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Depois de 80 anos enterrado no pátio de uma universidade russa, um tanque Panther alemão saiu do chão em Kazan, e o mais estranho não é onde ele estava, e sim para que o departamento de explosivos o usava

Depois de 80 anos enterrado no pátio de uma universidade russa, um tanque Panther alemão saiu do chão em Kazan, e o mais estranho não é onde ele estava, e sim para que o departamento de explosivos o usava
Um Panzerkampfwagen V Panther em campo, na Itália: o modelo entrou em serviço em 1943 e pesava cerca de 45 toneladas. Foto do Bundesarchiv, licença CC BY-SA 3.0 de.

Operários de obra encontraram o Panzerkampfwagen V no subsolo de um prédio universitário; sem marca de identificação nem documento de arquivo, a origem de guerra do veículo continua indefinida.

Uma obra num pátio de universidade em Kazan, na Rússia, esbarrou em metal onde deveria haver terra.

Debaixo do piso estava um Panzerkampfwagen V Panther, tanque alemão da Segunda Guerra Mundial.

Ele estava ali havia cerca de oito décadas.

E não tinha caído em combate naquele lugar: tinha sido colocado ali de propósito.

O que é um Panther

O Panther foi o tanque médio que a Alemanha projetou depois de levar um susto com o T-34 soviético.

Entrou em serviço em 1943, com canhão de 75 milímetros de cano longo e blindagem frontal inclinada, cópia conceitual da solução que os soviéticos tinham adotado antes.

Pesava cerca de 45 toneladas.

Foram produzidos aproximadamente 6.000 exemplares até o fim da guerra.

O canhão era o ponto forte: perfurava blindagem a distância maior do que quase todo mundo conseguia responder.

O ponto fraco era a mecânica, que nunca acompanhou o peso do projeto.

Esconder material de guerra no subsolo é prática antiga, e vai do tanque enterrado à base naval subterrânea escavada pela Suécia.

A estreia que deu errado

O batismo de fogo aconteceu em Kursk, em julho de 1943, na maior batalha de blindados da história.

Boa parte dos Panthers empregados ali quebrou antes de entrar em combate, por falha de transmissão e incêndio de motor.

Foi ali que o Exército Vermelho pôs a mão em vários exemplares pela primeira vez.

É de Kursk que pode ter vindo o tanque de Kazan, embora ninguém consiga provar.

A União Soviética levou exemplares capturados para centros de estudo, desmontou peça por peça e publicou relatórios técnicos internos.

Parte desse material acabou distribuída para universidades e institutos, longe da frente.

Kazan fica a mais de 700 quilômetros a leste de Moscou e recebeu indústria e universidade evacuadas durante a guerra.

É um destino plausível para um casco capturado que já não servia para combate.

Sem número, sem ficha

O problema da identificação é justamente a ausência de marcas.

Não apareceram numerais de unidade, insígnia, número de chassi legível nem documentação de arquivo ligando aquele casco a uma captura específica.

Sem isso, a origem de guerra do veículo permanece indefinida.

Restou o mais concreto: o que fizeram com ele depois.

O departamento de explosivos

Terminada a guerra, o tanque não virou sucata nem monumento.

Ele foi instalado enterrado, junto ao departamento universitário que pesquisava explosivos e pirotecnia.

Um casco blindado de 45 toneladas enterrado ao lado de um laboratório desses tem uso evidente: serve de estrutura de contenção e de anteparo para ensaio.

Aço de blindagem aguenta pressão e estilhaço melhor do que qualquer estrutura que a universidade construiria na época.

Comprar chapa daquela espessura custaria caro, e o casco capturado saiu de graça.

Aço homogêneo de blindagem aguenta pressão e estilhaço melhor do que qualquer estrutura que a universidade conseguiria construir na época.

Blindagem alemã capturada virou bancada de teste soviética.

Acervo militar guarda de tudo, e o Museu do Exército reúne desde blindado até uma mecha de cabelo de Napoleão.

A diferença é que ali as peças estão catalogadas.

É o tipo de destino que não entra em livro de história militar porque não tem nada de heroico nele.

Tanque enterrado não é novidade

Enterrar blindado é prática militar antiga e documentada.

Os próprios alemães usaram torres de tanque instaladas em base de concreto como posição fixa de defesa, sem casco e sem motor.

Quando o veículo já não anda, o que sobra dele é aço grosso, e aço grosso continua valendo alguma coisa.

Depois da guerra, sucata de blindado virou matéria-prima de reconstrução em meia Europa.

Foi o mesmo raciocínio que levou exércitos a enterrar estrutura inteira: o que está sob a terra não aparece na foto aérea.

O que sobra de um Panther hoje

Dos milhares fabricados, sobraram poucas dezenas no mundo.

A maior parte está em museu militar na Europa, e a Rússia guarda exemplares capturados no acervo de blindados de Kubinka.

Qualquer casco novo que apareça entra automaticamente numa lista curta.

Exemplar em condição de rodar vale milhões no mercado de colecionador e é disputado por museu.

Peça enterrada, porém, entra na fila de restauro e não de exposição.

Museu militar vive dessas peças, e casco raro é disputado entre instituições.

O estado em que saiu do chão

Casco enterrado por oitenta anos sai corroído, com o interior tomado por terra e água.

Motor, transmissão e sistema elétrico não sobrevivem a isso.

O que costuma restar é a estrutura de aço, o canhão e as rodas de rolamento.

Antes de qualquer movimentação, a peça precisa ser vistoriada por equipe de desativação, porque casco enterrado às vezes vem com munição a bordo.

Mesmo assim, casco original é casco original: não existe reprodução que valha o mesmo.

Réplica circula em filme e em evento, mas não entra em acervo sério.

Restauração desse tipo leva anos e depende de peça que não se fabrica mais, problema que a indústria nacional conhece bem, como na fábrica de cofres que virou montadora.

O que ainda pode aparecer

Achado desse tipo continua acontecendo porque a guerra deixou material espalhado por meio continente.

Aparece blindado em fundo de rio, avião em pântano e instalação inteira sob o gelo, como os 21 túneis da Groenlândia.

A diferença do caso de Kazan é que o tanque não foi esquecido: alguém sabia que ele estava ali.

A informação só se perdeu quando as pessoas que o instalaram saíram de cena.

Oitenta anos depois, ninguém na universidade sabia o que havia debaixo do próprio pátio.

Foi preciso uma obra para descobrir, e o casco saiu inteiro.

O destino dele agora depende menos de técnica e mais de quem paga a conta do restauro.

Restauro de blindado dessa idade passa dos milhões e leva anos de oficina.

A universidade ainda não anunciou o que fará com a peça.

O destino do casco ainda não foi definido pela universidade.

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Jefferson Silva

Jefferson Silva

Atuo na Sociedade Militar trazendo análises e conteúdos relacionados a Geopolítica, Tecnologia militar, Industria de Defesa e Inteligência Artificial.