É o Exército Brasileiro, e o blindado é o Leopard 1A5BR, cujo mercado de sobressalentes secou depois que centenas de unidades e estoques inteiros foram parar na Ucrânia
A força é o Exército Brasileiro, e o blindado é o carro de combate Leopard 1A5BR.
O caminho escolhido é a engenharia reversa: desmontar a peça original, medir tudo e reproduzir o item no Brasil.
O motivo é simples e não tem volta fácil, porque o componente que a frota precisa deixou de existir no mercado internacional.
O objetivo declarado é manter o Leopard 1A5BR operacional até 2040.
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O trabalho reúne o Estado-Maior do Exército, a Universidade Federal de Santa Maria e empresas da base industrial de defesa.
Por que a peça sumiu
O Exército vem colocando Guarani, Leopard e Astros na mesma tropa, e o carro de combate é a peça mais difícil de sustentar do conjunto.
O Leopard 1 saiu de linha há décadas, e a produção de componente de reposição já era limitada antes da guerra na Ucrânia.
Depois de 2022, centenas de carros de combate Leopard 1 e Leopard 2 foram enviados a Kiev, acompanhados de estoques inteiros de sobressalentes.
A Ucrânia passou a ter prioridade logística na obtenção desse material, e sobrou pouco para quem opera o mesmo blindado em outros continentes.
O Exército lista ainda outros três fatores: recusa de fabricantes em compartilhar especificação técnica, obsolescência de sistemas produzidos há décadas e alta da demanda internacional por causa dos conflitos recentes.
A soma disso encareceu o item e travou a cadeia de abastecimento da frota brasileira.
O que a engenharia reversa faz na prática
Não é copiar formato e mandar usinar.
A metodologia descrita pelo Exército envolve análise de geometria da peça, das ligas metálicas usadas, dos tratamentos térmicos aplicados, dos processos de fabricação e das propriedades físico-químicas do material.
Só depois disso a empresa brasileira desenvolve uma solução compatível com o requisito técnico original.
Peça de blindado trabalha sob carga, calor e vibração, e material errado quebra na hora errada.
É o mesmo tipo de esforço que o país já fez em outras áreas, como a fabricação de fuzil sob licença em Itajubá.
Quem está fazendo o quê
A Universidade Federal de Santa Maria entra com pesquisa em materiais, caracterização metalúrgica e desenvolvimento de processo industrial.
Do lado da indústria, o Exército já citou dois exemplos concretos.
A Fras-le desenvolveu sistemas de freio para a viatura.
A Omnisys conduz estudos para soluções ligadas ao computador de tiro do carro de combate.
Há também desenvolvimento de componentes mecânicos e eletrônicos que antes eram só importados, com apoio de federações industriais.
O parque onde o carro entra e sai
A execução fica no Parque Regional de Manutenção da 3ª Região Militar, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
Os carros vêm dos regimentos de cavalaria do Comando Militar do Sul, passam por diagnóstico e o trabalho se divide em duas frentes, o chassi e a torre.
Cada revitalização leva pelo menos dois meses.
Dentro do parque funciona uma seção de Estudos e Projetos, onde engenheiros formados no Instituto Militar de Engenharia desenvolvem peças exclusivas.
O diretor do parque, coronel Idunalvo Mariano, afirmou que a revitalização dá ao Exército uma sobrevida de poder de combate por mais quinze anos.
Os números do projeto
As duas primeiras viaturas foram concluídas em janeiro de 2026.
A previsão é revitalizar cinco carros ao longo de 2026.
O projeto tem dez anos de duração e meta total de 52 unidades.
Ele está dentro do Programa Estratégico Forças Blindadas, lançado no segundo semestre de 2025, e é gerido pelo Estado-Maior do Exército, coordenado pelo Comando Militar do Sul e pelo Comando Logístico.
A nacionalização de peças é a parte do projeto que garante que os outros nove anos sejam possíveis.
Quantos carros existem na conta
O Exército tem 220 Leopard 1A5BR em carga.
Eles vieram da Alemanha em contrato assinado em 2009, dentro de um lote total de 250 unidades, e as 30 restantes entraram justamente como fonte de peças e material de estudo.
As entregas foram concluídas até 2012, e os carros equipam regimentos de carros de combate no Sul do país.
As 52 viaturas do projeto correspondem a menos de um quarto da frota.
O Exército não divulga quantos dos 220 estão em condição de emprego imediato hoje.
A alternativa que ninguém quer
Quando não há peça e não há como fabricar, resta a canibalização.
Canibalizar é tirar componente de uma viatura parada para manter outra andando, e o resultado é uma frota que encolhe sem baixa formal.
É por isso que o lote de 30 carros comprado como fonte de peças existe desde o início.
O projeto de nacionalização é a tentativa de sair dessa lógica antes que ela consuma a frota.
A tropa segue treinando com o material que tem, e a 5ª Brigada de Cavalaria Blindada testou prontidão com tiro real em julho.
O substituto que ainda não chegou
A revitalização não resolve o problema de fundo, que é a idade do projeto.
O Leopard 1 é dos anos 1960, tem canhão de 105 milímetros e blindagem pensada para outra época de ameaça.
A discussão sobre a substituição passa por um blindado de 45 toneladas com canhão de 120 milímetros, mais leve que o padrão europeu.
Nenhuma decisão sobre o substituto foi anunciada, e a modernização mais profunda da frota atual chegou a ser postergada.
O que não foi divulgado
Não há valor público informado para o projeto de revitalização nem para a linha de nacionalização de componentes.
Também não foi divulgada a lista completa de peças já nacionalizadas, além dos exemplos do freio e do computador de tiro.
O Exército afirma que o conhecimento adquirido poderá ser aplicado a outros programas de manutenção e modernização de material militar.