos, seguidos de drones de alto poder e precisão é uma ótima estratégia, tira o foco das defesas, e isso pode ser usado até com drones marítimos que podem ficar em standby e serem acionados furtivamente.