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Lula visita coração nuclear da Marinha, promete “arrumar recursos” para concluir primeiro submarino nuclear do Brasil e diz que país precisa ter força para defender sua soberania diante de ameaças externas

Promessa de Lula para garantir recursos ao submarino nuclear brasileiro reacende debate sobre soberania, orçamento militar e continuidade do PROSUB, enquanto a Marinha avança em Aramar e tenta evitar novos atrasos em um dos projetos estratégicos mais ambiciosos do País.

Lula visita coração nuclear da Marinha, promete “arrumar recursos” para concluir primeiro submarino nuclear do Brasil e diz que país precisa ter força para defender sua soberania diante de ameaças externas
Submarino Almirante Karam (S43), integrante do PROSUB, programa que também contempla o futuro submarino brasileiro de propulsão nuclear Álvaro Alberto. Foto de arquivo: Marinha do Brasil.
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Projetos militares capazes de atravessar décadas enfrentam um problema conhecido no Brasil: mudanças de governo, contingenciamentos e oscilações anuais de orçamento podem alterar cronogramas mesmo depois de bilhões de reais investidos e estruturas industriais já construídas.

Foi diante desse cenário que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu buscar recursos para concluir o primeiro submarino brasileiro convencionalmente armado com propulsão nuclear, o Álvaro Alberto, durante visita ao Centro Industrial Nuclear de Aramar (CINA), em Iperó, interior de São Paulo, nesta quarta-feira (19).

“Volto para Brasília e nós vamos arrumar os recursos para que a gente termine, de uma vez por todas, esse submarino”, afirmou Lula durante a agenda.

Segundo o jornal O Globo, o presidente relacionou diretamente o empreendimento à soberania nacional, ao domínio tecnológico e à formação de profissionais especializados, além de defender uma forma de financiamento capaz de proteger projetos estratégicos das oscilações do Orçamento da União.

Lula acompanha montagem de estrutura que dará origem à propulsão nuclear

A visita ocorreu justamente quando o Programa Nuclear da Marinha entra em uma de suas etapas tecnologicamente mais delicadas.

No Centro Industrial Nuclear de Aramar está sendo construído o Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE), uma instalação em terra que reproduzirá, em escala real, o sistema de propulsão nuclear previsto para o futuro submarino.

O complexo possui 11 prédios e permitirá testar o reator, turbinas, sistemas eletromecânicos, controles e diferentes condições de funcionamento antes da instalação da planta nuclear no Álvaro Alberto.

A Marinha utiliza um reator do tipo PWR, de água pressurizada, tecnologia empregada mundialmente em diferentes submarinos nucleares. O calor produzido pela fissão do urânio gera vapor, que movimenta turbinas responsáveis pela geração de energia necessária à propulsão.

Lula acompanhou o avanço da montagem dessa estrutura e voltou a criticar a irregularidade dos recursos destinados a empreendimentos que precisam de planejamento durante muitos anos.

Presidente critica contingenciamentos

Segundo Lula, projetos dessa dimensão ficam vulneráveis quando precisam disputar recursos anualmente com outras despesas públicas.

O presidente argumentou que um submarino nuclear dificilmente terá, durante a elaboração do Orçamento, a mesma prioridade imediata de setores como saúde e educação e, por isso, programas estratégicos de Defesa deveriam receber tratamento específico.

A crítica ganha relevância porque o próprio governo atual também realizou bloqueios no orçamento militar.

Em maio de 2026, o governo contingenciou aproximadamente R$ 4,36 bilhões do Ministério da Defesa, dentro das medidas fiscais adotadas naquele período.

Essa combinação entre defesa pública de maiores investimentos e necessidade de cumprir regras fiscais ajuda a explicar a disputa por previsibilidade financeira que acompanha o programa.

Em março, antes da visita presidencial, a própria Marinha havia informado que precisava de aproximadamente R$ 1 bilhão adicional em 2026 para preservar o ritmo do PROSUB e evitar interrupções em áreas consideradas críticas.

