As duas maiores facções brasileiras avançaram sobre Santa Cruz e Beni para encostar na zona de produção de cocaína, e a mudança trocou o modelo de compra e trânsito pelo controle direto do território, com a violência que vem junto.
A logística explica a mudança de endereço. As duas maiores organizações criminosas do Brasil deslocaram progressivamente do Paraguai para a Bolívia o centro das suas operações internacionais, num movimento que se acumulou ao longo da última década, segundo o El Tiempo. O destino desse avanço é a mesma faixa por onde a FAB interceptou um avião sem plano de voo em 31 de julho.
O que a Bolívia oferece que o Paraguai não oferecia
A Bolívia é o terceiro maior produtor mundial de cocaína, atrás de Colômbia e Peru, de acordo com as Nações Unidas. O Paraguai, por comparação, é rota e entreposto, não produtor, o que obrigava as facções a comprar de intermediários antes de embarcar a droga.
Encostar na produção corta esses intermediários. Segundo o El Tiempo, a proximidade das plantações de coca e dos laboratórios de refino permite às organizações reduzir atravessadores, ampliar a margem de lucro e ganhar autonomia logística, controlando diretamente as rotas que ligam a América do Sul aos mercados da Europa, da África e da Ásia.
A fronteira que torna isso possível
A Bolívia divide mais de 3.400 quilômetros de fronteira com o Brasil, segundo o El Tiempo, em boa parte fronteira seca, sem rio nem obstáculo natural que force a passagem por um ponto de controle. É a divisa terrestre mais extensa que o Brasil tem com qualquer vizinho.
Essa extensão é a razão pela qual o Exército mantém tropa permanente na faixa e a Força Aérea trata o espaço aéreo da região como prioridade. A inteligência militar brasileira estima que a rota da cocaína movimente R$ 50 bilhões por ano.
Onde as facções se instalaram
O avanço se concentrou em Santa Cruz e Beni, segundo o El Tiempo. Santa Cruz é o departamento mais rico e mais extenso da Bolívia, com aeroporto internacional, malha rodoviária e economia agropecuária, condições que servem tanto ao comércio legal quanto ao ilegal.
Dentro desse departamento, San Matías virou um foco. O município tem cerca de 15 mil habitantes, fica colado na divisa com Mato Grosso e concentrou boa parte dos nove assassinatos registrados pelo governo boliviano em menos de cinco dias no fim de julho.
A mudança de método
O que mudou não foi só o endereço, foi o modelo de negócio. Segundo o El Tiempo, as facções deixaram de operar apenas como compradoras em trânsito e passaram a buscar o controle de toda a rede logística e dos contatos locais, o que exige presença física permanente no território.
Controle territorial produz disputa territorial. A consequência descrita pelas fontes bolivianas é a chegada de métodos já vistos no Brasil e no Paraguai: assassinatos seletivos, emboscadas, sequestros, uso de pistoleiros contratados e ataques diretos contra policiais.
O que o governo boliviano diz
O ministro de Governo da Bolívia, Marco Antonio Oviedo, resumiu a violência recente como uma briga de corredor. Segundo ele, as duas organizações “estão brigando por um corredor pelo qual os narcotraficantes tiram droga para o exterior”.
A resposta anunciada combina polícia e tropa. O governo mobilizou grupos táticos e militares do Regimento de Infantaria 14 Florida para San Matías e anunciou o plano Fronteras Seguras em quatro pontos críticos da fronteira com o Brasil: Cobija, Guayaramerín, Puerto Suárez e o próprio San Matías.
O tamanho das duas organizações
As facções que disputam o corredor boliviano não são grupos locais. O Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho estão presentes em 25 estados brasileiros e no Distrito Federal, segundo levantamento citado pelo Ministério da Defesa.
As duas foram incluídas pelos Estados Unidos na lista de organizações terroristas em maio de 2026. Do lado brasileiro, a resposta militar mais recente é a Operação Jaguaretê-Oeste, que emprega mais de 600 militares e agentes por dia na faixa de fronteira de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina.