O segundo-tenente japonês só aceitou parar de lutar quando o major que lhe dera a ordem viajou até as Filipinas, em março de 1974, para revogá-la em voz alta na frente dele
Em dezembro de 1944 um segundo-tenente do Exército Imperial Japonês desembarcou numa ilha pequena das Filipinas com uma missão de retaguarda.
Ele tinha 22 anos e uma formação incomum para a época, treinamento em guerra irregular na Escola Nakano, a casa da inteligência militar japonesa.
A ordem que recebeu do seu superior era simples e teve uma consequência que ninguém previu.
Hiroo Onoda a cumpriu por 29 anos.
A ordem que virou uma sentença de três décadas
O major Yoshimi Taniguchi mandou Onoda ficar e lutar.
Nada de rendição, nada de suicídio ritual, o oposto do que se esperava de um oficial japonês daquele momento.
Na Escola Nakano a doutrina era outra, a de que o agente infiltrado vale mais vivo e operando do que morto com honra.
Ele deveria hostilizar o inimigo em Lubang pelo tempo que fosse necessário até que alguém do próprio Exército aparecesse para dizer o contrário.
Os americanos desembarcaram em Lubang em fevereiro de 1945.
A resistência japonesa organizada acabou em dias, poucos meses antes das bombas que gravaram sombras humanas em pedra.
Onoda subiu o morro com três homens e ali começou a contagem.
Quatro homens, três desfechos
O grupo levou meses sem entender que a guerra tinha terminado, depois anos, e finalmente passou a tratar qualquer notícia de rendição como propaganda inimiga.
Panfletos jogados de avião foram lidos como armadilha.
Jornais deixados na trilha foram descartados como falsificação.
O primeiro dos quatro se separou do grupo e entregou-se às forças filipinas em 1950.
O segundo morreu num tiroteio em 1954.
O terceiro, o último companheiro de Onoda, foi morto por policiais da ilha em 1972.
A partir daquele ano o tenente ficou sozinho na mata.
Era uma rotina de sobrevivência parecida com a que hoje se ensina em ambiente controlado, como no curso de operações na selva do Exército Brasileiro, com a diferença de que ninguém marcava a data do fim.
Comia banana, coco e carne de gado roubado das roças da ilha.
Fervia a água em latas recuperadas e dormia em abrigos de bambu que desmontava e mudava de lugar a cada poucos dias.
Desmontava o fuzil, limpava as peças com graxa de sebo animal e voltava a montar.
O custo para os moradores de Lubang
Essa parte da história costuma ficar de fora das versões românticas.
Onoda e seus homens não apenas sobreviveram, eles operaram.
Assaltaram roças, queimaram estoques de arroz, trocaram tiros com camponeses e com a polícia local durante quase três décadas.
O saldo apurado depois foi de cerca de 30 moradores da ilha mortos.
Do ponto de vista de Onoda eram ações de guerra contra um inimigo.
Do ponto de vista de Lubang eram ataques a civis.
A campanha das Filipinas foi uma das mais mortais do teatro do Pacífico, e o seu rastro continua sendo recolhido, como no caso dos destroços do Hofuku Maru, achados oito décadas depois com mais de mil prisioneiros a bordo.
O turista que foi procurar um soldado
Em fevereiro de 1974 um jovem japonês chamado Norio Suzuki desembarcou na ilha com uma lista de três objetivos declarados, e o primeiro deles era encontrar o tenente Onoda.
Levou quatro dias.
O encontro rendeu fotografias e uma resposta que fechava o assunto.
Onoda disse que só deixaria o posto se recebesse a ordem de um superior direto.
Suzuki voltou ao Japão com as fotos e com a incumbência de achar esse superior.
O major virou livreiro e teve que voltar à farda
O governo japonês localizou Yoshimi Taniguchi.
O antigo major estava aposentado e trabalhava com livros havia anos.
Ele aceitou viajar.
Em 9 de março de 1974, em Lubang, leu em voz alta para Onoda a ordem que encerrava a missão.
Só então o tenente aceitou que a guerra tinha acabado.
No dia seguinte Onoda entregou a sua espada ao presidente das Filipinas, Ferdinand Marcos.
Vestia o uniforme remendado e carregava o fuzil Arisaka, ainda em condições de uso, com munição.
O perdão que evitou o julgamento
Pela lei filipina havia crimes a responder.
Marcos concedeu o perdão e devolveu a espada, num gesto que resolveu o problema diplomático e encerrou a questão penal no mesmo ato.
Onoda voltou ao Japão como celebridade.
O país que ele conhecera em 1944 tinha desaparecido, e o herói de guerra que a imprensa apresentava não correspondia ao homem que descera do morro.
A distância entre a nação militarizada de 1945 e o Japão de 1974 é a mesma que separa o ataque a Pearl Harbor de um país reconstruído sob outra Constituição.
A saída pelo Brasil
Onoda não aguentou a exposição.
Em 1975 embarcou para o Brasil, onde um irmão já vivia.
Passou por São Paulo, Santos, Rio de Janeiro e Presidente Prudente, conversando com associações de imigrantes e com criadores de gado, antes de escolher onde parar.
Escolheu Terenos, em Mato Grosso do Sul, a 53 quilômetros de Campo Grande, na área da colônia japonesa da região.
Comprou 520 hectares e virou pecuarista, segundo a apuração do Correio do Estado, cujos repórteres o entrevistaram na fazenda com ajuda de intérprete.
A casa era de peroba e tinha oito cômodos, perto da BR-262, no meio do cerrado.
O casamento em São Paulo
Em 2 de maio de 1976 Onoda casou-se com Machie Onuki, instrutora de cerimônia do chá, então com 38 anos.
A cerimônia religiosa foi em São Paulo e teve representantes do governo japonês e autoridades brasileiras entre os convidados.
O jornal registrou que ele recebera dezenas de propostas de casamento vindas do Japão depois da repercussão de 1974.
A volta e a escola
Onoda retornou ao Japão em 1984 e fundou uma escola de natureza, um acampamento para crianças e adolescentes baseado em sobrevivência ao ar livre.
Passou a dividir o ano entre o Japão e a fazenda brasileira.
Ele morreu em Tóquio em janeiro de 2014, aos 91 anos.
Onoda não foi o último.
Em dezembro de 1974 o soldado Teruo Nakamura, taiwanês a serviço do Japão, foi encontrado na ilha de Morotai, na Indonésia.
E casos daquela campanha ainda produzem desdobramentos, como as buscas que devolvem nomes a mortos das Filipinas, entre eles um prisioneiro identificado 84 anos depois.
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