Apenas 9,24% do submarino estavam executados ao final de 2025

O estágio do Álvaro Alberto mostra quanto trabalho ainda existe pela frente.

De acordo com o Relatório de Gestão 2025 da Marinha, o projeto e a construção do Submarino Nuclear Convencionalmente Armado alcançaram 9,24% de execução física até 31 de dezembro de 2025.

O documento apontou restrições orçamentárias, complexidade técnica e o caráter inédito do empreendimento entre as razões que impediram o cumprimento integral do cronograma previsto.

A construção do submarino representa a etapa mais complexa do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), criado a partir da parceria estratégica firmada entre Brasil e França em 2008.

O programa compreende quatro submarinos convencionais derivados do projeto francês Scorpène, infraestrutura industrial e naval construída em Itaguaí e o desenvolvimento do Álvaro Alberto.

Em novembro de 2025, a Marinha realizou a entrega do Tonelero (S42) e lançou ao mar o Almirante Karam (S43), marcando o encerramento progressivo da fase dedicada às unidades convencionais e uma transição maior para o submarino de propulsão nuclear.

Projeto já sofreu sucessivos atrasos

O cronograma do Álvaro Alberto foi alterado diversas vezes.

Em março deste ano, a Marinha trabalhava publicamente com conclusão por volta de 2037, segundo informações divulgadas quando a Força alertou sobre a necessidade do aporte adicional de R$ 1 bilhão.

Uma das preocupações é que cortes prolongados não afetam apenas obras físicas.

Programas nucleares dependem de engenheiros, pesquisadores, técnicos, fornecedores especializados e conhecimentos acumulados durante anos. Uma interrupção pode provocar dispersão de equipes e posteriormente aumentar o custo e o tempo necessários para reconstruir essas capacidades.

Lula mencionou justamente esse risco ao relacionar continuidade orçamentária à permanência de profissionais altamente qualificados no País.

Brasil entraria em grupo de apenas seis países

A conclusão do Álvaro Alberto produziria uma mudança significativa na capacidade naval brasileira.

Atualmente, apenas Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Índia operam submarinos movidos por propulsão nuclear.

Caso consiga desenvolver, construir e colocar o Álvaro Alberto em operação, o Brasil passaria a integrar esse grupo extremamente restrito.

Existe também uma distinção fundamental: propulsão nuclear não significa armamento nuclear.

O submarino brasileiro está sendo projetado para utilizar um reator nuclear como fonte de energia, mas permanecerá equipado com armamento convencional. O Brasil também está sujeito aos compromissos internacionais de não proliferação nuclear.

A grande vantagem operacional da propulsão está na capacidade de permanecer submerso por períodos muito superiores aos dos submarinos diesel-elétricos, reduzindo a necessidade de emergir ou utilizar sistemas de recarga de baterias.

Essa característica é particularmente relevante para um país que precisa vigiar uma enorme área marítima e proteger rotas comerciais, instalações offshore e recursos existentes na chamada Amazônia Azul.

‘Soberania não pode ficar no discurso’

Durante a visita, Lula ampliou a discussão para além do submarino.

O presidente afirmou que o Brasil precisa possuir recursos materiais para sustentar sua soberania e declarou que o País deve estar preparado para ter força para dizer “não” quando seus interesses forem confrontados.

“O que a gente não pode é ser um País desse tamanho de cabeça baixa a vida inteira”, afirmou.

O discurso ocorre em um ambiente regional significativamente diferente daquele existente quando o PROSUB foi lançado, em 2008.

Em janeiro de 2026, forças dos Estados Unidos realizaram uma grande operação militar na Venezuela que resultou na captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, episódio que ampliou debates sobre soberania e capacidade militar na América Latina.

Ao mesmo tempo, o desafio para o governo permanece essencialmente financeiro.

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Alisson Ficher

Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 13 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com.