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Uma fábrica de canos e sabres aberta em 1934 montou o fuzil belga sob licença a partir de agosto de 1964, nacionalizou 100% da produção em 1973, exportou o resultado para onze países e só adotou um projeto próprio em 23 de outubro de 2014

Uma fábrica de canos e sabres aberta em 1934 montou o fuzil belga sob licença a partir de agosto de 1964, nacionalizou 100% da produção em 1973, exportou o resultado para onze países e só adotou um projeto próprio em 23 de outubro de 2014
O IA2 em 7,62 por 51 milímetros: cano de 390 milímetros, 920 milímetros de comprimento com a coronha estendida e 4 quilos. O Exército adotou oficialmente a família em 23 de outubro de 2014. Foto: Vn.reis (CC BY-SA 4.0).
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A Fábrica de Itajubá nasceu em 1934, passou a integrar a Imbel em 1975 e levou do protótipo MD1, de 1983, até a adoção oficial do fuzil IA2 pelo Exército, em 2014, mais de três décadas de desenvolvimento.

Em 1934 o Brasil abriu em Minas Gerais uma fábrica com um nome que dizia exatamente o que ela fazia: Fábrica de Canos e Sabres para Armamento Portátil.

Trinta anos depois ela montava um fuzil belga sob licença.

Quarenta anos depois disso, entregava ao Exército um fuzil desenhado dentro de casa.

Entre uma coisa e outra houve licença estrangeira, nacionalização completa, exportação para onze países e um protótipo que levou três décadas para virar arma de dotação.

A fábrica que começou fazendo canos e sabres

A unidade de Itajubá, no sul de Minas Gerais, foi criada em 1934 com a função estreita que o nome anunciava: produzir canos e sabres para armamento portátil.

Sabre e cano de fuzil pedem metalurgia parecida, e foi essa competência em aço e usinagem que a unidade ofereceu ao país nos primeiros anos.

Não era uma fábrica de armas completas.

Era fornecedora de componentes para o sistema de fabricação militar que o país mantinha desde o século 18, quando surgiu o Arsenal de Guerra do Rio.

A ampliação de escopo veio junto com a decisão de padronizar o armamento da tropa.

A licença belga que chegou em 1964

Em meados dos anos 1960 foi assinado acordo com a belga Fabrique Nationale d’Armes de Guerre para a fabricação autorizada do fuzil FAL, no calibre 7,62 por 51 milímetros.

O programa começou em agosto de 1964.

O FAL era, naquele momento, o fuzil de dotação de boa parte do mundo ocidental.

A empresa belga que o desenhou no pós-guerra licenciou o projeto para dezenas de países, e o Brasil entrou nessa lista.

A produção sob licença resolvia dois problemas de uma vez: dava à tropa um fuzil moderno e transferia processo industrial para dentro do país.

1973, o ano em que o FAL ficou inteiramente brasileiro

A nacionalização não foi imediata.

Ela avançou peça por peça até que, em 1973, a produção passou a ser integralmente nacional.

Os modelos resultantes receberam designação própria, M964 e M964A1.

O M964 acompanhou a tropa brasileira por meio século e ainda hoje aparece em organizações que não entraram na fila de substituição.

A partir dali o país não dependia mais de remessa externa para armar a infantaria, e passou a poder vender.

Os onze países que compraram o FAL feito no Brasil

O fuzil produzido em Itajubá foi exportado para Austrália, Botsuana, Chile, Equador, Índia, Indonésia, Nova Zelândia, Peru, África do Sul, Uruguai e Venezuela.

A lista inclui países que tinham indústria própria de armamento e ainda assim compraram o exemplar brasileiro.

Foi a mesma janela em que a indústria militar brasileira encontrou espaço no mercado externo.

A Imbel nasce em 1975

Em 14 de julho de 1975 foi criada a Indústria de Material Bélico do Brasil, a Imbel, e a Fábrica de Itajubá passou a integrar o conglomerado estatal.

A mudança tirou a unidade da condição de oficina subordinada e a colocou numa estrutura empresarial, com outras fábricas e outras linhas de produto.

O protótipo de 1983 que demorou a virar fuzil

O primeiro passo do projeto próprio apareceu em meados de 1983, com um protótipo designado MD1.

Dele saíram versões intermediárias, entre elas o MD97L e o MD97LC, que já traziam seletor de tiro e uma carabina de cano curto.

Entre um e outro houve mudança de calibre, de coronha e de sistema de mira, num processo que atravessou governos e sucessivos planos de reequipamento.

A produção em série da linha começou em 2004.

A apresentação pública veio em meados de 2010, e a formal na feira LAAD de 2011.

A família: calibres, versões e pesos

O IA2 não é uma arma única, e sim uma família construída sobre o mesmo desenho.

Na versão fuzil em 5,56 por 45 milímetros, o cano tem 350 milímetros, o comprimento total chega a 850 milímetros com a coronha estendida e o peso fica em 3,4 quilos.

Na versão fuzil em 7,62 por 51 milímetros, o cano sobe para 390 milímetros, o comprimento vai a 920 milímetros e o peso a 4 quilos.

Há ainda carabinas nos dois calibres, uma delas com cano de 265 milímetros.

A configuração final da linha em 7,62 foi fechada em 2017.

A convivência entre os dois calibres na mesma família não é indecisão de projeto.

O 5,56 pesa menos por tiro e deixa o combatente levar mais munição no mesmo volume de carga.

O 7,62 entrega mais energia à distância e continua preferido em funções de precisão e de apoio.

Manter os dois sobre o mesmo desenho permite instruir a tropa numa única manipulação, com peças e comandos iguais.

A adoção oficial de 23 de outubro de 2014

A decisão formal do Exército Brasileiro pela adoção do IA2 tem data: 23 de outubro de 2014.

Entre o protótipo MD1 e essa assinatura passaram-se mais de trinta anos.

Antes disso a arma já havia passado por testes com o IA2 em unidades militares e em avaliações de tiro.

Vinte mil por ano, e a conta que isso dá

A fábrica de Itajubá produz atualmente cerca de 20 mil fuzis IA2 por ano.

As primeiras encomendas de vulto saíram em 2012 e 2013, antes da adoção formal, o que colocou a arma em uso na tropa antes da assinatura que a oficializou.

Esse ritmo é o que define o prazo real da troca, e não a decisão administrativa.

O que ainda falta trocar

A substituição do FAL não se resolve com um lote.

A Imbel projetou uma troca da ordem de 140 mil armas para cobrir todo o parque em uso.

Enquanto isso não se completa, as duas gerações convivem na tropa, e o fuzil belga de 1964 continua em serviço ao lado do sucessor nacional.

A mesma fábrica de Itajubá segue produzindo os dois, e a Imbel divide hoje o esforço de nacionalização com programas como o míssil anticarro MAX 1.2.

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Carlos Menezes

Carlos Menezes

Meu nome é Carlos Menezes e escrevo sobre geopolítica, defesa, aviação, economia e setores estratégicos, buscando traduzir temas complexos de forma clara, direta e conectada ao impacto que eles têm no dia a dia do Brasil e do cidadão comum. No Sociedade Militar, meu compromisso é entregar informação prática, contexto relevante e análises que ajudam o leitor a enxergar além da manchete.