A Fábrica de Itajubá nasceu em 1934, passou a integrar a Imbel em 1975 e levou do protótipo MD1, de 1983, até a adoção oficial do fuzil IA2 pelo Exército, em 2014, mais de três décadas de desenvolvimento.
Em 1934 o Brasil abriu em Minas Gerais uma fábrica com um nome que dizia exatamente o que ela fazia: Fábrica de Canos e Sabres para Armamento Portátil.
Trinta anos depois ela montava um fuzil belga sob licença.
Quarenta anos depois disso, entregava ao Exército um fuzil desenhado dentro de casa.
Entre uma coisa e outra houve licença estrangeira, nacionalização completa, exportação para onze países e um protótipo que levou três décadas para virar arma de dotação.
A fábrica que começou fazendo canos e sabres
A unidade de Itajubá, no sul de Minas Gerais, foi criada em 1934 com a função estreita que o nome anunciava: produzir canos e sabres para armamento portátil.
Sabre e cano de fuzil pedem metalurgia parecida, e foi essa competência em aço e usinagem que a unidade ofereceu ao país nos primeiros anos.
Não era uma fábrica de armas completas.
Era fornecedora de componentes para o sistema de fabricação militar que o país mantinha desde o século 18, quando surgiu o Arsenal de Guerra do Rio.
A ampliação de escopo veio junto com a decisão de padronizar o armamento da tropa.
A licença belga que chegou em 1964
Em meados dos anos 1960 foi assinado acordo com a belga Fabrique Nationale d’Armes de Guerre para a fabricação autorizada do fuzil FAL, no calibre 7,62 por 51 milímetros.
O programa começou em agosto de 1964.
O FAL era, naquele momento, o fuzil de dotação de boa parte do mundo ocidental.
A empresa belga que o desenhou no pós-guerra licenciou o projeto para dezenas de países, e o Brasil entrou nessa lista.
A produção sob licença resolvia dois problemas de uma vez: dava à tropa um fuzil moderno e transferia processo industrial para dentro do país.
1973, o ano em que o FAL ficou inteiramente brasileiro
A nacionalização não foi imediata.
Ela avançou peça por peça até que, em 1973, a produção passou a ser integralmente nacional.
Os modelos resultantes receberam designação própria, M964 e M964A1.
O M964 acompanhou a tropa brasileira por meio século e ainda hoje aparece em organizações que não entraram na fila de substituição.
A partir dali o país não dependia mais de remessa externa para armar a infantaria, e passou a poder vender.
Os onze países que compraram o FAL feito no Brasil
O fuzil produzido em Itajubá foi exportado para Austrália, Botsuana, Chile, Equador, Índia, Indonésia, Nova Zelândia, Peru, África do Sul, Uruguai e Venezuela.
A lista inclui países que tinham indústria própria de armamento e ainda assim compraram o exemplar brasileiro.
Foi a mesma janela em que a indústria militar brasileira encontrou espaço no mercado externo.
A Imbel nasce em 1975
Em 14 de julho de 1975 foi criada a Indústria de Material Bélico do Brasil, a Imbel, e a Fábrica de Itajubá passou a integrar o conglomerado estatal.
A mudança tirou a unidade da condição de oficina subordinada e a colocou numa estrutura empresarial, com outras fábricas e outras linhas de produto.
O protótipo de 1983 que demorou a virar fuzil
O primeiro passo do projeto próprio apareceu em meados de 1983, com um protótipo designado MD1.
Dele saíram versões intermediárias, entre elas o MD97L e o MD97LC, que já traziam seletor de tiro e uma carabina de cano curto.
Entre um e outro houve mudança de calibre, de coronha e de sistema de mira, num processo que atravessou governos e sucessivos planos de reequipamento.
A produção em série da linha começou em 2004.
A apresentação pública veio em meados de 2010, e a formal na feira LAAD de 2011.
A família: calibres, versões e pesos
O IA2 não é uma arma única, e sim uma família construída sobre o mesmo desenho.
Na versão fuzil em 5,56 por 45 milímetros, o cano tem 350 milímetros, o comprimento total chega a 850 milímetros com a coronha estendida e o peso fica em 3,4 quilos.
Na versão fuzil em 7,62 por 51 milímetros, o cano sobe para 390 milímetros, o comprimento vai a 920 milímetros e o peso a 4 quilos.
Há ainda carabinas nos dois calibres, uma delas com cano de 265 milímetros.
A configuração final da linha em 7,62 foi fechada em 2017.
A convivência entre os dois calibres na mesma família não é indecisão de projeto.
O 5,56 pesa menos por tiro e deixa o combatente levar mais munição no mesmo volume de carga.
O 7,62 entrega mais energia à distância e continua preferido em funções de precisão e de apoio.
Manter os dois sobre o mesmo desenho permite instruir a tropa numa única manipulação, com peças e comandos iguais.
A adoção oficial de 23 de outubro de 2014
A decisão formal do Exército Brasileiro pela adoção do IA2 tem data: 23 de outubro de 2014.
Entre o protótipo MD1 e essa assinatura passaram-se mais de trinta anos.
Antes disso a arma já havia passado por testes com o IA2 em unidades militares e em avaliações de tiro.
Vinte mil por ano, e a conta que isso dá
A fábrica de Itajubá produz atualmente cerca de 20 mil fuzis IA2 por ano.
As primeiras encomendas de vulto saíram em 2012 e 2013, antes da adoção formal, o que colocou a arma em uso na tropa antes da assinatura que a oficializou.
Esse ritmo é o que define o prazo real da troca, e não a decisão administrativa.
O que ainda falta trocar
A substituição do FAL não se resolve com um lote.
A Imbel projetou uma troca da ordem de 140 mil armas para cobrir todo o parque em uso.
Enquanto isso não se completa, as duas gerações convivem na tropa, e o fuzil belga de 1964 continua em serviço ao lado do sucessor nacional.
A mesma fábrica de Itajubá segue produzindo os dois, e a Imbel divide hoje o esforço de nacionalização com programas como o míssil anticarro MAX 1.2.
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