Enquanto Brasília e Washington atravessam um período de tensão política, diplomática e comercial, uma das conexões mais antigas entre os dois países segue funcionando com aparente normalidade: a relação direta entre suas Forças Armadas.
Segundo O Globo, integrantes das cúpulas militares do Brasil e dos Estados Unidos continuam realizando reuniões bilaterais e mantendo contatos entre Exército, Marinha e Força Aérea, sem indicação, até o momento, de ruptura ou mudança significativa nas agendas previstas.
A continuidade ocorre mesmo em um cenário no qual divergências entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump passaram a envolver comércio, diplomacia e diferentes questões relacionadas à segurança regional.
Canais militares seguem funcionando
A manutenção da interlocução não significa que militares brasileiros e americanos estejam imunes às decisões políticas tomadas pelos dois governos.
As relações de Defesa, porém, possuem mecanismos institucionais, exercícios, intercâmbios e programas de treinamento construídos ao longo de vários anos, o que ajuda a explicar por que determinados contatos continuam mesmo durante períodos de maior tensão diplomática.
Em maio, quando Washington decidiu classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas segundo a legislação americana, a CNN Brasil já havia informado que integrantes das Forças Armadas procuravam impedir que a controvérsia contaminasse a chamada “diplomacia militar” entre os dois países.
No mês seguinte, militares de alta patente ouvidos pelo UOL classificaram a cooperação militar entre Brasil e Estados Unidos como “forte e consolidada” e afirmaram que esse relacionamento institucional transcende divergências pontuais entre governos.
Tomás Paiva esteve em Washington
Um dos exemplos mais importantes dessa interlocução envolve o comandante do Exército Brasileiro, general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva.
Segundo O Globo, Tomás esteve há poucos meses em Washington para compromissos que incluíram contatos com militares americanos e, de acordo com integrantes das Forças Armadas ouvidos pelo jornal, teria sido “muito bem recebido”.
A presença do comandante brasileiro na capital americana em março é confirmada também pela Junta Interamericana de Defesa (JID).
Em 26 de março, Tomás Paiva esteve na sede da instituição, onde foi recebido pelo diretor-geral do secretariado, general Reinaldo Salgado Beato, em uma agenda dedicada à cooperação, segurança e Defesa no continente.
O UOL também registrou que a viagem ocorreu dentro de uma missão de integração e intercâmbio com os Estados Unidos.
General de quatro estrelas dos EUA deve vir ao Brasil
Agora, o movimento deverá ocorrer no sentido inverso.
Segundo O Globo, está prevista para o segundo semestre uma visita ao Brasil do general Joseph A. Ryan, uma das principais autoridades atuais do Exército dos Estados Unidos.
Ryan é um general de quatro estrelas e comanda o recém-criado U.S. Army Western Hemisphere Command, ou Comando do Hemisfério Ocidental do Exército americano.
A estrutura foi ativada em dezembro de 2025 e possui responsabilidade sobre a atuação do Exército americano em apoio tanto ao Comando Norte quanto ao Comando Sul dos Estados Unidos, abrangendo cooperação de segurança em todo o Hemisfério Ocidental.
Isso dá peso especial à eventual visita de Ryan ao Brasil.
O comando que ele dirige tem entre suas missões justamente cooperação regional, resposta a crises, defesa do território americano e integração com forças parceiras nas Américas.
Até o momento, porém, a data específica e os detalhes da agenda de Ryan no País não foram divulgados publicamente nas fontes oficiais consultadas.
Brasil acaba de participar de exercício patrocinado pelos EUA
Outro sinal concreto de continuidade apareceu neste próprio mês de agosto.
O Brasil participou do PANAMAX 2026, exercício multinacional realizado entre 3 e 14 de agosto e patrocinado pelo Comando Sul dos Estados Unidos.
A edição reuniu 19 países e treinou estruturas multinacionais para planejamento e execução de operações complexas relacionadas à proteção do Canal do Panamá e à segurança regional.
A Força Aérea dos Estados Unidos confirmou especificamente a presença de militares brasileiros no componente aéreo do exercício, ao lado de integrantes de países como Argentina, Colômbia, Peru, Equador e Paraguai.
O treinamento aconteceu justamente durante o período em que as divergências políticas entre Brasília e Washington estavam em evidência.
Cursos e intercâmbios também continuaram
A continuidade não ocorre apenas nas reuniões de alto nível.
Um levantamento publicado pelo ICL Notícias mostrou que, entre o segundo semestre de 2025 e julho de 2026, militares brasileiros continuaram participando de cursos, exercícios conjuntos, atividades navais e treinamentos ligados às áreas cibernética e espacial nos Estados Unidos.
No período, o Exército autorizou pelo menos US$ 800 mil em pagamentos antecipados relacionados a cursos militares nos EUA, além de manter mecanismos financeiros destinados a exercícios em centros de treinamento americanos.
Essas atividades reforçam que a cooperação militar não depende exclusivamente do clima das relações entre os presidentes.
Ela envolve planejamento realizado com antecedência, compromissos entre instituições, formação de pessoal e objetivos de interoperabilidade desenvolvidos ao longo de diferentes governos.
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