Projetos militares capazes de atravessar décadas enfrentam um problema conhecido no Brasil: mudanças de governo, contingenciamentos e oscilações anuais de orçamento podem alterar cronogramas mesmo depois de bilhões de reais investidos e estruturas industriais já construídas.
Foi diante desse cenário que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu buscar recursos para concluir o primeiro submarino brasileiro convencionalmente armado com propulsão nuclear, o Álvaro Alberto, durante visita ao Centro Industrial Nuclear de Aramar (CINA), em Iperó, interior de São Paulo, nesta quarta-feira (19).
“Volto para Brasília e nós vamos arrumar os recursos para que a gente termine, de uma vez por todas, esse submarino”, afirmou Lula durante a agenda.
Segundo o jornal O Globo, o presidente relacionou diretamente o empreendimento à soberania nacional, ao domínio tecnológico e à formação de profissionais especializados, além de defender uma forma de financiamento capaz de proteger projetos estratégicos das oscilações do Orçamento da União.
Lula acompanha montagem de estrutura que dará origem à propulsão nuclear
A visita ocorreu justamente quando o Programa Nuclear da Marinha entra em uma de suas etapas tecnologicamente mais delicadas.
No Centro Industrial Nuclear de Aramar está sendo construído o Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE), uma instalação em terra que reproduzirá, em escala real, o sistema de propulsão nuclear previsto para o futuro submarino.
O complexo possui 11 prédios e permitirá testar o reator, turbinas, sistemas eletromecânicos, controles e diferentes condições de funcionamento antes da instalação da planta nuclear no Álvaro Alberto.
A Marinha utiliza um reator do tipo PWR, de água pressurizada, tecnologia empregada mundialmente em diferentes submarinos nucleares. O calor produzido pela fissão do urânio gera vapor, que movimenta turbinas responsáveis pela geração de energia necessária à propulsão.
Lula acompanhou o avanço da montagem dessa estrutura e voltou a criticar a irregularidade dos recursos destinados a empreendimentos que precisam de planejamento durante muitos anos.
Presidente critica contingenciamentos
Segundo Lula, projetos dessa dimensão ficam vulneráveis quando precisam disputar recursos anualmente com outras despesas públicas.
O presidente argumentou que um submarino nuclear dificilmente terá, durante a elaboração do Orçamento, a mesma prioridade imediata de setores como saúde e educação e, por isso, programas estratégicos de Defesa deveriam receber tratamento específico.
A crítica ganha relevância porque o próprio governo atual também realizou bloqueios no orçamento militar.
Em maio de 2026, o governo contingenciou aproximadamente R$ 4,36 bilhões do Ministério da Defesa, dentro das medidas fiscais adotadas naquele período.
Essa combinação entre defesa pública de maiores investimentos e necessidade de cumprir regras fiscais ajuda a explicar a disputa por previsibilidade financeira que acompanha o programa.
Em março, antes da visita presidencial, a própria Marinha havia informado que precisava de aproximadamente R$ 1 bilhão adicional em 2026 para preservar o ritmo do PROSUB e evitar interrupções em áreas consideradas críticas.
Apenas 9,24% do submarino estavam executados ao final de 2025
O estágio do Álvaro Alberto mostra quanto trabalho ainda existe pela frente.
De acordo com o Relatório de Gestão 2025 da Marinha, o projeto e a construção do Submarino Nuclear Convencionalmente Armado alcançaram 9,24% de execução física até 31 de dezembro de 2025.
O documento apontou restrições orçamentárias, complexidade técnica e o caráter inédito do empreendimento entre as razões que impediram o cumprimento integral do cronograma previsto.
A construção do submarino representa a etapa mais complexa do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), criado a partir da parceria estratégica firmada entre Brasil e França em 2008.
O programa compreende quatro submarinos convencionais derivados do projeto francês Scorpène, infraestrutura industrial e naval construída em Itaguaí e o desenvolvimento do Álvaro Alberto.
Em novembro de 2025, a Marinha realizou a entrega do Tonelero (S42) e lançou ao mar o Almirante Karam (S43), marcando o encerramento progressivo da fase dedicada às unidades convencionais e uma transição maior para o submarino de propulsão nuclear.
Projeto já sofreu sucessivos atrasos
O cronograma do Álvaro Alberto foi alterado diversas vezes.
Em março deste ano, a Marinha trabalhava publicamente com conclusão por volta de 2037, segundo informações divulgadas quando a Força alertou sobre a necessidade do aporte adicional de R$ 1 bilhão.
Uma das preocupações é que cortes prolongados não afetam apenas obras físicas.
Programas nucleares dependem de engenheiros, pesquisadores, técnicos, fornecedores especializados e conhecimentos acumulados durante anos. Uma interrupção pode provocar dispersão de equipes e posteriormente aumentar o custo e o tempo necessários para reconstruir essas capacidades.
Lula mencionou justamente esse risco ao relacionar continuidade orçamentária à permanência de profissionais altamente qualificados no País.
Brasil entraria em grupo de apenas seis países
A conclusão do Álvaro Alberto produziria uma mudança significativa na capacidade naval brasileira.
Atualmente, apenas Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Índia operam submarinos movidos por propulsão nuclear.
Caso consiga desenvolver, construir e colocar o Álvaro Alberto em operação, o Brasil passaria a integrar esse grupo extremamente restrito.
Existe também uma distinção fundamental: propulsão nuclear não significa armamento nuclear.
O submarino brasileiro está sendo projetado para utilizar um reator nuclear como fonte de energia, mas permanecerá equipado com armamento convencional. O Brasil também está sujeito aos compromissos internacionais de não proliferação nuclear.
A grande vantagem operacional da propulsão está na capacidade de permanecer submerso por períodos muito superiores aos dos submarinos diesel-elétricos, reduzindo a necessidade de emergir ou utilizar sistemas de recarga de baterias.
Essa característica é particularmente relevante para um país que precisa vigiar uma enorme área marítima e proteger rotas comerciais, instalações offshore e recursos existentes na chamada Amazônia Azul.
‘Soberania não pode ficar no discurso’
Durante a visita, Lula ampliou a discussão para além do submarino.
O presidente afirmou que o Brasil precisa possuir recursos materiais para sustentar sua soberania e declarou que o País deve estar preparado para ter força para dizer “não” quando seus interesses forem confrontados.
“O que a gente não pode é ser um País desse tamanho de cabeça baixa a vida inteira”, afirmou.
O discurso ocorre em um ambiente regional significativamente diferente daquele existente quando o PROSUB foi lançado, em 2008.
Em janeiro de 2026, forças dos Estados Unidos realizaram uma grande operação militar na Venezuela que resultou na captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, episódio que ampliou debates sobre soberania e capacidade militar na América Latina.
Ao mesmo tempo, o desafio para o governo permanece essencialmente financeiro.
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